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Elisabeth Lopes

Advogada, especializada em Direito do Trabalho, pedagoga e Doutora em Educação

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Bolsonarismo: fábrica de mentiras, alianças perigosas com o Master e desprezo à saúde do povo

O bolsonarismo é uma organização política visceralmente suspeita que opera a alquimia política de transformar fraude em ‘verdade’

Flávio Bolsonaro, agente da PF, Daniel Vorcaro e, ao fundo, Congresso e Banco Master (Foto: Reprodução I Divulgação )
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Nas últimas semanas o país se deparou com fatos que emergiram a partir de investigações policiais, investigações sanitárias e investigações midiáticas. Num pequeno intervalo de tempo, um tsunami de fatos antes ocultos nos subterrâneos mais sombrios veio à superfície diante dos olhos de todos.

O descaso na produção de materiais por uma empresa amplamente conhecida no setor de higiene e limpeza, a relação de extrema proximidade entre Flávio Bolsonaro e o protagonista do maior escândalo financeiro do país, Daniel Vorcaro e na sequência desses acontecimentos, a prisão do pai do ex-banqueiro, Henrique Vorcaro e o esquema criminoso de blindagem montado em torno dos negócios da família, envolvendo agentes policiais e outros prestadores de serviços suspeitos, transformaram-se em foco imediato da cobertura dos veículos da mídia progressista e, posteriormente, das emissoras da mídia corporativa.

Nesse ambiente marcado por um arsenal de fatos graves envolvendo políticos da extrema direita; de financiamentos falsamente privados destinados ao filme Dark Horse sobre Jair Bolsonaro, oriundos de esquemas de fraudes e danos financeiros em larga escala que dilapidou fundos de pensão de aposentados e pensionistas, atribuído a Daniel Vorcaro em conluio com governadores bolsonaristas; de disponibilidade de emendas parlamentares por políticos do Partido Liberal para servir aos interesses do chefe máximo do bolsonarismo, convém lembrar de outros episódios igualmente deletérios e inimagináveis que emergiram no recente passado bolsonarista.

Depois de rezarem para pneus inconformados com a derrota de Jair Bolsonaro; de marcharem de forma caricata diante de quartéis clamando por intervenção militar; de apelarem até para extraterrestres; de transformarem propagandas de chinelos em pauta ideológica; de vandalizarem as sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro; de tentarem dar um golpe contra o Estado Democrático de Direito e, mais recentemente, de aprovarem o chamado “PL da dosimetria” como prêmio aos inimigos da democracia, setores do bolsonarismo voltaram a protagonizar cenas marcadas por irresponsabilidade social, estimulados por suas lideranças que os induziram contra medidas sanitárias imprescindíveis à preservação da saúde da população.

Seguidores fanatizados do bolsonarismo passaram a inundar as redes sociais com vídeos incentivando o consumo e o uso de detergentes referentes a um lote suspenso pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) por identificar “falhas graves de produção” e risco microbiológico, incluindo a presença de microrganismo associado a infecções potencialmente graves, sobretudo em pessoas imunossuprimidas, idosos, crianças e indivíduos vulneráveis. Segundo manifestações dos próprios bolsonaristas, a mobilização em defesa do produto teria como motivação o fato de o proprietário da empresa de higiene e limpeza ter contribuído para a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro. 

Nesse sentido, sob a lógica distorcida do fanatismo político, passaram a sustentar a narrativa de que a Anvisa teria agido deliberadamente para perseguir um aliado ideológico da extrema direita. Esse episódio revela não apenas a substituição da racionalidade técnica por teorias conspiratórias, mas também a instrumentalização da desinformação como método político permanente, ainda que isso implique colocar em risco a saúde da própria população que supostamente afirmam defender.

A gravidade da situação levou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a se manifestar publicamente nas redes sociais, classificando os vídeos como “irresponsáveis” e alertando para os riscos sanitários envolvidos na disseminação desse tipo de conteúdo. Padilha ressaltou que ingerir ou aplicar na pele produtos sob investigação sanitária representa uma prática perigosa e reafirmou o caráter estritamente técnico da decisão da Anvisa, negando qualquer motivação política. O ministro lembrou ainda um detalhe particularmente irrefutável para desmontar a narrativa fantasiosa, ao informar que o diretor da Anvisa responsável pela suspensão do lote, Daniel Meirelles, foi indicado ao cargo durante o próprio governo Bolsonaro. O fato desmonta a tese de perseguição ideológica e evidencia como parte da extrema direita passou a transformar qualquer ação institucional baseada em critérios técnicos em combustível para campanhas de desinformação e mobilização apelativa nas redes sociais.

A partir desse episódio, torna-se ainda mais evidente que a extrema direita bolsonarista não se resume a um agrupamento radicalizado movido apenas por fanatismo irracional ou explosões ocasionais de histeria coletiva. Trata-se de uma organização política visceralmente suspeita que opera a alquimia política de transformar fraude em ‘verdade’, polêmicas, teorias conspiratórias e campanhas de desinformação em instrumentos contínuos de mobilização, engajamento e monetização. É importante ressaltar que ocorrências como essa não surgem apenas da espontaneidade das redes, mas de uma lógica política baseada na fabricação contínua de adversários, sustentada pela exploração calculada do fanatismo e da irracionalidade de seus seguidores e na corrosão deliberada da confiança pública em instituições técnicas e científicas.

Bastou que lideranças insidiosas do bolsonarismo, dotadas de enorme poder de influência e manipulação nas redes sociais, entre elas, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o deputado Nikolas Ferreira, o senador Cleitinho e o empresário Luciano Hang, entrassem em cena para defender a marca de detergente suspensa, para que uma avalanche coordenada de publicações fosse impulsionada pela militância bolsonarista, transformando o consumo do produto em um ritual de devoção ideológica e propaganda política.

Pouco importou, nesse processo, o impacto concreto produzido sobre a população mais vulnerável, formada por cidadãos expostos diariamente ao bombardeio de desinformação digital que acabam se tornando alvos preferenciais desse modelo de manipulação política. Em vez de informação responsável, recebem conteúdos produzidos para gerar choque, revolta, adesão ideológica e fidelização, ainda que isso represente riscos sanitários reais à própria saúde da população.

É inquestionável que no ambiente digital, quanto mais absurda e atrativa a argumentação, maior tende a ser sua capacidade de viralização e fortalecimento político, não só entre grupos já capturados pelo extremismo ideológico, como entre segmentos de usuários que não dispõem de tempo, repertório informacional ou acesso a fontes mais qualificadas de informação, tornando-se mais suscetíveis à assimilação acrítica desse tipo de conteúdo.  

Nesse cenário, cada movimento parece cuidadosamente calculado para maximizar visibilidade e engajamento, enquanto pouco ou quase nada se converte em melhorias concretas para a maioria dos eleitores que acreditaram nas promessas de combate aos privilégios. O que se observa, em larga medida, é a substituição do debate público racional e fidedigno à realidade por campanhas sistemáticas de mobilização apelativa, sustentadas por armações artificiais e sucessivas ondas de desinformação.

Contudo, como lembrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante um evento do programa Minha Casa, Minha Vida, na Bahia, “a mentira tem pernas curtas”. A declaração ocorreu um dia após a divulgação de uma reportagem do Intercept Brasil revelar que Flávio Bolsonaro, apesar de reiteradamente negar qualquer proximidade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, manteve com ele uma relação descrita como amistosa e cercada de vantagens financeiras. Vale destacar que o Intercept Brasil ganhou notoriedade nacional ao divulgar conversas internas que expuseram irregularidades procedimentais no âmbito da Operação Lava Jato.

A reportagem centra-se nas tratativas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro em torno do financiamento de R$ 134 milhões, por parte do ex-banqueiro, para a produção do filme sobre Jair Bolsonaro. Desse montante, R$ 61 milhões já teriam sido efetivamente transferidos. Em um dos áudios revelados pelo Intercept Brasil, Flávio afirma a Vorcaro: “Estou e estarei contigo sempre”. Para bons observadores, uma frase aparentemente simples pode revelar muito mais do que pretende esconder.

A versão apresentada para justificar a operação financeira soa ainda mais frágil quando comparada aos custos de grandes produções cinematográficas nacionais e internacionais. O premiado filme Ainda Estou Aqui, por exemplo, teve custo estimado em cerca de R$ 45 milhões, valor muito inferior aos R$ 134 milhões mencionados para a produção bolsonarista. A discrepância desperta questionamentos inevitáveis. Que tipo de produção exigiria tamanho aporte financeiro? Com esse montante, seria possível financiar ao menos quatro produções de grande monta. Segundo reportagens divulgadas por diversos veículos, há a informação de que parte dos cerca de R$ 61 milhões transferidos por Daniel Vorcaro para o financiamento do filme, teria sido enviada ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos. As reportagens afirmam que esse fundo seria administrado por aliados de Eduardo Bolsonaro no Texas, onde ele reside atualmente. A essa altura, tratar tudo isso como mera coincidência exige considerável esforço de um grau máximo de ingenuidade.

As revelações diárias sobre o vínculo entre Vorcaro e a família Bolsonaro confirmam o que muitos já previam: uma tragédia anunciada por um histórico de suspeitas e transações financeiras criminosas e usurpadoras do dinheiro público, os contumazes esquemas de lavagem de dinheiro que colocam sob xeque a integridade dessas relações.

Ao ser questionado por jornalistas sobre o caso, Flávio Bolsonaro inicialmente negou qualquer envolvimento. Mais tarde, porém, após reunião com seu comitê de campanha, acabou confirmando as revelações do Intercept, embora tenha tentado minimizar o episódio, alegando tratar-se apenas de um pedido de um filho em busca de financiamento para um filme sobre o próprio pai. Em seguida, passou a defender a abertura imediata da CPMI do Master, além de deslocar o foco do debate por meio de insinuações e suspeitas sem comprovação dirigidas ao governo. 

Diante dessas contradições e das reiteradas tentativas de deslocar o foco do debate público, algumas indagações óbvias precisam ser constantemente reiteradas: em qual governo foi autorizada a operação do Banco Master? Em qual governo ocorreu a liquidação do banco de Vorcaro? Questões dessa natureza ajudam a reavivar a memória sobre esses fatos, inclusive entre parcelas da população ainda capturadas por narrativas de desinformação, além de exporem as responsabilidades políticas que determinados setores tentam ocultar sob o ruído de argumentos diversionistas, falaciosos e cuidadosamente manipulados.

Nesse panorama de turbulência política, como de costume não poderia faltar a presença da elite financeira, historicamente habituada a tratar a política brasileira como extensão de seus balcões de negócios e de ingerência nos destinos do país. Diante da exposição da relação Flávio/Vorcaro, a cúpula da Faria Lima reagiu com nervosismo à rápida deterioração da imagem de seu pré-candidato à presidência, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), politicamente manobrável. A alta do dólar e a queda da bolsa expuseram não apenas o desconforto do mercado, mas também o temor de que viessem à tona conexões ainda mais comprometedoras entre setores da elite financeira e o submundo político bolsonarista. Esse acontecimento reforça a percepção de um arranjo onde parte do rentismo especulativo parece apostar em figuras frágeis, porém obedientes, desde que sirvam como instrumentos de preservação de privilégios e influência.

O fato é que ainda há muitas investigações a serem aprofundadas e muita sujeira escondida embaixo do tapete do clã Bolsonaro. Na sexta-feira desta semana novas informações divulgadas pelo Intercept Brasil, revelaram que “Eduardo Bolsonaro tinha poder sobre o dinheiro do Dark Horse, conforme contrato”. 

Em reação às revelações já conhecidas, parlamentares do PT e integrantes da base governista passaram a defender uma série de medidas de apuração. Entre elas, o líder da bancada petista na Câmara, Pedro Uczai, anunciou a intenção de apresentar pedido de abertura de inquérito junto ao Supremo Tribunal Federal para investigar a natureza da relação entre Daniel Vorcaro e  Flávio Bolsonaro. Segundo Uczai, a relação entre ambos pode indicar a existência de financiamento político disfarçado sob a fachada de produção cinematográfica.

Diante de tantas revelações, a sucessão de contradições e vínculos obscuros passou a ampliar ainda mais o desgaste público em torno de setores do bolsonarismo, sobretudo porque parte expressiva da população começa a perceber o abismo existente entre o discurso moralista de anticorrupção propagado nas redes sociais e as práticas políticas concretas de seus principais líderes. Levantamentos realizados após as revelações do Intercept Brasil envolvendo o Flávio Bolsonaro apontam um movimento inicial de retração nas intenções de voto do parlamentar.

Nesse cenário, chama atenção a rapidez com que setores da extrema direita frequentemente abandonam antigos aliados quando estes passam a representar forte desgaste público. Trata-se de um comportamento recorrente em grupos fascistas. Enquanto há utilidade política, preserva-se a aliança, quando surgem crises, escândalos ou ameaças ao projeto de poder, antigos parceiros tornam-se descartáveis.

A própria história do fascismo europeu oferece exemplos contundentes desse padrão. A queda de Benito Mussolini, em 1943, evidenciou como lideranças autoritárias frequentemente são abandonadas pelos próprios aliados quando o projeto político entra em colapso. Diante da derrota iminente da Itália na Segunda Guerra Mundial, integrantes do Grande Conselho Fascista votaram contra Mussolini, enquanto o rei Vittorio Emanuele III retirou-lhe apoio e determinou sua prisão numa tentativa desesperada de preservar as estruturas do Estado italiano.

As últimas semanas parecem revelar dinâmica semelhante no atual cenário político brasileiro. O pré-candidato Romeu Zema (Novo-MG), que referiu no ano passado em entrevista que, se tivesse poder, concederia indulto ao ex-presidente Jair Bolsonaro, logo depois das revelações sobre as íntimas relações negociais de Flávio e Vorcaro, criticou publicamente seu parceiro ideológico ao afirmar: “Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem”. Em seu estilo sorrateiro Zema, também aproveitou a declaração para alfinetar o PT, partido de seu maior concorrente na eleição que se aproxima. Todavia, esse ataque de Zema a Flávio pode selar seu abandono pelo eleitorado bolsonarista, caso a candidatura de Flávio naufrague diante das revelações do Intercept e das investigações em andamento na Polícia Federal.

É assim que frequentemente operam alianças políticas permeadas pelo personalismo e pelo autoritarismo, quando um integrante do grupo se fragiliza, rapidamente deixa de ser ativo estratégico para se tornar peso descartável. A crítica de Zema, contudo, concentra-se na figura individual de Flávio Bolsonaro e não no conjunto de ideias que aproxima amplos setores dessa direita radicalizada, traduzida por um projeto político marcado por autoritarismo, populismo de viés manipulador, ultraliberalismo econômico, privatização do patrimônio público, concentração de renda e fortalecimento de privilégios de minorias econômicas em detrimento da maioria da população. De um modo menos incisivo, outro pré-candidato da direita ao poder executivo, Ronaldo Caiado (PSD-GO), também marcou território ‘numa linha de pseudo surpresa’ ao sinalizar sua preocupação com o envolvimento de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro. 

Tanto Flávio, como Zema e Caiado constroem argumentos morais seletivos destinadas a mobilizar seus apoiadores, ocultando as profundas contradições entre o discurso público moralizante e as práticas políticas efetivamente adotadas nos bastidores obscuros do poder.

A sucessão desse conjunto de acontecimentos evidencia um padrão recorrente no qual setores do Centrão e da extrema direita brasileira reduzem a política a um ambiente de negócios, captura de recursos públicos e manutenção de privilégios em detrimento da população. Enquanto discursos moralistas ocupam o espaço das redes e do debate público, multiplicam-se denúncias de relações promíscuas com interesses financeiros, estratégias sistemáticas de desinformação que atingem diretamente a população mais vulnerável. Nesse cenário, a indignação popular é continuamente explorada como combustível político para sustentar projetos personalistas e autoritários, cada vez mais distantes das necessidades concretas do país e comprometidos com a preservação de poder e vantagens de grupos restritos.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.