Bolsonaro e a síndrome de Polifemo

O presidente mal consegue entender que por fora da sua ilha de compreensão, que é bem pequena, o mundo se manifesta como uma enorme multiplicidade que, longe de estar à espreita com o propósito de atacá-lo, encontra-se à espera de uma interação democrática e tolerante

Essa semana o presidente Bolsonaro encenou mais um vergonhoso episódio, assediando moralmente uma jornalista da Folha de S.Paulo, quando esta o perguntou se pensava que realizar cortes de verbas na educação era a fórmula para melhorá-la. De forma agressiva e covarde, precisou chamar seu secretário de comunicação, Fabio Wajngarten, para humilhar intelectualmente a desprevenida repórter. Com sua típica conduta de patriarca autoritário e arrogante, teve até a insolência de mandar a jornalista fazer faculdade novamente, e questionar a Folha sobre qual o critério de contratação do pessoal de imprensa. Talvez, a frustração de mais uma vez ter dado um discurso medíocre, dessa vez no evento em sua homenagem que ele mesmo orquestrou, no qual ainda cometeu uma gafe de antologia ao se enrolar com seu próprio slogan, fez o presidente descontar sua fúria e sua impotência na trabalhadora de imprensa. Incapaz de enfrentar uma audiência sem cair em simplismos e banalidades retóricas, precisou afirmar a sua inexistente autoridade intelectual numa mulher que, simplesmente, estava questionando suas políticas públicas, como todo jornalista tem o direito de fazer.

A visão reduzida da realidade que o Bolsonaro tem, somado ao seu ímpeto brutal e rústico, lembram muito a psicologia do ser mitológico retratado por Homero na Odisseia, chamado Polifemo. O presidente mal consegue entender que por fora da sua ilha de compreensão, que é bem pequena, o mundo se manifesta como uma enorme multiplicidade que, longe de estar à espreita com o propósito de atacá-lo, encontra-se à espera de uma interação democrática e tolerante. Mas, para Polifemo, que é pura libido violenta, nada o fará entender essa essencial premissa democrática. Na sua narrativa, está legitimado a engolir tudo o que passar pela sua frente. Como bem disse o monstro mitológico no antigo poema grego, nada merece seu respeito. Estudantes, jornalistas, índios e favelados serão devorados pelas suas políticas depredatórias e selvagens. Tem um ditado de Groucho Marx que diz: "Este homem parece um idiota, age como um idiota, mas, não se confunda! Essa pessoa é realmente um idiota!" Talvez seja essa função simbólica de Polifemo na Odisseia. Tudo nele, do princípio ao fim da história, é rudeza e ignorância. A íbris (arrogância) desmedida cega-o a tal ponto que a consequência natural é a cegueira posterior que lhe propicia Ulisses. Simbolicamente, para a mitologia, os ciclopes aos que Polifemo pertence, são inimigos essenciais da raça humana.
Na frente da besta, Ulisses se faz chamar de "Ninguém". "Ninguém me deixou cego" grita Polifemo, logo que Ulisses lhe espeta uma vara afiada cegando-o. Ninguém cega o Bolsonaro, a sua fúria, sua raiva é inerente à sua natureza incapaz de sentir empatia pelo próprio contexto que o circunda. A sua estéril competência para entender às criticas como possibilidades de superação e o diálogo como uma forma de crescimento.

A mitologia cria Polifemo como uma figura disforme. A sua deformidade é sua alta energia narcísica. O narcisismo é uma variável da cegueira, é um tipo de cegueira psicológica que nos impede de ver além do nosso próprio ego, das nossas próprias formas. Para Polifemo só existe o mundo dos gigantes ciclopes. É só nesse mundo que ele consegue existir e tudo o que exista por fora dele é desprezado e mal visto. Para o Bolsonaro, o mundo fora da sua visão patriarcal hetero normativa é um tipo de universo incompreensível e ilegítimo, que deve se subordinar a ele a aos que são como ele. Seus modos, tão análogos em essência à besta mitológica deveriam alerta aos seus conselheiros mais próximos, já que a história da humanidade mostra que todos os líderes com uma alta carga de ibris acabaram marcados pela infâmia histórica. A tragédia de Polifemo é negar aquilo que a ninguém se nega, a hospitalidade, que para o filósofo Derridá é a aceitação do outro. Vencido pela mais elementar inteligência, Polifemo é finalmente humilhado pela mais elementar das inteligências humanas: o trabalho coletivo. Entre muitos carregam a vara afiada que a acaba por deixá-lo cego, inútil, e permitir assim abrir as portas da libertação, da luz, continuando a viagem civilizatória.

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