Big Techs: teia de aranha digital-financeira entra em novo patamar de acumulação e controle

“O uso das técnicas digitais faz parte do desenvolvimento da ciência e tecnologia, mas a sua direção e seu controle não são naturais. Os algoritmos têm dono. Os donos dos dinheiros. É dessa relação que se tem o imbricamento entre o digital e o real, o valor fictício e o valor da produção e o enlace entre o global e o nacional”, destaca o jornalista Roberto Moraes

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(Foto: Paulo Emílio)


Não é necessário nem ser um observador assim tão atento, para perceber que as Big Techs estão entrando num novo patamar de atuação, muito para além do que supõe o uso de um notebook ou celular conectados à internet.

Não é só o “clube dos trilhões de dólares” em termos de valor de mercado que demonstra o porte destes maiores oligopólios da história da humanidade, em termos de escala e capacidade de acumulação. Vale registrar que juntas, as Big Techs americanas já passaram, e bem, dos US$ 10 trilhões.

Porém, faço questão de me referir aos avanços da prática anticoncorrencial monopolista dentro dos setores específicos de tecnologia em que atuam. Há até alguma concorrência entre elas em algumas áreas de atuação comum, mas são quase um despiste para negar a prática monopolista, mas no geral os ganhos em escala, são em setores muito específicos de cada uma das Big Techs.

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O fato é que existe uma incapacidade regulatória nacional para um setor que usa atua globalmente. Isto é o maior dos entraves. As Big Techs sabem disso e operam nesse veio. O mesmo acontece na questão tributária, em que as gigantes de tecnologia possuem sedes regionais localizadas em “esconderijos fiscais”, também chamados de paraísos fiscais. Estes permitem sonegações bilionárias que juntas já passam da casa do trilhão de dólares e alimentam a farra das chamadas “empresas offshores”.

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A economia de plataformas realiza um mix de dataficação, financeirização e neoliberalismo. Não há como analisar as Big Techs e a dominação tecnológica-digital que elas exercem na condição de “empresa-plataformas-raiz” fora do contexto da hegemonia financeira do capitalismo contemporâneo. Tanto na atração de capitais (fundo hedge e venture capital) nos processos de capitalização, quanto na extração de valor da economia real e da produção.

Fluxos de capitais, derivativos, inovações financeiras APPficadas de todo o tipo, gestoras de fundos, criptomoedas + outras moedas digitais, são partes desta utopia tecnocrática do dinheiro apolítico e do descolamento da gestão dos Estados-nacionais.

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As Big Techs já divulgam abertamente que são bases fundamentais para todo esse movimento. Backbones (espinhas dorsais) que criam as condições para essas inovações financeiras e para estes fluxos colossais - e quase incontroláveis - de capitais mundo afora.

Diariamente, a Microsoft, que está próximo de passar a Apple na liderança de valor de mercado entre as Big Techs, rumo aos US$ 3 trilhões, divulga que a maioria das grandes empresas do ocidente, de vários setores da economia, dependem do seu “Workspace”, para continuar operando, existindo e capturando valor da economia real.

É aí que as Big Techs encontram ponto de tangência para se imbricar à economia real no e-commerce, indústria 4.0, indústria das informações e mídia e também nos bancos digitais-fintechs, moedas digitais, tokenização (divisão de propriedades com uso de metadados e registros no blockchain), etc.

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É nesse sentido que o meta(verso) anunciado pelo Facebook, mas já presente no planejamento também da Microsoft, Google, Amazon e Tesla, como paradoxo do mundo real capturado para um universo abstrato - a partir de nossos dados -, vão fazer ressurgir, sob a forma de avatares, entre o mundo real e o fictício. Um movimento que é similar ao que faz o capital e também as informações, quando misturam o que é fato real daquilo que é falso (fake), como instrumento de manipulação e controle sobre o poder político e o Estado.

O uso das técnicas digitais faz parte do desenvolvimento da ciência e tecnologia, mas a sua direção e seu controle não são naturais. Os algoritmos têm dono. Os donos dos dinheiros. É dessa relação que se tem o imbricamento entre o digital e o real, o valor fictício e o valor da produção e o enlace entre o global e o nacional.

Porém, este novo patamar de atuação das Big Techs e de controle sobre a economia, a política e o cotidiano ganham maior potência quando e onde ocorre o enlace do mundo da tecnologia com o mundo das finanças. São vários os cruzamentos e interfaces entre um e outro e esse é um dos pontos que merece um olhar, ou uma mirada em especial.

Um espaço em rede e crescente, assim como uma teia de aranha tecida dia a dia, a partir de pontos (origem e destinos) transfronteiriços, por onde circulam as finanças digitalizadas que deram origem, retroalimentam e expandem os modelos de negócios das Big Techs não pensados em sua gênese.

Ainda é pouco percebido a forma como a dominação tecnológica subtraiu do Estado - e a favor do mercado -, o poder de monopólio não apenas de emissão de moedas e meios de circulação, mas de registro de fluxos de negócios e de garantia, que antes só o Estado exercia.

A transferência de quatrilhões de dados diariamente também contribui para desmaterializar o dinheiro que se transforma apenas em informação e assim ampliam a extração de mais valor da economia real. Essa de crises em crises, tenta conviver com os conflitos da desigualdade crescente que vai multiplicando os milhões de trabalhadores precarizados e sem direitos. Eles atuam na produção, serviços (inclusive das plataformas digitais) e na circulação material via explosão do e-commerce. Tudo isso cria novos oligopólios e suga as economias regionais.

As empresas-plataformas-raiz atuam na intermediação (circulação). São meios de comunicação e de produção e também - e cada vez mais - meios de troca (e pagamentos) articulados em rede. Trata-se de um sistema integrado e terrivelmente disruptivo (até aqui) em termos civilizacionais.

Produzem desejos e controlam os nossos imaginários a partir da ideia-gênese do neoliberalismo controlado pelo mercado. Um processo que avança sob total controle do mercado, fortalecendo a plutocracia que emerge, em meio ao autoritarismo de um Estado pós-democrático.

Estado máximo para o mercado e mínimo para a maioria mantida sob controle, num contexto histórico de intensificação do neoliberalismo. Uma espécie de neoliberalismo digital.

Será que seguiremos assistindo o desenrolar destes fatos-movimentos ou será possível alterar o curso essa teia de aranha tecnocrática-financeira que nos aprisionam?

PS.: Esse texto se refere mais às Big Techs americanas e sua relação com o mundo ocidental. A análise das Big Techs asiáticas e chinesas merecem uma análise à parte e/ou complementar sobre o fenômeno da dominação tecnológica-digital e sua relação com a ampliação da hegemonia financeira.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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