Boa notícia: o melhor do futebol brasileiro está na Copinha do sub-20

Por conta de três costelas quebradas, Ricardo Kotsho, do Jornalistas pela Democracia, assistiu a boa parte dos jogos da Copa São Paulo de Futebol Júnior, a famosa Copinha, e traz uma ótima notícia: "o futebol brasileiro tem futuro - e um belo futuro", diz. "A molecada não se contenta em fazer um gol e se fechar na defesa para garantir o resultado, ao contrário do que fazem técnicos de grandes times, com exceção do Flamengo e do Santos"

Copa São Paulo
Copa São Paulo (Foto: Pedro Souza/Atletico)

Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia

A gente não fala só de desgraças aqui porque gosta, mas é que está cada vez mais difícil encontrar alguma coisa boa para contar nesta terra de bolsonaros travestidos de neonazistas.

Hoje eu tenho uma notícia ótima para dar a vocês: o futebol brasileiro tem futuro _ e um belo futuro.

Com três costelas quebradas, passei boa parte desse mês de janeiro de molho em casa vendo os jogos da Copa São Paulo de Futebol Júnior, a famosa Copinha, com 127 times de sub-20 vindos de todo o país.

Nesta reta final, com a decisão marcada para o próximo sábado, no Pacaembu, com transmissão da Globo, apareceram dezenas de jovens com idades entre 16 e 20 anos que poderiam jogar em qualquer equipe da Série A do Brasileirão.

Não apareceu nenhum Pelé, nenhuma grande revelação, mas a qualidade média destes juniores é superior à de muitos times profissionais que insistem em repatriar jogadores do sub-40 pagando salários fabulosos.

O pior é que para manter estes veteranos em atividade, grandes times, como o São Paulo, vendem suas jovens revelações, ainda antes que possam estrear ou se firmar no time principal.

Agora mesmo, para sustentar Daniel Alves e Pato, que ganham por mês mais do que o clube gasta na fábrica de jogadores do CT de Cotia, o clube está querendo vender Antony, a grande revelação da Copinha do ano passado, para pagar suas dívidas.

Cada vez mais, atletas com menos de 20 anos vão para clubes da Europa ou da Ásia, enquanto no Brasil contratam estrangeiros ou repatriados já em final de carreira.

Esse fenômeno não é novo, mas tem se acentuado nos últimos anos, com a evasão precoce de pé-de-obra, um dos motivos para a seleção de Tite convocar mais jogadores de fora do que de dentro do país.

Prefiro mil vezes ver os jogos da Copinha, em que todos correm atrás da bola o tempo inteiro, como se estivessem atrás de um prato de comida, o que em muitos casos não é figura de linguagem, mas a triste realidade.

Clubes do norte e nordeste, principalmente, mas não só, mal conseguem pagar um salário mínimo como ajuda de custo por mês a seus atletas.

Eles geralmente viajam de ônibus para São Paulo, em viagens que chegam a durar mais de 30 horas, muitas vezes sem médico nem preparador físico na comitiva para economizar despesas.

Isso explica a enorme diferença no porte físico dos jogadores do norte e do sul, algo que às vezes dá a impressão de ver uma partida entre adultos e crianças.

Zagueiros dos grandes clubes do sul-sudeste dão o dobro do tamanho dos mirrados atacantes do norte-nordeste, mas estes não se intimidam, vão para cima dos grandões.

A brutal desigualdade social brasileira desnuda-se em campo na Copinha, numa disputa muitas vezes entre Davi e Golias, em que a gente sempre acaba torcendo para o time mais fraco.

No fim, acabam prevalecendo os grandes clubes, o que não acontecia antigamente, quando times pequenos muitas vezes chegaram ao título.

Favoritos mais uma vez, o Corinthians (com dez títulos) e o São Paulo (com quatro) são os mais prováveis finalistas.

Com nível técnico similar, os dois grandes poderiam tranquilamente promover todos os juniores ao time principal para disputar o Campeonato Paulista que começa semana que vem, como já vem fazendo o Athlético Paranaense em Curitiba.

Gostaria de ver os juniores de São Paulo e Corinthians jogando contra os times principais cheios de medalhões para ver quem ganha.

A molecada não se contenta em fazer um gol e se fechar na defesa para garantir o resultado, ao contrário do que fazem técnicos de grandes times, com exceção do Flamengo e do Santos.

Goleadas acontecem não só pela disparidade de nível técnico e físico entre as equipes, mas porque os juniores estão sempre em busca de mais gols, não querem saber.

Esse é o futebol que o torcedor gosta de ver, mas é cada vez mais raro no Brasileirão e na seleção brasileira.

Neste domingo, tem mais um amistoso do time de Tite contra o Peru, mas confesso que, depois de ter visto tantos jogos emocionantes na Copinha, nem estou muito animado para ver a seleção.

Só não entendo como a imprensa, com a honrosa exceção do Sportv, não se interessa em fazer uma cobertura melhor deste novo futebol brasileiro que está surgindo, com tantas boas histórias para serem contadas sobre times, técnicos e jovens jogadores, um Brasil que está fora da mídia.

Ainda falta uma semana para acabar. Se você ainda não viu, vale a pena dar uma olhada nos jogos da Copinha nem que seja para se afastar um pouco das más notícias.

A vida não pode ser só feita de política, é muito maior do que tudo isso.

Bom sinal de semana.

Vida que segue.

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