Bolsonaro leva o Brasil à beira do abismo

"O Brasil, que até recentemente era um dos líderes do Sul Global, membro dos BRICS e oitava maior economia do mundo, dança perigosamente sobre o abismo: à performance altamente criticada do presidente Bolsonaro em Davos, vêm acrescentar-se detalhes dramáticos sobre as ligações perigosas entre o clã Bolsonaro e um dos mais notórios sindicatos do crime no Rio, sem mencionar o veto da Arábia Saudita às importações brasileiras de carne, resultado direto da promessa do novo presidente de transferir a Embaixada brasileira para Jerusalém", diz o jornalista Pepe Escobar

Bolsonaro leva o Brasil à beira do abismo
Bolsonaro leva o Brasil à beira do abismo (Foto: Adriano Machado - Reuters)

Por Pepe Escobar, para o Asia Times, com tradução de Sylvie Giraud – Um espectro assombra as elites brasileiras. Ele se chama Lula – o ex-presidente e, nos últimos nove meses, um dos prisioneiros políticos mais notórios do mundo, dada sua enorme popularidade e a controvérsia sobre sua condenação e encarceramento.

O Brasil, que até recentemente era um dos líderes do Sul Global, membro dos BRICS e oitava maior economia do mundo, dança perigosamente sobre o abismo: à performance altamente criticada do presidente Bolsonaro em Davos, vêm acrescentar-se detalhes dramáticos sobre as ligações perigosas entre o clã Bolsonaro e um dos mais notórios sindicatos do crime no Rio, sem mencionar o veto da Arábia Saudita às importações brasileiras de carne, resultado direto da promessa do novo presidente de transferir a Embaixada brasileira para Jerusalém.

Tudo isso volta os holofotes para o autocrata que está à espera; o vice-presidente e general aposentado Hamilton Mourão.

Para os financistas e o poderoso lobby do agronegócio que desempenharam um papel fundamental em sua eleição, Bolsonaro traz embaraços e torna-se dispensável. Mourão já disse que Ernesto Araujo, o novo ministro das Relações Exteriores, - um medíocre diplomata de baixo escalão, subserviente a um dos filhos de Bolsonaro - não foi capaz de formular a complexa política externa brasileira.

Como se não bastasse, o embaixador alemão Georg Witschel, em uma visita a Mourão, fez questão de salientar que não apenas Berlim, mas também as autoridades da União Européia em Bruxelas, ficaram chateadas ao ver o Brasil liderado por alguém com tão pouco respeito pelos direitos humanos, e isso bem no meio das negociações para um Pacto de Livre Comércio entre o Bloco Comercial Sul-Americano Mercosul e a UE.

Em São Paulo - capital financeira da América Latina – propaga-se o rumor de que um "golpe brando" em câmera lenta poderia estar em andamento para remover o novo presidente. Um documentário explosivo está prestes a ser transmitido pela poderosa Rede Globo mostrando, com a ajuda de especialistas americanos, que o “esfaqueamento” sofrido por Bolsonaro em setembro passado, durante sua campanha presidencial, foi, na verdade, um ardil publicitário.

Tudo parece desaguar em um caminho já trilhado: A eterna negociação entre militares e o império midiático da Globo, que, ao lado de Washington, apoiou ferozmente o golpe de 1964, resultando em uma ditadura militar de 21 anos. Isso levou à especulação sobre a possível emergência de Mourão como presidente.

Nessa hipótese, a pacificação das massas em benefício da reconciliação nacional pode até envolver a libertação de Lula para alguma forma de prisão domiciliar. Mas tudo isso ocorre em meio a conversas sobre mais privatização de empresas estatais.

Mas como chegamos a isso?

Expulsar os “comunistas”

Em 2017, o general Mourão disse que chegara o momento de mais um golpe militar. Imediatamente após a vitória de Bolsonaro-Mourão, ele jurou que o Presidente Nicolas Maduro seria derrubado e que o Brasil iria enviar uma força de “paz”. Bolsonaro fora até obrigado a frisar que Brasília não cogitava uma guerra contra Caracas.

As forças armadas brasileiras devem ser analisadas pelo ângulo do “terrorismo nunca mais”. O site Ternuma explica como os "comunistas", após o fim da ditadura militar em 1985, de "criminosos" tornaram-se "heróis" e de "terroristas" viraram "idealistas políticos", sempre saudados pela mídia. A “democracia” brasileira por ser tida como imposta, é desprezada, refém da “falsa política dos direitos humanos” e os sem-teto e os sem-terra são devidamente criminalizados.

Este ódio a todas as vertentes da esquerda combina-se com o lema “O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” - que não por acaso foi reapropriado da Brigada de Paraquedistas do Exército e tornou-se o mantra de campanha de Bolsonaro. Tanto Bolsonaro quanto Mourão são ex-paraquedistas.

Um coronel, Claudio Casali, explicou como o lema - ressurgido nos últimos anos - foi cunhado em 1968 por um grupo de paraquedistas nacionalistas, enquanto a ditadura militar estrangulava a cultura e a mídia.

O lema fez combustão nos quartéis militares, mais uma vez, durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff que, em uma tentativa de apagar o incêndio político, foi forçada a nomear Celso Amorim, o ex-ministro de Relações Exteriores de Lula - recentemente entrevistado pelo Asia Times - como ministro da Defesa.

Antes mesmo da reeleição de Dilma no final de 2014, Bolsonaro visitou a elite da Academia Militar das Agulhas Negras, prometendo “consertar” o Brasil. Toda a cadeia de comando militar apoiou-o entusiasticamente.

Foco na Floresta Amazônica

O que os militares brasileiros realmente pensam está claramente exposto em seu site, estritamente ligado a um poderoso grupo de generais - entre eles Augusto Heleno, Eduardo Villas-Boas, Sergio Etchegoyen e Mourão. O atual comandante das forças terrestres brasileiras é o padrinho de Etchegoyen. Essa elite militar medita sobre a melhor via de promoção do Exército brasileiro sob o governo de Bolsonaro e até mesmo consegue inverter a Teoria da Guerra Híbrida, analisando as formas pelas quais os "comunistas" se aproveitaram de suas técnicas.

O que aconteceu foi que o “golpe” por etapas de 2016/18 no Brasil revelou-se ser a forma mais sofisticada de Guerra Híbrida já implantada pelo poder judiciário-policial-militar e seus aliados financeiros, empresariais e midiáticos, levando ao impeachment da Presidente Dilma por meio de acusações inconsistentes e à prisão de Lula sem evidências concretas de corrupção.

Previsivelmente, o debate intelectual nas academias militares brasileiras reflete o dos Estados Unidos, incluindo a reapropriação da MOUT - Operações Militares em Ambiente Urbano, concebida pela Rand Corporation - e aplicada pelo exército da OTAN do Presidente Macron contra as manifestações dos Gilet Jaunes ou Coletes Amarelos na França.

Podemos estar entrando agora em uma nova e perigosa fase da Guerra Híbrida - como os militares brasileiros a interpretam. Discuti isso extensivamente com um dos principais especialistas brasileiros, o antropólogo de guerra Piero Leirner, professor da Universidade Federal de São Carlos. Leirner me contou como as forças armadas realmente acreditam que devem “militarizar” os fazendeiros para combater uma suposta aliança guerrilheira do Partido dos Trabalhadores com o PCC, sindicato do crime organizado - uma noção absolutamente espúria.

A latitude a partir da qual se deve observar o Brasil é uma região saída diretamente do Coração das Trevas de Joseph Conrad, situada ao redor de São Gabriel da Cachoeira, na margem norte do Rio Negro, o terceiro maior município do Brasil, e o segundo maior no imenso Estado do Amazonas.

Imagine uma imponente torre de vigilância coberta por densas florestas tropicais a não menos de 1.100 km de Manaus, capital do Estado. Não por acaso, a região do Alto Rio Negro está muito próxima das fronteiras colombiana e venezuelana. Há uma Brigada do Exército solitária no local; não é exatamente o que se precisa para uma "invasão" da Venezuela. Além disso, a selva é implacável – somente um desembarque aéreo é viável.

E, no entanto, para os militares, essa fronteira extrema e erma pode ser transformada em um dos Bálcãs brasileiros. Por quê? Porque poderia desembocar em confrontos de terras na floresta estimulando provavelmente conflitos com os indígenas Yanomami.

Em sintonia com as promessas de campanha de Bolsonaro de abrir a Amazônia ao agronegócio - pesadelo dos ambientalistas do mundo inteiro - Leirner diz que as forças armadas parecem estar preparando o terreno para a ocupação dessas florestas virgens por poderosos fazendeiros gaúchos do sul profundo do país. As grandes gestoras de ativos, BlackRock, State Street e Vanguard, são as principais acionistas dos cinco maiores agronegócios já em operação na Amazônia.

Coturnos prontos para agir

Além da Amazônia, os militares brasileiros continuarão projetando poder em sua esfera de influência geopolítica do Atlântico Sul; nos Andes, na África e no Caribe. O general Heleno foi enviado ao Haiti como comandante das forças de paz da ONU. Ele também foi o maior comandante da floresta amazônica.

Os mais graduados generais têm cargos ministeriais importantes no governo Bolsonaro. Segundo Leirner, nada menos que 20% do escalão superior está agora totalmente empregado. Nesta quarta-feira, o general Villas-Boas foi nomeado conselheiro especial de Heleno, o Ministro do Gabinete de Segurança Institucional, conhecido por sua sigla GSI. O GSI é o braço da inteligência do governo federal. Heleno é o estrategista chefe de Bolsonaro.

Bolsonaro nunca teve vergonha de defender os crimes da ditadura militar, e muito menos de exaltar torturadores notórios no Congresso. Sua popularidade e habilidade em manejar as redes sociais causaram grande impressão dentre os principais generais - que o identificaram como o homem perfeito para trazê-los de volta ao poder.

Eles sabiam que Bolsonaro sofria de várias imperfeições e que estar de volta ao controle total seria apenas uma questão de tempo. No entanto, problemas podem surgir do fato de que, como Leirner enfatiza, Mourão é apenas um técnico e carece do apelo carismático de Bolsonaro.

Embora os militares brasileiros exibam diferentes graus de nacionalismo, todos se aliam em torno de um forte corporativismo. A questão é se eles serão capazes de superar a marca registrada do país, a saber, a alienação e a mentalidade subimperial de uma antiga colônia escravagista que ainda não atingiu a consciência hegemônica de sua grandeza como parte de um mundo multipolar emergente.

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