Bolsonaro e militares levam o Brasil a epicentro mundial da pandemia

"Caso fracassem, os militares no ministério da saúde têm que se demitir, renunciando às responsabilidades que hoje assumem". escreve o cientista político Emir Sader

Ministério da Saúde, Eduardo Pazuello e militares
Ministério da Saúde, Eduardo Pazuello e militares (Foto: ABr)
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Uma dimensão notável da pandemia que nos afeta é revelar a grande quantidade de extraordinário pessoal da saúde pública – médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem -, na linha de frente, lutando para proteger as vítimas. Centenas deles já morreram nessa luta.

Por outro lado, os debates públicos revelam a qualidade e a quantidade do pessoal das universidades públicas e dos centros de pesquisa públicos, presentes em todos os órgãos da mídia e nos textos de análise da pandemia.

No entanto, Bolsonaro afirma que “os civis fracassaram”, como justificativa para apelar a militares para dirigir o ministério da saúde e ocupar, já com algumas dezenas de militares nos cargos mais importantes. Do conjunto de mais de 3 mil militares no governo, cerca de 20 se situam já no ministério da saúde, incluído no cargo de ministro.

Bolsonaro e os militares assumem a responsabilidade na condução da política governamental sobre a pandemia e sobre os graves efeitos que ela tem sobre o Brasil. O país se tornou, na falta de condução governamental e na falta de prioridade que o tema deveria ter, no segundo país do mundo com mais vítimas da pandemia e no novo epicentro mundial do coronavírus. Não se vê nenhuma política, nenhum plano de ação, nenhuma prioridade e nenhuma atenção especial do governo no atendimento da pandemia.

Nomear militares para dirigir o ministério da saúde em plena pandemia é um tapa na cara de todos os profissionais de saúde no Brasil. Um presidente que nunca reconheceu o papel deles no atendimento da pandemia, que não dedica recursos para que eles se protejam e exerçam suas funções em melhores condições, os desconhece totalmente, despreza o esforço que eles desenvolvem, nomeia a militares, sem nenhuma qualificação, para se ocupar da responsabilidade na condução da política governamental sobre a pandemia.

E o que esses militares fazem? Nada, absolutamente nada. Quem está no cargo de ministro da saúde chega a apelar para a reza, na falta de capacidade de propor medidas. O ministério divulga, agora de maneira incompleta e deformada, o balanço das vítimas do dia. Sem nenhuma análise dos dados e, menos ainda, sem qualquer medida para se contrapor ao crescimento acelerado das vítimas.

Como consequência da subestimação da pandemia por parte o presidente, da entrega do ministério da saúde a militares leigos, sem nenhuma qualificação na área da saúde, o Brasil tornou-se a maior preocupação mundial. Mesmo nos Estados Unidos, que têm vítimas em muito mais quantidade, já se revela uma contenção da curva de vítimas, com grande quantidade dos estados normalizando seu funcionamento. Até mesmo em Nova York, a cidade que evidenciou o pior resultado, já há resultados positivos.

Enquanto que, no Brasil, todos os índices são negativos, até porque não há nenhuma medida para conter essa expansão. Se produz já um verdadeiro genocídio de brasileiros. Rapidamente o número de mortos chegou a 800, reproduziu essa quantia por alguns dias, até chegar a mil mortos e mais, por dia.

Nenhuma reação do presidente, nem do ministro da saúde. O presidente considera que só chegando ao massacre de 70% dos brasileiros com o vírus, se poderia gerar uma limitação, critério que nenhum outro país do mundo adota. Seria uma chacina ter mais de 100 milhões de brasileiros com o vírus, dos quais uma porcentagem de 5 ou 6% morreriam.

Por outro lado, o presidente insiste, contra todo parecer científico, em promover um medicamento que não apenas não tem produzido resultados positivos, como gera efeitos colaterais graves, entre eles, a taquicardia, como se esse procedimento fosse alternativa, para poder liberar o livre funcionamento da economia.

Os militares, por sua vez, assumem uma grave responsabilidade, que colocam as FFAA diante do desafio de mostrar que são capazes de dirigir um lugar tão estratégico hoje no governo. Nem na ditadura militar  as FFAA nomearam militares para ministro da saúde ou para algum posto dentro do ministério. Se se provarem capazes de encarar com sucesso esse desafio, os militares terão comprovado que podem seguir ocupando cargos no governo.

Mas, caso fracassem, os militares no ministério da saúde têm que se demitir, renunciando às responsabilidades que hoje assumem. Os outros milhares de militares no governo, igualmente, deveriam se demitir, depois de fracassarem no enfrentamento do problema mais importante não apenas do Brasil contemporâneo, mas de toda uma geração.

Deverão confessar sua incompetência e retornar aos quartéis, para se dedicarem à sua função constitucional – cuidar da soberania nacional. O país conta com grande quantidade de pessoal especializado em saúde pública, que podem ocupar o cargo de ministro da saúde – entre tantos outros, Drauzio Varela, Miguel Nicolelis, além dos ex-ministros de saúde dos governos do PT, todos eles extremamente capazes de, uma vez recebendo todos os recursos necessários e o poder, atuar como prioridade nacional. E o Brasil conta com grande quantidade de pessoal para ocupar os cargos fundamentais do ministério da saúde e demonstrar que o país é capaz de enfrentar os desafios da pandemia e superá-la de forma eficiente, diminuindo os sofrimentos que hoje abatem sobre o povo brasileiro, indefeso com esse governo.

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