Bolsonaro, o alexitímico

"Talvez seja um psicopata perverso. Meu diagnóstico, de um leigo metido a besta, é que ele sofre de alexitimia, uma espécie de analfabetismo emocional", diz o colunista Milton Blay. "Os alexitímicos também têm dificuldade em reconhecer e entender as emoções dos outros"

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Jair Bolsonaro (Foto: Isac Nobrega - PR)
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Ao cobrir para a revista The New Yorker o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, em 1961/62, a filósofa judia de origem alemã, naturalizada americana, Hannah Arendt, criou um conceito que entraria para a história como a "banalidade do mal".

Enquanto o processo corria em Jerusalém em torno dos vários ismos – nazismo, antissemitismo, racismo, eugenismo – Arendt se consagrava a tentar compreender a relação entre o homem Eichmann e os seus atos. Chegou à conclusão que o oficial SS, apesar de ter sido um dos altos responsáveis da “solução final”, que visava exterminar os judeus da face da Terra, não era uma “bête furieuse” ao contrário do que ela própria imaginava e sim um funcionário medíocre do 3° Reich. Concluiu que o “mal não reside no extraordinário e sim nos pequenos atos cotidianos que levam a cometer crimes abomináveis.”

Nessa série de artigos, depois transformada no livro Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a banalidade do mal, Hannah Arendt defendeu a tese de que o nazista abandonou o poder de pensar para obedecer cegamente ordens superiores. Em outras palavras, que ele perdeu a capacidade humana de distinguir entre o bem e o mal, sem nenhum motivo, convicção pessoal, nem intenção. 

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Resumindo, Eichmann teria perdido a capacidade de elaborar julgamentos morais.

Do ponto de vista filosófico, isso equivale a dizer que os crimes terríveis cometidos pelo responsável da logística do holocausto não foram cometidos porque ele era mau, e sim porque era medíocre.

Para Arendt, continuar a pensar e se questionar sobre si mesmo e seus atos, é uma condição sine qua non para evitar a banalidade do mal.

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As reflexões da filósofa-jornalista parecem importantes para se tentar entender o fenômeno Bolsonaro.

Vejamos o exemplo: na sexta-feira, dia 8 de maio, mais um dia de recorde de mortes pelo coronavírus, o presidente ignorava voluntariamente 10 mil mortes para ironizar e anunciar um churrasco no Palácio da Alvorada no final-de-semana para 30 ou 3.000 convidados. No fundo, o número pouco importava, pois ao organizar o churrasco estaria desobedecendo as recomendações das autoridades de saúde, do Brasil como do resto do mundo e menosprezando as famílias das vítimas.

Questionado pelos jornalistas sobre se promover um churrasco com aglomeração de pessoas não seria um mau exemplo, o Jim Jones brasileiro convidou os apoiadores que estavam na frente do Alvorada a participarem da festa.

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O presidente foi questionado seis vezes pelos veículos de imprensa se o gesto não era um exemplo negativo para a população. Ele, no entanto, não respondeu e continuou a brincar, ameaçando, com um largo sorriso, retirar a classificação do trabalho jornalístico como atividade essencial durante a pandemia, em mais uma enésima ameaça à liberdade de imprensa.

O churrasco não se realizou; Bolsonaro trocou a carne assada por um passeio de moto aquática, sempre desrespeitando o distanciamento social e dando uma banana para aqueles que perderam seus pais, avós, filho e netos. Naquele exato momento, o Congresso hasteava a bandeira a meio-mastro em sinal de luto pelos mortos da pandemia.

O que um churrasco fake e um passeio de jet skitêm a ver com Eichmann e a banalidade do mal. Explicação para iniciantes:

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Eichmann e Bolsonaro no mundo sem emoções

Hannah Arendt certamente se enganou ao ver em Adolf Eichmann “apenas” um funcionário medíocre e não o monstro que ele era de fato, além de um artista hors pair, capaz de mentir descaradamente durante todo o processo sem um piscar de olhos nem um pingo de arrependimento ou remorsos.

Jair Bolsonaro, outro mentiroso contumaz, talvez não tenha entendido a pergunta dos jornalistas, de que o fato de organizar uma aglomeração em meio à pandemia era um mau exemplo e que ele devia uma palavra de solidariedade aos brasileiros. Talvez ele tenha se comportado assim por incapacidade de diferenciar o bem do mal, que guia as nossas sociedades monoteístas desde Adão, Eva, deus e a serpente.

Um estudo da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, concluiu que ao menos 10% dos casos de covid-19 no Brasil se devem aos atos e palavras do presidente. Ou seja, no início de novembro de 2020 Bolsonaro era responsável, no mínimo, por 16 mil mortes. Municípios bolsonaristas tiveram quase 30% mais casos de infecção que os demais; de acordo com este mesmo estudo. 

Ao decretar guerra à vacina sino-Dória (ordenando a suspensão dos testes pela Anvisa do almirante Antonio Barra Torres) e ameaçar os Estados Unidos de Joe Biden com pólvora - "Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão, não funciona" - o capitão assinou um certificado de loucura. Tem de ser interditado.

Talvez Jair Bolsonaro seja esquizofrênico, por ter tido um aprendizado deficiente da expressão dos sentimentos na infância e adolescência, no seio familiar. Talvez seja um psicopata perverso. Meu diagnóstico, de um leigo metido a besta, é que ele sofre de alexitimia, uma espécie de analfabetismo emocional, uma característica de personalidade em que o indivíduo é incapaz de identificar e descrever suas emoções e sentimentos. Os alexitímicos também têm dificuldade em reconhecer e entender as emoções dos outros.

Ainda não há consenso sobre a etiologia da alexitimia. Existem teorias que a associam a causas hereditárias, a algum trauma cerebral, a defeitos na formação neurológica, a influências socioculturais e outras que acreditam numa origem psicológica como, por exemplo, traumas na formação infanto-juvenil, ou mesmo mais tarde.

O transtorno costuma estar mais presente em pessoas que sofreram de alguma doença neurológica ou que sofrem de transtornos psicológicos como, por exemplo, depressão, ciclotimia, esquizofrenia, transtorno esquizoafetivo ou em pacientes com mal de Parkinson.

Existe uma alta incidência de casos de alexitimia em pessoas que apresentam transtornos do espectro autista, estando presente aproximadamente em 85% das vezes. 

As pesquisas mais atuais concluem que nas pessoas com alexitimia existiria um rompimento na comunicação entre os dois hemisférios cerebrais.

As pessoas com alexitimia têm falta de empatia; pobre capacidade para imaginar e fantasiar; indecisão; pensamento e comunicação simples e concretos; aparência distante e fria; escassa comunicação verbal e não-verbal; dificuldade em manter relações interpessoais e ausência de desejo sexual.  

Alexitimia parece, tudo indica, ser o caso do capitão, talvez com exceção de sua sexualidade. Mas para os brasileiros pouco importa o diagnóstico, interessa o resultado … catastrófico. Só um alexitímico é capaz de dizer após 163 mil vítimas de covid:

"Tudo agora é pandemia. Tem que acabar com esse negócio. Lamento os mortos, todos nós vamos morrer um dia. Não adianta fugir disso, fugir da realidade, tem que deixar de ser um país de maricas."

Do ponto de vista filosófico, a banalidade do mal, tal como descreveu Arendt, deve-se assim a uma “ausência de pensamento crítico”. O que é o caso do presidente e de seus seguidores. No período nazista, poucos foram aqueles que pensaram por si mesmos e souberam distinguir o bem do mal, agindo de acordo com estes conceitos.

A maioria teria optado por ignorar o imperativo categórico kantiano dos princípios morais que devem ser observados incondicionalmente.

No entanto, assinalou a filósofa-jornalista, o fato de “não pensar” não constitui uma fatalidade imposta por uma força externa insuperável. É antes o resultado de uma escolha pessoal.

“Pensar”, escreveu, “é uma faculdade humana, seu exercício é responsabilidade de cada um” – tanto no caso de Adolf Eichmann, como no de Jair Messias Bolsonaro.

Ambos porém parecem incapazes de formular julgamentos morais.

Assim como os apoiadores e próximos de Hitler optaram por desistir do pensamento crítico para seguir irrefletidamente seu líder, da mesma maneira agem os fanáticos de Bolsonaro.

Na “Banalidade do Mal”, Hannah Arendt conclui que o fato de abandonar voluntariamente a capacidade de pensar não faz alguém inocente, ao contrário, trata-se de um fator agravante: os crimes de Eichmann eram portanto imperdoáveis. Os de Jair Bolsonaro também.

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