Blue Pill ou Red Pill: a Esquerda na Matrix?

Infelizmente, o protagonista da luta popular, o povo brasileiro e, mais especificamente, a classe trabalhadora, ainda dorme o sono provocado pela ideologia da classe dominante e a leniência dos traidores do povo

(Foto: Reprodução)
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“A Matrix está em todo lugar. É tudo que nos rodeia. Mesmo agora, nesta sala. Você pode vê-la quando olha pela janela, ou quando você ligar sua televisão. Você pode sentir isso quando você vai para o trabalho, quando você vai à igreja, quando paga seus impostos. É o mundo que foi colocado diante dos seus olhos para cegá-lo da verdade.” – MORPHEUS, Matrix

Matrix como um filme de alegorias

O filme Matrix foi um sucesso de bilheteria que marcou o final do séc. XX, também é conhecida por ser uma obra carregada de metáforas, desde o nome do protagonista, até a dualidade entre o mundo real e o mundo virtual. O roteiro das irmãs Wachowski é carregado de significados. Uma alegoria, no entanto, destaca-se das outras por ter sido elevada a condição de “meme”, criando uma relação de identidade com a dualidade entre ideologia e realidade: as pílulas azul e vermelha; mentira feliz, ou verdade dolorosa. 

“Se tomar a pílula azul, a história acaba, e você acordará em sua cama acreditando no que quiser acreditar; se tomar a pílula vermelha, ficará no País das Maravilhas e eu te mostrarei até onde vai a toca do Coelho...” – MORPHEUS, Matrix

Utilizando o aporte simbólico do filme, muitos grupos fazem “memes” onde a “red pill” (pílula vermelha), revelaria a verdade inconveniente, enquanto que a “blue pill” (pílula azul) seria a visão de mundo dominante, falseada pela ideologia. Apesar de muitos desses grupos identificarem-se com a direita, vendendo a ideia de que o “marxismo cultural” seria de alguma forma a ideologia dominante, de fato podemos traçar claros paralelos entre o conceito de ideologia, como falsificação da realidade; e a Matrix, o mundo virtual no qual a maioria dos humanos estaria enclausurado. A doutrina marxista, que tomará o conceito de “ideologia” do filósofo Feuerbach, ainda enriquecerá essa concepção definindo ideologia como a idealização das relações de produção que tornam a classe dominante, classe dominante.  

Neo, o protagonista, retirado de sua rotina de assalariado em uma multinacional pelo grupo liderado por Morpheus, é apresentado duas possibilidades possíveis desse ponto em diante, já que começa a perceber certas incongruências do sistema. A primeira possibilidade, apresentada pela pílula azul, é um retorno à normalidade habitual, uma recusa consciente do caminho que o levará a verdade sobre o mundo em que ele está. Já a pílula vermelha, é exatamente o contrário, ou seja, prosseguir neste caminho que, inevitavelmente romperá seu véu ideológico. 

Essa escolha, não é ao acaso. Neo, após ser tirado de seu repouso inicial, deve escolher, conscientemente, se continuará o perigoso caminho de busca pela verdade, que o colocará, inevitavelmente, na mira das forças do “sistema” (representadas no filme através dos impessoais “agentes”); ou se escolherá o caminho do autoengano, tomando assim a pílula azul e esquecendo todas as incongruências do sistema para reaver uma vida pacata.

A proposta revolucionária

 Ao tomar a pílula vermelha, o protagonista é repentinamente atacado por um processo incontrolável – tanto em sua velocidade, quanto em sua violência – que o jogará, literalmente, no mundo real do filme. Esse caminho é doloroso, o mundo em que ele acorda está destruído, os humanos se escondem como ratos e a guerra contra as máquinas pela dominação do planeta, perdida pelos seres humanos a séculos, tornou-se uma guerra assimétrica de aniquilação. A verdade dolorosa, enfim descoberta, é desanimadora e revoltante. 

 Neo, ao ver a realidade nua e crua em sua frente, abraça o único caminho possível: a revolução humana contra as máquinas. Não há espaço para mediações, as máquinas usam os humanos como baterias vivas e, as únicas pessoas conscientes desse fato, estão esmagadas e quase derrotadas. Essa é a escolha do revolucionário.

A proposta reacionária

Por outro lado, a pílula azul oferece o conforto da ignorância. No entanto, não é a ignorância inicial, de quem não via as falhas do sistema, mas, uma ignorância desejada por ser ela mais feliz, ou menos penosa. Afinal, se temos a oportunidade de ignorar a realidade e viver num mundo de mentiras coloridas, o melhor a se fazer é escolher a ignorância, certo? É isso que observamos nos setores médios, cristalizado nos coaches  de todo o tipo que, prometendo saídas individuais, ludibriam os incautos em acreditar que através do esforço pessoal é possivel superar qualquer obstáculo. 

O problema dessa pílula azul, específicamente, é que essa falsificação da realidade não funciona para todo mundo. A classe trabalhadora vive obrigada a contrastar os discursos bonitos dos liberais de plantão com a dura realidade da vida cotidiana. O autoengano, ou a ideologia, só podem alterar a percepção da realidade, não podem mudar, por si mesmas, essa realidade. O poder das pílulas estão em mostrar, ou esconder, mas não de mudar a existência. 

Por que é difícil abraçar a realidade 

A verdade é que, cotidianamente as forças populares, principalmente suas vanguardas, escolhem a doce mentira da pílula azul. Não se encara a realidade dos fatos, porque isso obrigaria a uma alteração profunda na atuação política. Ao contrário, preferem realizar análises e propostas descabidas, como a da frente ampla, que pretende ignorar o golpe de Estado que sofremos em 2016, a prisão do ex-presidente Lula e subsequente fraude eleitoral de 2018, além do avanço das forças reacionárias que não pararam desde então. 

 No entanto, há também outros fatores que levam as forças populares a se afastarem de uma análise concreta da realidade, como a equivocada tese de que é impossível vencer o golpe de Estado destronando Bolsonaro e todos os golpistas. Logo, se o inimigo é imbatível, “temos que nos adaptar a situação”. Mas essa adaptação não é uma mudança estratégica concreta, que realiza um balanço das limitações implícitas em disputar os cargos eletivos em meio a um golpe de Estado e opta por seguir uma estratégia de ruptura, distinta da que foi derrotada. Ou seja, a pílula vermelha que acarretaria no reconhecimento da realidade tal como ela é, independente do “dever ser”, afim de propiciar a efetividade da atuação das forças populares, continua sendo ignorada. As organizações das classes populares continuam tomando a pílula azul.

Para muitas lideranças a derrota da estratégia reformista pouco têm a ver com a situação. Acham que a república ainda é democrática – o que nunca foi de fato, ainda mais após o golpe de Estado – e que mobilizar as massas para a derrubada do governo nada mais é que uma “inconstitucionalidade”, quanta ironia! Devemos nós, povo trabalhador brasileiro, respeitar uma ordem política surgida de um golpe de Estado que, prendeu durante quase dois anos a maior liderança  popular do Brasil em um processo fraudulento e orquestrado pelo Império do Norte, além de fraudarem a eleição presidencial impedindo esta mesma liderança de participar do processo eleitoral, coroando o golpe de Estado com um protofascista lambe-botas do Império!? Seria engraçado se não fosse trágico! A falsificação e inversão da realidade, ocorre com o alento dos grandes partidos da esquerda, que não combatem as mentiras, tentam contorna-las. Namoram o imperialismo e sua prole protofascista e reacionária, movidos por uma justificativa “sem pé nem cabeça”, acreditando que em 2022 a esquerda organizada poderá disputar, de fato, o Palácio da Alvorada. No entanto, se fomos enxotados para fora de lá em 2016, o que faz os grandes intelectuais da esquerda acreditarem que os equilíbrios políticos mudaram?

Os trabalhadores, a república e a esquerda 

Ainda no filme Matrix, Morpheus é traído por um personagem intrigante chamado Cypher, que prossegue em fazer uma improvável aliança com os agentes da Matrix, entregando Morpheus em troca de seu retorno para o mundo virtual permanentemente, com sua memória devidamente apagada e vivendo como um homem rico e influente. As lideranças da esquerda brasileira ensaiam um movimento análogo, querem uma aliança com as forças burguesas e imperialistas, traindo o povo brasileiro para manterem suas vidas “pacatas”, que não admitem conflito com as forças reacionárias. 

A 4ª república brasileira morreu com o golpe de Estado de 2016, o que temos em nossa frente não passa de um corpo animado por instituições vazias de seu conteúdo democrático, animadas pelas forças da burguesia brasileira e do imperialismo internacional. Existem, dentro desse corpo putrefato, contradições entre as alas da direita tradicional e as alas da “nova direita brasileira”, que reúne desde conservadores a fascistas (terceira posição). No entanto, apontar essas contradições como a motivação por trás da manutenção da política reformista, abrindo mão dos interesses do povo para “isolar” o fascismo, nada mais é que entregar a vitória aos nossos inimigos antes da batalha, para evitar que eles se mobilizem para o combate. Ou seja, para “combater o fascismo” vamos deixar a burguesia deitar e rolar, mas não só isso, vamos recuar em nosso programa (que já é recuadíssimo) para que a burguesia não se veja obrigada a se alinhar com as forças abertamente fascistas, como se não fosse a própria burguesia a classe que gestou o ovo da serpente. Nessa querela, atacamos indivíduos e não os seus projetos; abraçamos a ilusão de que as massas vão automaticamente apoiar essa farsa, não nos preocupando com um programa político claro e popular; por fim, pelo medo paralisante da realidade que as nossas lideranças políticas desenvolveram, preferimos nos abster de qualquer mobilização e luta política real, continuamos a afirmar que o corpo morto chamado República Brasileira ainda está vivo e, que alguns de seus assassinos podem ser “aliados valiosos” na luta contra os outros assassinos “malvados” e “fascistas”.

Saindo da matrix 

O último ato do filme, sua conclusão, inicia-se com a morte do traidor Cypher e a batalha do protagonista para salvar Morpheus dos agentes da Matrix. Infelizmente, o protagonista da luta popular, o povo brasileiro e, mais especificamente, a classe trabalhadora, ainda dorme o sono provocado pela ideologia da classe dominante e a leniência dos traidores do povo. Ainda não matamos nosso “Cypher”, nem nos levantamos contra nossos inimigos históricos. No entanto, já se enxergam sinais do despertar, resta saber se o povo, desejoso pela derrubada da falsa república brasileira e do governo Bolsonaro, contarão com as organizações históricas da classe trabalhadora que surgiram da luta contra a ditadura militar e que marcaram o ciclo político anterior (mais estritamente a tríade CUT, PT e MST), ou se a classe vai passar por mais uma reorganização, varrendo da história as organizações que declaram falência política. 

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