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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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Bloco inimigos da sinapse

"O bolsonarismo não é somente um projeto eleitoral extremista, autoritário e golpista; é um projeto de corrosão intelectual"

Presidente Lula (Foto: Tita Barros / Reuters)

Há algo de profundamente triste - e perigoso - no que o bolsonarismo produziu no tecido social brasileiro. Não se trata apenas de um momento de divergências ideológicas, comum e saudável nas democracias. O que se vê, ao longo dos últimos anos, é a consolidação de uma cultura política baseada na negação sistemática da realidade, na recusa deliberada ao pensamento crítico e na substituição da razão por slogans vazios e teorias conspiratórias. É como se parte de uma geração tivesse abandonado a cognição e a sinapse para abraçar o inexplicável como método.

O bolsonarismo não é somente um projeto eleitoral extremista, autoritário e golpista; é um projeto de corrosão intelectual. Transforma ignorância em virtude, desprezo pelo conhecimento em identidade e agressividade em argumento. Incentiva a desconfiança contra a ciência, contra a imprensa, contra as instituições e contra qualquer fato que contrarie a narrativa pré-determinada pelos seus geradores de conteúdo. Cria-se uma bolha onde o absurdo não apenas circula - ele é celebrado. Onde o delírio vira prova e a prova vira "fake".

Essa geração capturada pela lógica da pós-verdade parece ter feito um pacto com a cegueira cognitiva. Não importa o número, o dado, a evidência concreta. Não importa o vídeo, o documento, o registro oficial. Tudo pode ser descartado em nome de uma crença previamente estabelecida. É a inversão completa do raciocínio: primeiro se decide no que a manada vai acreditar; depois se busca qualquer fragmento que confirme a convicção, por mais frágil ou fantasioso que seja.

O resultado é um caldo de preconceito, intolerância e mentiras que se impõe com violência simbólica sobre a realidade. Racismo relativizado, misoginia naturalizada, xenofobia estimulada, desprezo pelos pobres transformado em piada. A empatia foi substituída pelo escárnio. A complexidade dos problemas sociais virou alvo de simplificações grotescas. E quem ousa discordar é imediatamente tratado como inimigo a ser eliminado do debate público.

Há, sim, um componente geracional nisso tudo. Jovens que crescem consumindo desinformação como se fosse entretenimento político. Adultos que passaram a compartilhar mentiras em grupos familiares como se estivessem cumprindo uma missão cívica. Gente comum que foi convencida de que a democracia é um obstáculo e que soluções autoritárias são atalhos legítimos. O golpismo, o preconceito e a mentira deixaram de ser vergonha para virar bandeira.

É duro admitir, mas parte dessa geração foi sequestrada por um movimento que a ensinou a odiar antes de compreender, a reagir antes de pensar, a gritar antes de argumentar. São pessoas que perambulam pelas ruas com certezas absolutas e argumentos inexistentes. Não é apenas uma crise política; é uma crise de racionalidade.

Contudo, reconhecer essa perda não significa desistir do país. Significa entender que o desafio não é apenas eleitoral, mas civilizatório. Será preciso reconstruir pontes com base na educação crítica, no fortalecimento das instituições e na valorização do debate qualificado. Não se combate obscurantismo com mais obscurantismo, mas com firmeza democrática e compromisso com a verdade.

O bolsonarismo decretou que uma parte da sociedade se afastasse perigosamente da luz do pensamento racional. A tarefa que se impõe agora é impedir que essa escuridão se torne regra e se espraie - e trabalhar para que o Brasil volte a ser um espaço onde divergências existam, mas a realidade, o conhecimento e a verdade não sejam negociáveis.

O episódio do desfile da Escola de Samba de Niterói, que homenageou o presidente Lula, é apenas mais um exemplo desse estado de coisas que o bolsonarismo está construindo em nosso País. Mas assim como aquela chuva de verão, esse bloco dos inimigos da sinapse há de passar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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