Bem-vindo ao universo de Luciano Huck, candidato-espetáculo

Ironizando a presença de Luciano Huck em Davos, na Suíça, e na novela da Rede Globo, o colunista Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia, utilizou as reflexões do intelectual Guy Debord para tratar do "espetáculo" de Huck. "Debord deixa claro que nas sociedades de nosso tempo o termo 'espetáculo' está longe de designar aquilo que se vê no teatro, mas designa a embalagem ideológica que acompanha a vida cotidiana, procurando lhe dar sentido e coerência, condição para preservação de uma ordem de exploração e submissão", escreve

Luciano Huck
Luciano Huck (Foto: Reprodução)

Por Paulo Moreira Leite, para o Jornalistas pela Democracia

Ontem, o candidato presidencial Luciano Huck podia ser visto em dois lugares ao mesmo tempo. Ao vivo, apareceu em Davos e fez comentários previsíveis sobre seu futuro político. 

A noite, surgiu de repente num dos capítulos de Amor de Mãe, a novela das 9 da Globo, que vai ao ar após o Jornal Nacional. 

Sem qualquer aviso, Huck representou a si próprio numa cena na casa da família da personagem vivida por Regina Casé, núcleo central de um drama de subúrbio do Rio de Janeiro, cenário das dificuldades que marcam o cotidiano da maioria dos brasileiros e brasileiras. 

Depois de maravilhar os personagens presentes, com o encantamento que acompanha as celebridades, ao sentar-se num sofá da modesta sala de visitas, Huck pronunciou a frase mágica de seu caldeirão televisivo. 

Estava ali para ajudar, disse, esclarecendo que pretendia auxiliar um dos personagens, Ryan (Thiago Martins), a se tornar um ídolo da música popular. Tudo sob o patrocínio de uma empresa de telefonia pois, afinal, nem Huck nem a Globo estão para brincadeira. 

Num vídeo gravado e divulgado com a finalidade de reforçar a imagem de bom-moço, Huck explicou o que foi fazer na Suíça, naquele encontro onde políticos, executivos e sabujos do mundo inteiro prestam reverência no altar do neoliberalismo, sistema de poder e exploração econômica que tem contribuído para o avanço da pobreza mundial, a inviabilização de nações inteiras -- e um ninho de 0,1 de bilionários que controlam 50% da riqueza mundial.  

Com o cuidado de quem compreende a necessidade de afastar  más impressões, no vídeo Huck fez questão de garantir que o Fórum de Davos não é "uma seita secreta para definir os rumos do mundo". Como se estivesse a caminho de um seminário da Teologia da Libertação dos anos 60, afirmou que em Davos ocorre um encontro "para tentar fazer o mundo um lugar mais igualitário, mais justo e para repensar um pouco os fundamentos do capitalismo". 

Empregando um argumento típico de quem, por via das dúvidas, evita assumir qualquer responsabilidade, esclareceu: "como estou numa fase da vida que quero aprender, onde fazer pergunta é mais legal do que saber resposta, eu estou aqui". (Estado de S. Paulo, 24/1/2020). Essa abertura de espírito nem sempre funciona. No segundo turno de 2018, quando teve oportunidade de votar em Fernando Haddad, Huck preferiu votar em Jair Bolsonaro. Mais recentemente reclamou que o governo que ajudou a eleger assumira um gesto fascista.

Fica mais fácil compreender as duas cenas de um mesmo personagem com auxílio de Guy Debord (1931-1994), um dos principais pensadores do maio-68 na França.

Raro intelectual capaz de se debruçar de modo crítico sobre a publicidade, o poder descomunal da mídia, a burocratização dos sistemas políticos e outros traços do capitalismo contemporâneo, Debord é autor de um livro importante, ainda que difícil em várias passagens, "A Sociedade do Espetáculo". 

Na obra, Debord deixa claro que nas sociedades de nosso tempo o termo "espetáculo" está longe de designar aquilo que se vê no teatro, no cinema ou na TV, mas designa a embalagem ideológica que acompanha a vida cotidiana, procurando lhe dar sentido e coerência, condição para preservação de uma ordem de exploração e submissão.   

Descrevendo um mundo cada vez mais alienante, refere-se ao esquecimento da História e ao abandono da memória como  elemento típico de um tempo no qual o homem comum -- em particular trabalhadores e trabalhadoras -- foram despossuídos dos meios concretos de acompanhar e compreender cada passo da evolução humana, inclusive aquilo que se operava contra eles próprios e suas necessidades. Espetáculo, assim, é o "abandono da história" e a "falsa consciência do tempo". 

Neste universo, tudo ocorre para transformar cidadãos em espectadores, à semelhança do que ocorreu na cena de "Amor de Mãe", quando os atores representaram personagens que ficaram deslumbrados na presença de Luciano Huck em carne e osso.    

"Imobilizada no centro falsificado de seu mundo, a consciência espectadora já não conhece em sua própria vida uma passagem para a sua realização e sua morte", escreve Debord. Na mosca. 

Numa visão de mundo onde a crítica se alimenta de um pessimismo profundo e duro, que talvez explique sua morte por suicídio, Guy Debord tinha o espaço reservado para alguma esperança. 

"O mundo já possui o sonho de um tempo", escreveu, numa referência a imensa vontade de transformação social de tantas gerações, 1968 e mais adiante. "Para vivê-lo de fato, deve agora possuir consciência dele". 

Para o Brasil de 2020, num universo tão distante da França dos anos 1960, pela história, pela geografia, pelo que você quiser, Guy Debord deixou uma observação útil para entender o candidato-espetáculo: "Ninguém acredita de fato no espetáculo".  

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