Bolsonaro é a desesperança

Bolsonaro pratica, declarada e tranquilamente, a velha política na qual nasceu e viveu, por 28 anos. Por apoio do Congresso Nacional às políticas de desmonte do Estado e da supressão da soberania, o presidente se juntou ao centrão, que é um eufemismo para direita liberal, quando não ultraliberal. Enfim, mais do mesmo

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Tanto o articulista quanto o leitor gostariam de um texto no qual se pudessem saber das políticas de enfrentamento do governo ao mais importante e urgente problema brasileiro, o coronavírus. O Brasil já tem mais de 160 mil infectados, mais 11 mil mortos e mais de 700 mortes por dia. Um governo preocupado com a nação, como os de alguns países, lançaria mão de todos os recursos necessários para proteger a população, evitar o colapsamento do sistema de saúde e procurar minorar os efeitos da pandemia sobre a economia. Agora, não é hora de políticas fiscalistas, mas de um Estado ampliado, sem medidas de contenção de gastos para defender o País. O PIB mundial, de 2020, vai cair 3%. A crise que colapsou a economia mundial, em 2008, fez a produção do mundo recuar 0,1%. O PIB do Brasil pode baixar até 11%. E aí, preocupado com a economia, Bolsonaro segue defendendo a vida dos CNPJs, indiferente à morte dos CPFs.

Nenhum articulista é capaz de descrever o tamanho e os desdobramentos dos absurdos diários, produzidos por Bolsonaro, tanto pela sua já notabilizada inépcia, quanto pelo caráter perverso do seu comportamento político com os pobres. Ele despreza os mais de 100 milhões de brasileiros que vivem com R$ 415 por mês, valor que dispensa de apresentação da condição de vida de alguém com essa renda. Desde a criação do Bolsa Família, o Estado já acumulou um grande cadastro de famílias em condição de vulnerabilidade. Gostaria muito de poder contar aos leitores que, cada uma dessas famílias recebeu o depósito em sua conta cadastrada num dos serviços sociais brasileiros, que foi informada pelo aplicativo do banco, no aparelho celular, e já estaria comprando as provisões possíveis, com R$ 600 ou R$ 1.200, uma vez que a inflação da alimentação em casa aumentou, passando de 1,40%, em março, para R$ 2,4%, em abril.

É lamentável, mas o que o se tem para contar é que Bolsonaro espezinha essas pessoas, condicionando o pagamento apenas pela Caixa Econômica Federal, provocando aglomerações em agências de todo o Brasil. A medida é um escárnio com a sociedade. Ela expõe o beneficiado, os servidores da Caixa e uma série de pessoas ligadas à logística para se chegar às agências. Da mesma forma, infelizmente, não é possível dizer ao leitor no que estão se transformando os R$ 413 bilhões disponíveis para o governo transferir aos estados para enfrentar a pandemia, porque apenas 11% desse valor foram executados. A catástrofe brasileira será proporcional ao quanto a sociedade permitir Bolsonaro manter-se à frente do País. Ele não é presidente, encena um teatro macabro no qual é um ser mitológico, messiânico e inimputável, que age ao arrepio da lei, da realidade e, principalmente, das responsabilidades que ele sabe que não tem condições de enfrentar.

Bolsonaro desistiu de um desprezível churrasco devido à pressão causada pela repercussão negativa diante da calamidade que passará o Brasil, tanto por um esperado alto número de mortos pelo coronavírus, quanto pela fome que passa a maior parte da população. Segundo ele, o anúncio do churrasco foi uma fake news, como tudo que vem dele, desde antes das eleições. Além de mitológico e inimputável, Bolsonaro é, também, um adolescente mimado. Impedido de realizar a festa, foi se exibir para suas redes sociais, passeando num jet sky, às margens do Lago Paranoá. O gesto foi uma bofetada nas mais de 10 mil famílias enlutadas, em boa parte, pela negligência de Bolsonaro e de seu ministro da Saúde que é contra forçar a abertura de leitos particulares para o Brasil não criar uma imagem ruim, no exterior. Presidentes de todos os outros países estão em constante alerta e solidários com a população, enquanto Bolsonaro é presidente dele e para ele, apenas, para o seu infinito e presunçoso ego.

É impossível, nobres leitores, encontrar uma única proposta do governo que proteja os mais pobres e defenda os micro e pequenos empresários, que são as empresas que mais geram empregos. Todo o trabalho de defesa da população e da economia dos pequenos empresários tem sido feito pela oposição, pelos partidos de esquerda, no Congresso Nacional. Basta acompanhar uma sessão congressual, ou fazer uma simples e superficial pesquisa para observar quem apresentou as medidas que defendem a vida e quem está a serviço do mercado financeiro. A aplicação de políticas públicas será justa e soberana na medida do nível de politização da sociedade. Quanto mais politizada, mais condições ela tem de impor políticas que tornam uma sociedade mais justa. Porém, essa não é a condição da sociedade brasileira e, por isso, Bolsonaro pratica, declarada e tranquilamente, a velha política na qual nasceu e viveu, por 28 anos. Por apoio do Congresso Nacional às políticas de desmonte do Estado e da supressão da soberania, o presidente se juntou ao centrão, que é um eufemismo para direita liberal, quando não ultraliberal. Enfim, mais do mesmo. Não há, em definitivo, esperança de se evitar uma catástrofe sem precedentes na história do Brasil.

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