Bolsonaro, a versão reacionária do Messias político

Inópia dos discursos de Bolsonaro não passa incólume a um olhar mais acurado, seja de um prisma esquerdista ou mesmo direitista. No entanto, esta mesma carência de embasamento antes de ameaçarem a reputação do veterano parlamentar, parecem contribuir com a elevação de sua popularidade

Bolsonaro Maria do Rosário
Bolsonaro Maria do Rosário (Foto: Tiago Zaidan)
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A busca por remédios miraculosos e por salvadores da pátria permeia as relações entre os brasileiros e os políticos. Esta é uma prática generalizada. No Brasil, também a classe média e setores supostamente intelectualizados embarcam neste conto, o qual já legou para o país mandatários do quilate de Jânio Quadros (1917 – 1992) e Fernando Collor.

Ainda hoje, não faltam os que se aproveitem da ingenuidade ou da falta de instrução de muitos e repisem a velha fórmula do político messias. Não raro, os espertos adotam discursos enfáticos e superficiais, com soluções fáceis, fluentemente digeridos por uma população pouco informada, sem o hábito da leitura analítica ou com acesso restrito a fontes que não os “memes” e as manchetes de origem duvidosas que pululam nas redes sociais. Notícias falsas ou disseminadoras de ódio ou de lógicas extremistas são compartilhadas sem leitura prévia. Neste reino de não leitores, uma manchete faz a vez de uma matéria inteira. Não é de se surpreender, portanto, que os políticos messias adotem discursos superficiais, pois a bravata precisa ser simples a ponto de caber em manchetes, memes ou palavras de ordem. A internet está cheia delas.

Durante o segundo mandato de Dilma Rousseff, apregoou-se que o remédio para o Brasil estava na vice-presidência. Aécio Neves, do PSDB, chegou a falar em um governo de salvação nacional com Temer, em entrevista a Roberto D’Ávila[i]. O suposto remédio talhou. Envolvidos até o pescoço nas mesmas denúncias as quais recaíam sobre os petistas, Temer e os antigos opositores do governo Dilma não servem mais para messias.

Tenho visto muitos que, depois de frustrados com a aposta na malfadada “alternativa Temer”, defendem, agora, a intervenção militar. Compartilham suas novas crenças messiânicas e congratulam-se com seus pares em seus oráculos, que são as redes sociais. A maioria fala em um tom saudoso. Não importa se nasceu depois de 1985.

Um mínimo de ponderação talvez fosse o suficiente para macular o remédio da intervenção. Basta lembrar que muitos dos políticos em atividade hoje, especialmente aqueles envolvidos em maracutais de toda a sorte, são filhos da ditadura militar brasileira. Graças a uma indicação da ditadura, o onipresente Fernando Collor tornou-se prefeito de Maceió em 1979 pela Arena, iniciando assim sua polêmica carreira política. Outros que também turbinaram as suas carreiras políticas durante a égide dos generais foram José Sarney e Paulo Maluf, só para ficar em três exemplos.

Ao longo da história do Brasil, os militares solaparam o poder por diversas vezes desde a proclamação da República em 1889. Apesar disso, fala-se na volta dos militares como um remédio de ruptura, como se os generais, ao tomarem o poder mais uma vez, fossem trazer consigo a salvação que foram incapazes de promover das vezes anteriores. Apenas para se ter uma ideia: em 1985, quando os militares “devolveram” o poder pela última vez, o Índice Geral de Preços, calculado pela Fundação Getúlio Vargas, estava na casa dos 242,68 pontos. Bem mais que o dobro do índice constatado em 1964, ano em que os militares tomaram o poder, quando a inflação ficou em 92,12. A dívida externa, por sua vez, saltou de 3,4 bilhões de Dólares em 1964 para 91 bilhões de Dólares em 1984[ii].

A despeito da história, os entusiastas pró-intervenção já “elegeram”, inclusive, um baluarte. Trata-se do deputado federal pelo Rio de Janeiro Jair Bolsonaro, o qual já vem sendo chamado de “o profeta do grafeno e do nióbio”. Este ardoroso fã da ditadura militar e de sua fileira de torturadores está em plena campanha para presidente da república. Os eleitores de Bolsonaro não escondem o afã messiânico que nutrem pelo político. Chamam-no de mito e difundem memes pelas redes sociais em que o deputado, militar reformado, aparece portando um fuzil sobre tanque de guerra, como um Rambo Tupiniquim pronto para despachar comunistas e oposicionistas em geral.

A degradação da democracia partidária, permeada por casos de corrupção em um contexto de crise, pode ser apontada como um dos fatores catalisadores para a ascensão de líderes populistas como Hitler na Alemanha pré-nazista e seus equivalentes mundo afora. Obtusamente, apesar de canalizar a insatisfação de eleitores com os políticos e partidos, Bolsonaro é um político de carreira, e transita por partidos diferentes com a desenvoltura de um fisiologista. Já passou por agremiações diversas, como PDC, PPR, PPB, PTB, PFL, PP e PSC. Atualmente, segundo noticiado pela imprensa, já negocia sua filiação ao partido Muda Brasil, já com vistas às eleições de 2018[iii]. Bolsonaro também coleciona cargos parlamentares desde sua eleição para vereador do Rio de Janeiro em 1988. Em 1990, antes de concluir o mandato na Câmara carioca, o político elegeu-se para a Câmara dos Deputados, de onde não saiu mais. Ocupa, por reeleições sucessivas, o cargo de Deputado Federal há mais de 25 anos[iv]. Em todo este tempo, suas declarações chamaram muito mais atenção do que a sua atuação como autor de projetos de lei.

Embora venha tentado se posicionar como o candidato da direita, Bolsonaro não apetece o grupo que compõe a direita tradicional brasileira. Em sua edição de 22 de fevereiro de 2017, a revista Veja, saliente representação dos liberais na imprensa, atribuiu o recente sucesso do militar ao “deserto político devastador”. O semanário lembrou ainda que, até recentemente, Bolsonaro “era um mero peão do baixo clero na Câmara” e “apenas um tipo folclórico no Congresso, um excelentíssimo zé-ninguém”[v].

O fato é que a inópia dos discursos de Bolsonaro não passa incólume a um olhar mais acurado, seja de um prisma esquerdista ou mesmo direitista. No entanto, esta mesma carência de profundidade e de embasamento antes de ameaçarem a reputação do veterano parlamentar, parecem contribuir com a elevação de sua popularidade.

Aliás, vale frisar o emblemático episódio que catapultou o obscuro deputado ao papel de messias reacionário. Foi em 2010. A partir de então, Bolsonaro tornou-se notório para seus fiéis, não por apresentar propostas ou soluções para os graves e anacrônicos imbróglios econômicos e sociais do país. Mas, por “denunciar”, em um tosco vídeo na internet, um material que o Ministérios da Educação se propôs a distribuir nas escolas, com vistas a combater a homofobia.



[i] http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2016/05/aecio-neves-fala-em-governo-de-salvacao-nacional-com-temer.html

[ii] http://infograficos.oglobo.globo.com/economia/entenda-os-numeros-da-economia-no-regime-militar.html

[iii] http://bit.ly/2ppuqkJ

[iv] http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/jair-messias-bolsonaro

[v] OYAMA, Thaís. A febre Bolsonaro. Veja, Ed. 2518, 22 de fevereiro de 2017. Págs. 54 – 59.

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