Bolsonaro, o candidato dos mercados?

É conhecido que em circunstâncias históricas de ausência de mediações institucionais a direita assustada pode estabelecer mais entendimentos como um candidato da extrema direita do que com a preservação da ordem institucional e da livre competição democrática

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bolsonaro (Foto: Ariel Goldstein)
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No Brasil estão se perdendo as condições institucionais para regulamentar o conflito político. As incertezas desta eleição ao respeito dos principais candidatos, inéditas durante o período de concorrência hegemonizado pelo PT-PSDB (1994-2014), são o resultado do ciclo de "neutralização da esquerda", como o definiu o cientista político Renato Lessa. A exclusão da esquerda da sua representação política no cenário político -com o impeachment da Dilma e a prisão do Lula- destrói as bases do consenso democrático e reduz as possibilidades de que os antagonismos políticos sejam canalizados dentro das instituições.

Neste contexto de polarização, a incapacidade da direita de construir um candidato viável para a eleição poderia leva-la a apoiar Bolsonaro com o a ideia de que seja o único com capacidade de frear um candidato da esquerda. De fato, o Bolsonaro tem nomeado o neoliberal Paulo Guedes como o seu assessor na economia com essa intenção. A pretensão de combinar um discurso da extrema direita com propostas econômicas confiáveis para o mercado financeiro.

É conhecido que em circunstâncias históricas de ausência de mediações institucionais a direita assustada pode estabelecer mais entendimentos como um candidato da extrema direita do que com a preservação da ordem institucional e da livre competição democrática. Para a direita, mas importante do que a preservação da democracia e das liberdades institucionais, é a preservação dos seus privilégios e da maximização das suas ganancias no capitalismo periférico brasileiro.

Isso já foi demonstrado com o apoio ao Temer, um presidente que fez mas para a destruição da fragilidade institucional brasileira após o impeachment do que para a preservação da mesma.

A polarização atual e os ataques da direita também introduzem unidade nas esquerdas e radicalização. As principais lideranças das esquerdas (Lula, Guilherme Boulos, Manuela D'Avila, Lindbergh Farias, Gleisi Hoffman) compreenderam que não é possível voltar ao governo nestas circunstancias para reeditar a conciliação petista entre os mais ricos e os mais pobres do período 2003-2015. A esquerda sabe que para uma reconstrução da ordem institucional no país vai ser necessário também um programa de maior radicalidade e avanços que atinja uma regulamentação da mídia (como falou Lula no discurso do São Bernardo do Campo) e também uma taxação dos lucros das classes dominantes. E isso também o sabe a direita, e por isso pode que, se o Alckmin ou o Meirelles não conseguem levantar na intenção de voto, termine exercendo pressão para uma moderação maior do Bolsonaro e que mude no candidato oficial dos mercados. Já a nomeação do Paulo Guedes como assessor na economia e as suas recentes declarações de que não vai taxar o dinheiro dos ricos são um signo de que essa mudança está em curso.

Autor do livro Imprensa tradicional e lideranças populares no Brasil (A Contracorriente, 2017)

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