Bolsonaro, não Maduro, pode ser apeado no curso da crise

Uma consequência de guerras perdidas ou de provocações de guerras sem motivo é a destituição dos líderes malucos que as incitam. Pelo que já fez, Bolsonaro está em condições de ser constitucionalmente destituído

Bolsonaro, não Maduro, pode ser apeado no curso da crise
Bolsonaro, não Maduro, pode ser apeado no curso da crise (Foto: Ueslei Marcelino - Reuters)

O auto-proclamado presidente da Venezuela, Juan Guaidó, que conseguiu arrastar em sua patética aventura política outros vassalos do Departamento de Estado norte-americano, inclusive o aloprado ocupante do Itamaraty, tem interessante paralelo histórico. Numa dessas coincidências de programação que contrapõe ao noticiário manipulado a vida real, a Globo anunciou que ir passar ontem o filme "O último Rei da Escócia", sobre a vida do sanguinário ditador de Uganda, Idi Amin Dada. Num de seus momentos de loucura, Idi Amin se proclamou Rei da Escócia. Como Guaidó em relação à Venezuela, e com idêntica legitimidade!

Que os nossos vizinhos ou quase vizinhos da banda do Pacífico, além da Argentina, tenham entrado nessa não é de admirar. Não tem soberania. Fazem o que o Departamento de Estado manda. Contra os interesses reais de seus povos sucumbiram à imposição do tratado de livre comércio do Pacífico, que os torna eternamente dependentes de importações preferenciais de produtos industrializados norte-americanos e vendedores exclusivos de produtos primários, sujeitos à clássica instabilidade cambial sul-americana. A propósito, percorri anos atrás, no Governo Lula, praticamente todos os países sul-americanos e encontrei grande contrariedade por causa da posição brasileira de resistir à ALCA.

Desses países de pode dizer o que disse Jesus a propósito daqueles que o crucificaram: Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem. As notícias que tenho tido de Colômbia, Equador e Peru é o risco permanente de crises cambiais em face da instabilidade dos preços dos primários. Jamais sairão disso enquanto perdurar sua escravização comercial aos Estados Unidos. E é justamente manipulando essa fraqueza econômica deles que o Governo imperial norte-americano consegue decisões políticas esdrúxulas como esse cerco à Venezuela - com risco inclusive, dado algum incidente provocado, de uma conflagração bélica na região.

Soube que a cúpula militar brasileira rechaça qualquer proposta de intervenção física na Venezuela. É um alívio. Mas nosso problema é que temos um presidente desequilibrado e um ministro das Relações Exteriores idiota: eles podem querer brincar de guerra, mesmo porque só uma guerra fará a opinião pública brasileira se esquecer do mar de lama que cerca o Alvorada - ainda sem explicação clara porque Sérgio Moro, o ministro da Justiça, não deve ter encontrado conexão de Flávio Bolsonaro e suas exaltadas milícias com o ex-presidente Lula, sabendo-se que são essas conexões com Lula a sua especialidade.

Uma conseqüência de guerras perdidas ou de provocações de guerras sem motivo é a destituição dos líderes malucos que as incitam. Pelo que já fez, Bolsonaro está em condições de ser constitucionalmente destituído. O Brasil pode suportar, para reagir no momento certo em mobilizações de rua, o fardo de um governo que ameaça competir com o de Temer como o pior de nossa história. Em política externa, a questão é mais urgente. Aí não estão envolvidas apenas idiossincrasias de governo, mas questão de Estado. Por isso os generais do Governo tem que se preparar para agir. A política externa brasileira não pode ficar nas mãos de moleques.

Não estou pregando golpe militar. É que, de uma certa forma, os militares já tomaram o poder no Brasil. O que estou propondo é que assumam suas responsabilidades constitucionais dentro da institucionalidade, através de um Vice eleito. Diante do imenso desafio econômico, social e político com que nos defrontamos, só se esses militares forem, também eles, insanos, não procurarão encontrar um caminho do diálogo e do pacto social para colocar o país na trilha do desenvolvimento autônomo, sem subordinação a potências estrangeiras e com o compromisso de nos tirar da crise. Bolsonaro jamais fará isso porque é obcecado pela vingança e pelo ódio, infenso à solidariedade.

É claro que, para isso, é mais importante um governo civil com militares, do que um governo militar com civis. O caminho da negociação política deve passar por aí, descartando-se, com Bolsonaro, seu lugar-tenente em Economia, também ele movido pelo espírito odioso do neoliberalismo. E no que corresponde à necessária destituição do presidente descontrolado, há vários caminhos: primeiro, submetê-lo a uma junta médica psicológica; segundo, iniciar mobilizações no Congresso para um impeachment; terceiro, pressionar por sua renúncia. Uma quarta opção, o tutelamento, é inviável na prática: Bolsonaro já provou que é intutelável, e que não pode segurar de interferências no Governo sequer os filhos.

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