Bolsonaro e o corpo estendido numa poça de sangue

Reação de Bolsonaro diante do crime no Carrefour mostra que a luta contra o racismo também é uma luta contra seu governo, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

(Foto: Divulgação)
Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Mesmo sabendo que nunca se deve esperar uma reação decente por parte  Jair Bolsonaro, a resposta presidencial diante assassinato de João Alberto Siqueira Freitas supera qualquer expectativa. 

Longe de demonstrar empatia -- mesmo protocolar -- pelo sofrimento de um cidadão massacrado em praça pública, asfixiado numa poça de sangue por um grupo covarde de seguranças, Bolsonaro aproveitou a oportunidade para criticar e ameaçar brasileiros e brasileiras que foram as ruas manifestar sua indignação.   

"Não nos deixemos ser manipulados por grupos políticos", escreveu, como se os protestos contra o crime de Porto Alegre fossem parte de uma operação oculta contra o grupo Carrefour, um dos maiores do mundo . 

"Não existe cor da pele melhor do que as outras", acrescentou Bolsonaro,  sugerindo que uma reação de indignação pudesse confundir-se com a defesa de qualquer tipo de privilégio. 

Tentando perfilar-se em torno do já esfarrapado mito da  democracia racial, um dos pilares ideológicos da desigualdade brasileira,  Bolsonaro ensaiou uma argumentação que combina a Casa Grande de Gilberto Freyre com o individualismo agravado pelos tempos de neoliberalismo de Paulo Guedes:  

-- Como homem e como Presidente, sou daltônico: todos têm a mesma cor. Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. Existem homens bons e homens maus. São nossas escolhas e valores que fazem a diferença.

Num país onde pretos e pardos -- 53% da população -- constituem 75% dos mortos em ações policiais, é obvio que o Estado que Bolsonaro preside não é daltônico, a começar pelas forças policiais, cultivadas  com grandes mordomias e muito pão-de-ló, num tratamento de quem tenta garantir a sobrevivência a frente do Estado de qualquer maneira. 

Novo ponto de resistência contra uma sitiuação geral de opressão e perda de direitos, o corpo estendido numa poça de sangue em frente ao Carrefour é parte da luta contra o racismo, contra o governo Bolsonaro.

Alguma dúvida?

O conhecimento liberta. Saiba mais

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247