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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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BolsoMaster: o escândalo que as pesquisas ainda não viram

Não se frustrem com as pesquisas desta semana. Elas são um termômetro tirado antes da febre subir

Cartaz do filme Dark Horse- Jair Bolsonaro-Flávio Bolsonaro-Daniel Vorcaro (Foto: Dark Horse-Flávio Bolsonaro-Jair Bolsoanro (Foto: Divulgação/Jair Bolsonaro/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil/Flávio Bolsonaro/Adriano Machado/Reuters/Daniel Vorcaro/Reprodução/ Montagem/IA Dall-e))
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Não se frustrem. Essa é a mensagem para quem torce por Lula e aguardava com brilho nos olhos a pesquisa do DataFolha desta semana - aquela que poderia traduzir, em pontos percentuais, o devastador impacto das revelações feitas pelo The Intercept Brasil sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Os números não mostraram terra arrasada, porque ainda é cedo. E a palavra “ainda” carrega aqui todo o peso que merece.

Para quem não acompanhou - ou preferiu não acreditar -, vamos ao cardápio do que já foi servido pelo The Intercept. Os diálogos entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, compõem uma narrativa digna dos melhores roteiros de drama financeiro. Tem de tudo: mensagens íntimas e carinhosas sobre o momento da vida dos dois interlocutores; cobrança, de maneira bastante educada, de uma dívida de dezenas de milhões de reais em moeda norte-americana que o senador teria a receber do banqueiro; e o inefável charme de dois homens discutindo dinheiro público como se fosse quintal de casa. Porque, convenhamos, era exatamente isso.

O escândalo batizado de BolsoMaster - e que nome mais preciso - envolvia 100% de recursos públicos canalizados para alavancar uma instituição financeira nascida sob as bênçãos, o estímulo e o calor paternal do governo Jair Bolsonaro. O pai criou o ambiente. O filho gerenciou a janela. E o banqueiro agradeceu na moeda que os Bolsonaro entendem melhor do que qualquer outra: influência e dinheiro, de preferência juntos.

Mas os detalhes, ah, os detalhes. Há um fundo de investimento cuja gestão foi parar nas mãos de um advogado de imigração - área de especialização notoriamente aplicável à administração de ativos financeiros complexos. O advogado, com toda a experiência que os voos regulares entre os EUA e Brasília proporcionam, é ligado a Eduardo Bolsonaro, o filho do meio que nunca encontrou um negócio da família do qual não quisesse participar. Que a gestão de fundos milionários esteja nas mãos de alguém cuja expertise declarada é processar vistos de trabalho é apenas um dos pequenos detalhes que fazem o filme não bater.

E o preço do filme? Extraordinário. As revelações apontam para operações em que os valores não se encaixam em qualquer lógica de mercado - a não ser que o mercado em questão seja o da conveniência política. Contratos superfaturados, movimentações que a contabilidade criativa mais inventiva teria dificuldade de justificar, e transações que, ao serem colocadas lado a lado, formam um quadro de clareza constrangedora. O filme não bate porque foi editado às pressas, com cenas cortadas, roteiro improvisado e protagonistas que claramente não esperavam que o making of fosse ao público.

E então há a casa no Texas. Uma propriedade adquirida em circunstâncias que desafiam a imaginação - e o salário de um deputado cassado. O Texas, como se sabe, é um estado americano famoso por sua generosidade climática, seu espírito independente e, aparentemente, pela capacidade de abrigar investimentos imobiliários de políticos brasileiros cujas declarações de bens não pareciam comportar tal extravagância. Como o dinheiro chegou lá? Boa pergunta. As respostas dadas pelos envolvidos até agora têm a consistência de uma casa de papel numa ventania.

Mas voltemos às pesquisas. O DataFolha desta semana que passou - e as que virão - captarão uma fotografia do momento, não do processo. E o processo de assimilação de escândalos complexos, com camadas financeiras, nomes técnicos e documentos extensos, é lento. A população que não respira política 24 horas por dia - e que forma a esmagadora maioria do eleitorado - precisa de tempo para digerir, processar e transformar informação em opinião. Não é falta de inteligência. É a física da formação de imagem sobre eventos complexos.

O estrago na candidatura de Flávio Bolsonaro será enorme. Esse julgamento não requer bola de cristal - requer apenas a observação de que escândalos dessa magnitude, com documentação, diálogos gravados e trilha de dinheiro rastreável, têm uma trajetória conhecida. Eles não explodem. Eles corroem. E a corrosão já está em curso, invisível nas métricas das próximas pesquisas, mas perfeitamente perceptível para quem acompanha a temperatura dos grupos de WhatsApp das avós e a cara do eleitor médio quando lê a manchete em seu celular ou assiste à televisão e ouve o seu rádio no carro. Até mesmo em eventos políticos de até então aliados é possível percebê-la.

 

O eleitorado verdadeiramente em disputa - aquela fatia de no máximo 20% que ainda não se rendeu à polarização bolsonarismo versus lulismo - tende a ser, por definição, mais racional. São eleitores que pesam, que comparam, que se movem lentamente, mas com finalidade. E quando se movem em direção a um candidato, raramente retrocedem. A pergunta que Flávio Bolsonaro deveria fazer a si mesmo não é o que as pesquisas das próximas semanas vão mostrar. A pergunta é: qual percentual desses 20% estará caminhando em direção à Lula quando as pesquisas de agosto chegarem? Imagino que será grande.

O BolsoMaster não é apenas um escândalo familiar num país acostumado a escândalos familiares. É a síntese de um projeto de poder que usou o aparato do Estado como alavanca de enriquecimento privado - com recursos integralmente públicos, sob olhos que preferiram não ver e com uma arquitetura cuidadosamente construída para parecer legítima até o momento em que o The Intercept ligou o projetor.

Não se frustrem com as pesquisas desta semana. Elas são um termômetro tirado antes da febre subir. A febre virá. E quando chegar, os eleitores racionais em disputa - aqueles que querem um futuro mais seguro, mais previsível, menos barulhento - saberão muito bem para qual lado inclinar a balança. Isso é uma questão de tempo. E o tempo, como todo bom roteiro de thriller financeiro nos ensina, está do lado da verdade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.