Bolsonaro, Dallagnol e Moro estão em apuros

O jornalista Ribamar Oliveira escreve sobre o aprofundamento da crise e o impasse no qual está metido o país: "a julgar pelo andar da carruagem, o Brasil caminha celeremente para uma mudança que se faz urgente e necessária: a saída dos principais responsáveis pelo caos em que mergulharam o país – Jair Bolsonaro, Sergio Moro e Deltan Dallagnol, os quais, não há dúvida, estão em apuros. Afinal, não custa lembrar que estamos em agosto, o mês de grandes acontecimentos na história do país".

(Foto: Lula Marques | Marcos Corrêa/PR)

A situação de Sergio Moro e Deltan Dallagnol, o primeiro no ministério da Justiça e o segundo na coordenação da força-tarefa da Lava-Jato, ficou insustentável depois que o site The Intercept arrancou a capa de moralidade de ambos, que haviam sido transformados pela mídia em super-heróis do combate à corrupção.  Graças à divulgação das conversas secretas do juiz com o procurador e deste com seus colegas da operação, o país tomou conhecimento que eles montaram uma verdadeira quadrilha dentro  do aparelho do Estado, usando seus cargos para a obtenção de vantagens pessoais e enriquecimento. Além disso, ainda manipularam  a opinião pública, com vazamentos de delações e a condenação e prisão do ex-presidente Lula, provocando alteração no resultado das eleições presidenciais de 2018, o que permitiu a vitória de Jair Bolsonaro. Impedindo o candidato favorito de participar do pleito, com uma condenação forjada, uma verdadeira farsa, eles simplesmente fraudaram as eleições e colocaram no Palácio do Planalto um homem que, em apenas sete meses de governo, já produziu um gigantesco estrago no país. Cada vez que abre a boca para falar, revelando seu despreparo para ocupar o mais alto cargo da Nação, Bolsonaro consegue convencer até seus aliados de que não tem condições de permanecer  no comando do Brasil.

Já apelidado nas esquinas de “boca do inferno”, com sua incontinência verbal (segundo Fernando Henrique), o capitão-presidente já criou mal-estar até entre os militares, sobretudo depois que disse saber como o pai do presidente das OAB, Felipe Santa Cruz, foi assassinado no tempo da ditadura militar. Com sua verborragia inconsequente, ele acabou exumando o cadáver de uma vítima do regime militar, provocando a indignação não apenas dos seus familiares mas, também, da sociedade brasileira. E agora terá de dar explicações à Justiça sobre o que sabe das execuções durante aquele período, até porque familiares de outras vítimas do regime estão, também,  exigindo notícias de seus entes queridos desaparecidos. 

Ele criou um clima tão difícil para a sua permanência na Presidência da República que o seu impeachment começou a ser cogitado com maior intensidade, embora muita gente não acredite nessa possibilidade porque o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, seu aliado, dificilmente concordaria com a sua admissibilidade. Há, porém, uma corrente que entende ser mais viável a anulação do pleito, porque com as revelações do The Intercept ninguém mais tem dúvidas de que as eleições foram fraudadas, inclusive pela massificação das fake News que mexeram com a cabeça de muita gente. Bolsonaro, na verdade, está conseguindo a unanimidade contra si, pois até a imprensa internacional não tem poupado críticas à sua administração, visivelmente lesiva aos interesses nacionais. Parece que só Donald Trump, sua alma gêmea, gosta dele. 

 O fato é que Bolsonaro, Moro e Dallagnol estão no mesmo barco que, diante das mais recentes tormentas, parece condenado a soçobrar antes do fim do ano. O capitão-presidente, apesar da vitória conquistada no Congresso com a aprovação em primeiro turno da reforma da Previdência,  tornou muito difícil  a aprovação da proposta em segundo turno, sobretudo depois da sua briga com os nordestinos. Ele vai começar a colecionar derrotas no Parlamento, com a derrubada de suas  medidas provisórias, até porque o seu próprio partido, o PSL, está se esfacelando como consequência de brigas internas. Ao mesmo tempo, ele está perdendo espaço entre os militares devido à humilhação e exoneração de generais,  que integravam o seu governo no início do mandato, por conta das agressões do seu filho vereador, o seu “pitbull”, como ele próprio o classificou. 

Cópia piorada de Trump, ele briga com todo mundo, inclusive com os cientistas, contestando, por exemplo, as pesquisas do INPE, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Ele contesta tudo que esteja em desacordo com as suas idéias, convencido de que a sua palavra é lei. E já pensa em entregar a Amazonia  para os americanos, depois de apressar a conclusão do processo de entrega da base espacial de Alcântara, liquidando com a nossa soberania sem um gemido dos nacionalistas das Forças Armadas. Será que ainda existem? 

Ninguém acredita que o capitão-presidente terá coragem de exonerar o ex-juiz Sergio Moro do Ministério da Justiça, apesar de tudo o que foi revelado até hoje sobre o comportamento dele na Lava-Jato, já que, aparentemente, a sobrevivência de um depende do outro, mas o procurador Deltan Dallagnol está com seus dias contados como coordenador da força-tarefa. A sua chefa, a procuradora geral Raquel Dodge, que tinha  feito ouvido de mercador aos áudios divulgados pelo The Intercept em parceria com a Veja e Folha de São Paulo, não conseguiu  manter essa indiferença depois das manifestações de ministros do Supremo Tribunal Federal sobre a ousadia do procurador de Curitiba em  investigar o ministro Dias Tóffoli. Alguns ministros, entre eles Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello e Celso de Melo, condenaram veementemente o comportamento de Dallagnol, que terá de explicar-se ao  Conselho Nacional do MPF e certamente será afastado da Lava-jato, embora Raquel tenha afirmado em nota que ele é “inamovível”.

Permanecer no cargo, porém,  será um escárnio e uma ofensa à Corte Suprema, cujos ministros não admitem um procurador de primeira instância xeretando as suas vidas para, possivelmente, chantageá-los no julgamento de ações do seu interesse. A PGR Raquel, no entanto, decidiu assumir a defesa de Dallagnol e classificou a Suprema Corte de “Tribunal de exceção”, o que sinaliza para mais uma crise nas instituições. O mais pitoresco é que em defesa do procurador ela esposa os mesmos argumentos da defesa de Lula (um juiz não pode ser investigador, acusador e julgador ao mesmo tempo), mas em relação ao ex-presidente sua posição é diametralmente oposta.    

No próximo dia 14 a Corte Suprema deve julgar a suspeição de Moro e o habeas corpus de Lula, com a provável anulação da sentença  que o condenou, o que implicaria na sua imediata libertação, desta vez, porém,  sem os tanques do general Villas Boas e sem as manobras dos desembargadores Gebran Neto e Thompson Flores, do Tribunal Regional Federal da 4ª. Região. Hoje o clima é outro, completamente diferente  depois das revelações do The Intercept, que abriram os olhos de muita gente sobre a farsa montada por Moro e Dallagnol, o que significa que, finalmente, o Supremo fará justiça e o ex-presidente será libertado.  Ainda tem muita gente, porém, que continua anestesiada pelo ódio disseminado pela mídia e redes sociais e mantém sua admiração pela dupla da Lava-Jato, preferindo fazer-se de cega, surda e muda diante dos diálogos secretos que vieram a público. 

O ministro Roberto Barroso, por exemplo, do STF, a exemplo de Raquel Dodge, também defende os dois principais protagonistas da força-tarefa, classificando a vaza-jato de “fofocada de criminosos”, o que significa sua aprovação tácita à ação criminosa de Moro e Dallagnol. A afinidade dele com ambos, na verdade, se tornou visível depois de revelado o jantar “reservado” que ele ofereceu aos dois, uma prova da sua admiração. Por outro lado, embora o Ministério Público Federal esteja dividido em relação ao comportamento de Dallagnol na Lava-Jato, a PGR Raquel, ao que parece, resolveu fazer uma jogada, ao defendê-lo, na esperança de agradar o presidente Bolsonaro e, desse modo, garantir sua recondução ao cargo, pois seu mandato expira em setembro próximo. Ela ficou, porém, numa situação muito difícil ao chamar o STF de “tribunal de exceção”, pois permaneça ou não na PGR não será mais vista pelos ministros com os mesmos olhos.   

O fato é que, a julgar pelo andar da carruagem, o Brasil caminha celeremente para uma mudança que se faz urgente e necessária: a saída dos principais responsáveis pelo caos em que mergulharam o país – Jair Bolsonaro, Sergio Moro e Deltan Dallagnol, os quais, não há dúvida, estão em apuros. Afinal, não custa lembrar que estamos em agosto, o mês de grandes acontecimentos na história do país. Até as pessoas que contribuíram para este desastre, votando no capitão, já estão se conscientizando do erro que cometeram. E, arrependidos, já imploram pela sua destituição, antes que o país seja completamente destruído.
 

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