Bolsonaro e a estratégia do confronto final que se avizinha

"É preciso dizer sem meias palavras, o Ultraliberalismo não tem nenhum apreço à Democracia, menos ainda à Política", escreve Arnóbio Rocha

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(Foto: Reuters | PR)


Por Arnóbio Rocha 

Boa parte de nós subestimou o fanfarrão Bolsonaro, claro que havia a desculpa da trajetória dele como um deputado medíocre, mais conhecido pela bizarrices de suas falas e de sua pauta, sem qualquer projeto político apresentado em 30 anos de congresso, uma nulidade no meio do Centrão, cujo maior feito era se reeleger e eleger os seus filhos, a política como modo de vida, das rachadinhas, das verbas parlamentares e nada digno de nota.

A grande mudança, imperceptível pela grande maioria dos analistas, foi coincidir (casar) a pauta histriônica de Bolsonaro com os ventos ultraliberais que aportaram no Brasil com as jornadas de junho de 2013. Mas onde efetivamente as pautas de ambos se cruzaram? Um deputado fanfarrão, autoritário, folclórico com um movimento libertário à direita.

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Precisamente esse encontro inusitado de MBL, Vem Pra Rua com os Bolsonaros se deu na questão da ruptura com o sistema, na aparência, na luta contra a Política e contra a Democracia representativa burguesa carcomida. A extrema-direita tentou forjar alternativas menos evidentes e violentas, especialmente com o PSDB, via João Dória, ou com figuras como Joaquim Barbosa, nada, então abraçaram Eduardo Cunha, dali para Bolsonaro foi um passo simples.

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Do lado da esquerda, em nenhum momento houve uma reflexão que levasse a opção Bolsonaro como ameaça real. Mesmo com Lula preso, falta de acordo com Ciro, pouca ou nenhuma atenção se deu à Bolsonaro, mesmo com os 20% que ele pontuava ainda no início de 2018, de uma campanha totalmente marginalizada e fora da mídia, o que evitou desgaste de imagem, sempre tratado como folclore.

A “facada” foi apenas mais um lance de uma campanha que já se definia que o adversário do PT seria Bolsonaro, nenhum outro nome, Alckmin foi rifado pelo PSDB, no início de setembro, o crescimento de Haddad foi usado por Bolsonaro como forma de cerrar fileiras e a campanha dele foi ainda mais reforçada não apenas com fakenews, mas como o antipetismo, os ventos de 2013, do impeachment, da prisão de Lula, não tinham sido suficiente para quebrar o PT, Bolsonaro cavalgou esse sentimento real do Brasil.

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A ampla aliança que se formou em torno de Bolsonaro mandava “às favas os escrúpulos”, o sentimento de guerra ao PT pode ser sintetizado no editorial de adesão do Estadão “a difícil escolha“, que na verdade nem tinha mais escolha, toda a mídia, Globo, Folha, Estadão, Veja, estavam no barco de Caronte, rumo ao inferno.

Bolsonaro sempre foi o que é hoje, nenhuma surpresa, o que assusta é alguma ilusão de que ele é apenas mais um idiota, o que está no entorno dele tem uma lógica clara de enfrentamento, de ir até o fim, sem nenhum pudor, ou receio de dizer as coisas mais inconvenientes, mesmo as piadas com as mortes, as frases mais sórdidas faziam (fazem) parte desse método, nada fora do lugar.

O indulto do massarandunba, digo, do Daniel Silveira, também é parte dessa estratégia de sentir o pulso e ver a reação das instituições, até onde suportam com essa política de faca no pescoço, de todos os dias serem vilipendiadas, de nenhum respeito com as instituições, com os poderes.

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Bolsonaro define a pauta política e parece saber até onde irá, pouco preocupado com as tíbias reações da oposição. Ele sabe que terá dificuldades eleitorais, não tem nada a mostrar, mas mesmo assim não ficou fora em nenhum momento da disputa. A tendência é luta que vai se acirrar e, no limite, pode não garantir as eleições, muito menos uma derrota, por essa lógica, quanto mais as instituições estiverem “acoelhadas”, mais fácil de consignar seus objetivos.

É preciso dizer sem meias palavras, o Ultraliberalismo não tem nenhum apreço à Democracia, menos ainda à Política, o autoritarismo de Bolsonaro é um bálsamo para essa horda selvagem, ao menos perigo, se juntarão ao fanfarrão.

Passou muito da hora de um amplo movimento que defenda a Democracia e o que sobrou das instituições, uma pauta rebaixada à esquerda, mas é o que é possível num enfrentamento tão desigual.

Pior cenário será de uma vitória dessa onda autoritária que age em nome da “liberdade”.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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