Bolsonaro nega a política e será negado por ela

Sob a alcunha de "velha política", o presidente se lança contra os pontos fundamentais do sistema político. Ocorre que não há vida democrática fora dos limites da política, entendida como o campo da deliberação e da transformação do mundo pelos sujeitos políticos

Bolsonaro nega a política e será negado por ela
Bolsonaro nega a política e será negado por ela (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

As instituições jurídicas e políticas são parte fundamental do processo de sustentação da democracia. Por isso, devem ser fortalecidas permanentemente pelos cidadãos e, principalmente, pelos agentes públicos. Nesse sentido, negar a política e desqualificar o judiciário, como tem feito o presidente Jair Bolsonaro, tem o potencial de enfraquecimento democrático e até mesmo de colapso das instituições.

Isso porque as instituições democráticas não são capazes de manter sozinhas aquilo mesmo que elas representam, isto é, a democracia. Além disso, é preciso que os agentes públicos se comprometam com princípios democráticos mínimos, a fim de que a Constituição, por exemplo, seja defendida. E, mesmo que haja divergências culturais e ideológicas entre as lideranças político-partidárias, é importante que se encontrem formas de coexistência democrática na esfera pública.

Nesse sentido, trata-se de privilegiar a tolerância mútua entre os indivíduos que participam do processo político, além de compreender as rivalidades provenientes da natural divergência de ideias como parte importante do bom ordenamento democrático. O que se viu até aqui, contudo, é que Bolsonaro e seus ministros atacam, ao mesmo tempo, o sistema político e a democracia. Sob a alcunha de "velha política", o presidente se lança contra os pontos fundamentais do sistema político. Ocorre que não há vida democrática fora dos limites da política, entendida como o campo da deliberação e da transformação do mundo pelos sujeitos políticos.

Os constantes ataques à imprensa, a contestação de fatos históricos, a histeria anticomunista, a criminalização dos movimentos sociais e a desqualificação dos partidos de oposição são apenas alguns dos muitos exemplos da estratégia de Bolsonaro para negar a política. Trata-se de uma aposta do presidente na tensão permanente e no revisionismo histórico como armas políticas. Falta a Bolsonaro, no entanto, compreender que a esfera pública é também o reino do discurso, da divergência política e do respeito mútuo entre seus integrantes.

A falta de compromisso público de Bolsonaro com as instituições democráticas e com os direitos constitucionais revela que fracassamos quando elegemos um presidente cujas atitudes diante dos instrumentos democráticos se mostram ambíguas e errantes. Mas os valores democráticos, embora frágeis, são maiores do que os anseios autoritários de alguns poucos representantes políticos. Ao negar a política, nesse sentido, Bolsonaro parece não perceber que seu revés se anuncia muito mais rápido do pensávamos há apenas alguns meses. Ele também será negado pelas forças democráticas.

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