Bill de Blasio e e Bernie Sanders te aguardam, Zero03

A embaixada brasileira em Washington, posto mais importante da diplomacia no exterior, há meses sem titular, pode ter em breve um embaixador que tem entre suas qualificações já ter fritado hambúrguer nos Estados Unidos.

A embaixada brasileira em Washington, posto mais importante da diplomacia no exterior, há meses sem titular, pode ter em breve um embaixador que tem entre suas qualificações já ter fritado hambúrguer nos Estados Unidos. Esse é o país em que vivemos. A indicação para o posto, e o imediato aceite do convidado, mostraram que tratava-se de uma ação articulada de Jair Bolsonaro e de seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, o Zero03, e não mais um dos factoides presidenciais. É de se surpreender apenas que Eduardo conforme-se com a embaixada e não com o cargo de chanceler, que, para muitos, ocupa informalmente, tal a fragilidade intelectual e moral de Ernesto Araújo. Eduardo, que fez 35 anos na última quarta-feira – bingo! -, por sinal idade mínima exigida de embaixadores, só tem que passar por um pequeno obstáculo para chegar a Washington. E esse obstáculo vai mostrar o grau de servidão do Senado brasileiro, a quem cabe, pela Constituição – sim, ela ainda existe – sabatinar o candidato a embaixador. Em um país normal, que não vivesse a distopia atual, teria suas credenciais rejeitadas. Mas não é isso o que deve acontecer, por mais que o convite em família pareça risível e constrangedor. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, foi o primeiro a sair em defesa do direito do presidente de nomear quem quiser – daí você imagina. Resta saber o quanto ele manda na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, local do primeiro round antes do plenário do Senado.

Mas há, ao menos, o tempero para a polêmica – o que já é muito nos dias de hoje. Primeiro, pelo motivo óbvio, o nepotismo.  Ou filhotismo, como descreveu o jornalista Chico Alves (Leia). Não se trata apenas de uma questão jurídica. “Ele chegou para nos governar e governar bem, não para proporcionar o Estado aos familiares”, afirmou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, sobre a indicação de Eduardo. A lei, no entanto, é ambígua, e o Supremo, suficientemente omisso e dividido, para que seja possível esperar que algo saia dali. A questão, porém, transcende o aspecto legal. Eduardo, obviamente, não tem as qualificações para a função, a não ser falar inglês supostamente fluente – “the pen is on the table” – e ser amigo dos filhos de Trump. Como Bolsonaro, Trump que permite e estimula a influência da chamada primeira-família dos EUA em assuntos de Estado, como uma extensão dinástica do poder que lhe foi concedido pelo voto. Ivanka Trump, junto com o genro Jared Kushner, age como uma conselheira sênior do pai, pode circular e palpitar livremente em qualquer reunião. Há no caso de Trump uma razão oculta, que, não se sabe, é a mesma de Bolsonaro. Mais que arrumar uma boquinha para a prole, Trump vê Ivanka como uma imbatível candidata presidencial. Deixa Carluxo saber disso.

O fato de presidir a Comissão de Relações Exteriores da Câmara, um arranjo que, agora se sabe, tinha finalidade certa, e de ter feito várias viagens ao exterior na aba das comitivas do pai, tampouco o qualificam mais. Eduardo continua sendo o garoto que idolatra, como o pai, o american way of life, a ponto de andar armado, que usa boné do FBI e que acha que comunista bom é comunista morto. Como lembrou o analista Helio Gurovitz, um embaixador precisaria, no mínimo, conhecer a fundo as relações políticas e comerciais entre os dois países, ter experiência em negociações e na administração de contenciosos. No caso americano, em que está na mesa uma proposta de acordo de livre-comércio, também precisaria ter intimidade com as demandas da indústria e do agronegócio. Zero03 mal domina o orçamento doméstico.

Pior. Eduardo está casado ideologicamente com os ideais de Bolsonaro pai, do chanceler Araújo, indicado por Olavo de Carvalho, e cacifado internamente pelo apoio de Clifford Sobel, empresário e ex-embaixador dos EUA no Brasil, e um dos principais arrecadadores de fundos para o Partido Republicano. Acontece que, graças a Deus, Trump não será presidente para sempre – não mesmo. O alinhamento de Bolsonaro com Trump, culminando com a nomeação de Eduardo, ligado ao mais reacionário do mundo político americano, gente como Matteo Salvini ou Viktor Orbán, pode colocar não só a família, mas o pais, numa tremenda saia justa na eventualidade de um futuro governo democrata, o que será decidido pelo povo americano no vizinho novembro de 2020. O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, o que não aceitou oferecer jantar de gala a Bolsonaro para dar-lhe uma honraria, e Bernie Sanders, autodescrito como socialista democrático, estão entre os concorrentes. Se cuida, Zero3.

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