Bolsonaro e o triste fim de um povinho que queria se tornar nação civilizada

Existem outras formas gozantes menos letais, nas quais a moral pratica kantiana deve ser constantemente submetida a razão pura consciente. O Brasil atual não é uma nação civilizada. E parece que nunca será. Talvez seja apenas o canil ou o chiqueiro da Casa Grande

Deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ)
Deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) (Foto: Cássio Vilela Prado)

Com a crescente subida de Jair Bolsonaro nas pesquisas de intenções de voto para Presidente da República, podemos concluir que grande parte dos brasileiros continuam como relés “senzalênses” submetidos aos caprichos truculentos dos senhores “casagrandenses”.

Até hoje, decorridos mais de quinhentos anos após a expropriação da Terra de Santa Cruz dos primeiros brasileiros indígenas (brasileiros originais) pelos portugueses, o povo brasileiro não conseguiu entender que a porta da senzala foi semiaberta, eminentemente nos governos petistas dos últimos anos, quando lhe foi possível abandonar as correntes, o tronco e a chibata. Mas não, algo da languidez residual infecciosa nas cabeças espancadas dos sofredores “senzalênses” não são purgáveis de suas almas, o restinho de sangue que não foi jorrado permanece estancado e alojado em suas subjetividades, destinando-os tragicamente a eternos reféns do Outro expropriador.

É verdade que hoje em dia a truculência operada pela secular Casa Grande foi substituída pelo travestimento “dócil” do discurso-capitalista [Senhores da Casa Grande: grandes empresários que compram todos os políticos (Capitães do Mato e da Pólis) e que determinam o destino de todos nós, com o apoio da mídia e do estado de graça vivendi incrustado dos zumbis senzalênses, meros sadomasoquistas fantasmáticos identificados na cena aterrorizante com o espancador e, simultaneamente, identificados com a própria criança que é espancada, num soberbo gozo esplêndido], conforme o belíssimo texto agonizante do genial psicanalista Sigmund Freud (1956-19390): “Uma Criança é Espancada – uma Contribuição ao Estudo da Origem das perversões Sexuais”[1].

Não é sem motivo que os atuais “bolsonistas e agregados” se insurgem da obscuridade inconsciente não resolvida enquanto espancadores (racistas, xenófobos, ditadores fascistas bélicos, apologistas de torturadores, etc) dos outros, pois estão literalmente identificados ao pai (ou a mãe) espancador(a) da Casa Grande, gozando masoquistamente em Praça Pública com a chibata nos seus lombos, colocando a nu as suas clivagens subjetivas (espanca e são espancados por si mesmos, fantasmaticamente), sem nenhuma vergonha, pudor público e sem noção alguma de que uma Pátria é constituída, sobretudo, pelas diferenças (Alteridades), num constante debate democrático, com uma mínima doçura[2] possível.

Tais sujeitos divididos (clivagem) que operam e vivem (ou vegetam?) entre a chibata do senhor e o seu próprio lombo sangrento adormecido mostram-nos o gozo escabroso do qual não conseguem se desvencilhar. E pior ainda, querem impor esse gozo mortal a todos os brasileiros, custe o que custar...

Não se constrói uma nação responsável e saudável com o gozo maldito de bolsonistas, aecistas, moristas, temeristas, etc. 

Neste sentido, talvez aquilo que mais nos encantemos no Outro (Agalma do Banquete socrático) não seja exatamente aquilo que dele mais nos parece belo, senão aquilo mais abominável. Portanto, cuidado com a iluminação sanguinária fascista dessas crianças espancadas, pois elas também são espancadoras.

Existem outras formas gozantes menos letais, nas quais a moral pratica kantiana deve ser constantemente submetida a razão pura consciente.

O Brasil atual não é uma nação civilizada. E parece que nunca será.

Talvez seja apenas o canil ou o chiqueiro da Casa Grande.



[1] FREUD, Sigmund - “Uma Criança é Espancada – uma Contribuição ao Estudo da Origem das perversões Sexuais”, Obras Completas de Sigmund Freud, Editora Imago, Rio de Janeiro, RJ, 1996, p. 193.

[2] GUATARRI, Félix – Revolução Molecular: “Não se trata, como podemos perceber, de uma nova receita psicológica ou psicossociológica, mas de uma prática micropolítica que só tomará sentido em relação a um gigantesco rizoma de revoluções moleculares, proliferando a partir de uma multidão de devires mutantes: devir mulher, devir criança, devir velho, devir animal, planta, cosmos, devir invisível… – tantas maneiras de inventar, de ‘maquinar’ novas sensibilidades, novas inteligências da existência, uma nova doçura”. 

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