Realidade virtual: Bolsonaro é vaiado ao dar volta olímpica, mas TV não mostra

"No mundo de fantasia do Brasil de Bolsonaro & Moro, o que vale é a versão e a lei do mais forte", avalia o jornalista Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia; "Aconteça o que acontecer, o tripé mercado-judiciário-mídia, sob a proteção dos fardados, continua dando as cartas para que a realidade virtual domine o pensamento único da nova versão do 'Pra frente, Brasil'”

Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia

Na tentativa de reencarnar o ditador Médici, o capitão Bolsonaro levou a maior vaia da sua vida ao dar uma volta olímpica no Mineirão, no intervalo do jogo Brasil e Argentina, mas a TV não mostrou, nem tocou no assunto.

Sim, também teve quem aplaudiu e gritou “Mito!”, é verdade, mas era uma minoria.

Na Câmara, o ministro Sergio Moro foi chamado de “juiz ladrão” e saiu por uma porta lateral cercado de seguranças.

Para a grande imprensa, ele se saiu muito bem no depoimento de sete horas sobre as suas relações promíscuas com procuradores da Lava Jato.

A “reforma do trilhão” é apresentada como a grande panaceia para tirar o país do buraco, enquanto a tropa de choque da bancada da bala chama Bolsonaro de “traidor” por não garantir os privilégios previdenciários dos policiais.

Ato contínuo, o presidente resolveu arregaçar as mangas e entrou em campo para garantir a aposentadoria especial dos fardados que garantiram a sua vitória na eleição.

Vendida por propagandistas oficiais como Ratinho e outros bichos por ser uma “aposentadoria igual para todos”, a cada dia a reforma é reformada para garantir a mamata de quem tem bala na agulha e padrinho poderoso.

Os super-salários dos marajás da magistratura e das tropas só não valerão mais para quem entrar agora na carreira.

Ninguém vai mexer com os “direitos adquiridos” de quem se aposenta com mais de R$ 50 mil por mês, enquanto a grande maioria recebe menos de dois salários mínimos.

Há um abismo cada vez maior entre a vida real dos brasileiros e a realidade virtual apresentada pelo governo e pela mídia, como se a reforma da Previdência e o acordo com a União Européia fossem criar milhões de empregos assim que entrarem em vigor.

Por enquanto, o que aumenta sem parar são as taxas de desemprego e desmatamento, com a queda constante na projeção do PIB para este ano.

No mundo de fantasia do Brasil de Bolsonaro & Moro, o que vale é a versão e a lei do mais forte.

A Polícia Federal e o Coaf, sob o comando de Moro, investigam os vazamentos para encurralar o The Intercept, mas o conteúdo com graves denúncias contra Moro e os procuradores são solenemente ignoradas e arquivadas.

Moro nem se deu ao trabalho de responder às várias acusações que recebeu na Câmara sobre seu comportamento aético na Lava Jato para condenar Lula.

Ele sabe que nos noticiários da TV sempre se sairá bem, com a edição dos seus melhores momentos, sem dar muita bola para quem o ataca com fatos e provas.

Para saber minimamente o que está acontecendo, é preciso garimpar a mídia alternativa na internet, mas quase metade dos brasileiros ainda não está ligada à grande rede.

A grande maioria ainda se informa apenas pela televisão, que exibe a propaganda fake da reforma da Previdência e fatura alto com esta enganação.

Por isso, tem muita gente humilde defendendo a reforma, sem saber direito do que se trata, na esperança de que sua vida vai melhorar. Pensa que o tal “trilhão” será para eles.

Na televisão, não aparece um único argumento contra a reforma. Todos são a favor, de comentaristas a entrevistados.

Só nos blogs e sites independentes dá para ouvir a estrondosa vaia que Bolsonaro levou no Mineirão ou alguma voz dissonante sobre o grande engodo da reforma de Guedes.

Na imprensa, a vaia mereceu apenas nota de pé de página, bem diferente do que aconteceu com Dilma na abertura da Copa no Itaquerão, em 2014.

Aconteça o que acontecer, o tripé mercado-judiciário-mídia, sob a proteção dos fardados, continua dando as cartas para que a realidade virtual domine o pensamento único da nova versão do “Pra frente, Brasil”.

Médici fez escola. No “Brasil Grande” do regime militar, também só havia notícias boas, enquanto eram abafados os gritos dos torturados nos porões da ditadura.

Vida que segue.







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