Biopolítica x necropolítica: a disputa paradigmática eleitoral entre a gestão da vida e a administração da morte
No campo da biopolítica, as políticas de cuidado são uma marca dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva
A compreensão dos desafios eleitorais exige a articulação entre dois conceitos centrais da teoria crítica: a biopolítica (Michel Foucault), e a necropolítica (Achille Mbembe). Enquanto a primeira descreve como o poder moderno se organiza para administrar, regular e otimizar a vida, a segunda evidencia sua face mais brutal: a capacidade de decidir quem deve morrer ou ser deixado à própria sorte.
Essas categorias deixam de ser apenas construções teóricas e se tornam ferramentas fundamentais para interpretar o presente. De um lado, uma visão de mundo marcada pela guerra e pela conquista; de outro, uma lógica de cuidado voltada à promoção de uma vida digna. Trata-se de uma disputa que resgata a dimensão existencial do ser humano e se intensifica em períodos de crise.
No campo da biopolítica, as políticas de cuidado são uma marca dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva. Longe de surgirem de forma isolada, conectam-se à base construída em seus mandatos anteriores, sendo atualizadas diante dos novos desafios sociais. Programas como o Bolsa Família e o Fome Zero, responsáveis por uma inflexão histórica no combate à pobreza, retornam sob novas configurações — como o novo Bolsa Família e o Brasil Sem Fome —, agora ampliados e mais focalizados. Iniciativas como o Farmácia Popular e o Mais Médicos reforçam o acesso à saúde, enquanto o Minha Casa, Minha Vida é relançado com foco nas camadas mais vulneráveis.
Essa continuidade revela uma linha estruturante baseada no cuidado, aliada à capacidade de adaptação. Não se trata de repetição, mas de reconfiguração de políticas eficazes diante de um cenário mais complexo de desigualdades. O resultado é a consolidação de um projeto que reafirma o papel do Estado na promoção da dignidade social.
No plano internacional, em um mundo marcado por guerras, disputas geopolíticas e polarização entre potências, Lula tem buscado reposicionar o Brasil como uma voz ativa em defesa da paz. Apostando no diálogo e no multilateralismo, defende soluções negociadas e evita alinhamentos automáticos, retomando a tradição diplomática brasileira. A estratégia é clara: atuar como interlocutor em um cenário fragmentado, valorizando a cooperação internacional e a construção de consensos.
Em contraste, a necropolítica pode ser observada em contextos onde a gestão estatal naturaliza a exposição de populações à morte e à precariedade. No Brasil, o governo Bolsonaro foi amplamente criticado pela condução da pandemia de Covid-19, marcada pela minimização dos riscos e pela resistência a medidas sanitárias mais rigorosas. Soma-se a isso uma retórica de confronto, o incentivo ao uso ampliado da força e o enfraquecimento de políticas sociais, especialmente em territórios periféricos e entre populações vulneráveis.
Nesse cenário, a necropolítica se manifesta tanto por ações diretas quanto pela omissão estatal, evidenciando uma lógica que hierarquiza vidas e tolera — ou mesmo produz — condições de morte evitável.
Essa lógica também se expressa no cenário internacional. O neofascismo associado a Donald Trump revelou uma política externa centrada na pressão econômica, na militarização e na perseguição a imigrantes. As tensões na Ásia Ocidental, o alinhamento com Israel e o agravamento de conflitos evidenciam impactos diretos sobre populações civis. O apoio à guerra na Ucrânia, por sua vez, ilustra a combinação entre interesses geopolíticos e decisões militares que afetam milhões de vidas.
Na América Latina, sanções e bloqueios contra Cuba e Venezuela ampliaram vulnerabilidades sociais. Paralelamente, o uso de tarifas como instrumento de pressão econômica e a política migratória baseada em detenções, deportações e separação de famílias reforçam uma lógica de exclusão sustentada pela precarização da vida.
Diante desse cenário, o conflito entre projetos políticos baseados na promoção da vida e aqueles orientados pela gestão da morte emerge como eixo central do debate eleitoral de 2026. Não se trata apenas de uma disputa eleitoral, mas de um embate entre modelos civilizatórios.
Não há conciliação possível entre essas lógicas. A biopolítica representa a gestão, proteção e promoção da vida por meio de políticas públicas e garantia de direitos. A necropolítica, por sua vez, expressa a decisão sobre quem pode viver e quem deve morrer, seja pela ação direta, seja pela omissão institucional.
A política internacional é parte essencial dessa disputa. De um lado, a cooperação entre os povos, a promoção da paz, o diálogo e o respeito à soberania. De outro, uma lógica neofascista marcada por traços colonialistas, exclusão e escalada de conflitos, capaz de arrastar nações inteiras — e seus povos — para cenários de guerra.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
