Bolsonaro, o derrotado, entrega o jogo e fala em “futuro possível governo Lula”

A oito meses das eleições, um dos dois adversários desfila autoconfiança, alegria e seduz. O outro está alquebrado, isolado, uma sombra de si próprio: derrotado

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Por Mauro Lopes

Assisti à live semanal de Bolsonaro nesta quinta-feira (27). Sim, eu fiz isso, por dever de ofício e por curiosidade. O texto a seguir surgiu do impacto que ela me causou.

Introduzo o assunto.

Há algo fundamental em todas as atividades humanas, mas especialmente naquelas que implicam algum tipo de competição - colaboração e competição são dois elementos do paradoxo que nos constitui, não sendo nenhuma delas em si mesma positiva ou negativa. O princípio yin-yang do taoísmo é baseado na compreensão e aceitação do paradoxo e no entendimento de que um não existe sem o outro.

Na dinâmica da competição, ao longo do tempo, construiu-se a compreensão de que a preparação psicológica e o estado de espírito são fundamentais, O esporte é uma das atividades onde isso mais se desenvolveu, e faz tempo. A psicologia do esporte surgiu ao redor de 1940-50 e aportou no Brasil cerca de 30, talvez 40 anos depois. Hoje, não existe esporte profissional sem a incorporação das aquisições da psicologia. O condicionamento psicológico conta tanto quanto o atlético. E, especialmente nos esportes de confronto individual, a preparação psicológica caminha pari passu com a atlética. Quem está melhor condicionado e tem mais autoconfiança (sem se deixar trair por ela), e maior convicção da vitória entra na disputa com vantagem -e ela pode definir o resultado final do embate.

Na política é assim, especialmente nas disputas para cargos no executivo, como prefeito, governador ou presidente. 

O que está acontecendo neste momento é, numa corrida eleitoral que tem, até o momento, duas pessoas correndo à frente, com os demais comendo poeira, a relação psicológica entre Lula e Bolsonaro tem relevância e deve ser observada.

Lula está muito na frente, cercado de apoio, cada vez mais, vitorioso, reconhecido nacional e internacionalmente, colhendo vitórias sobre vitórias em todos os terrenos, das pesquisas aos tribunais e articulações políticas. Está exuberante, confiante, emana autoridade. A postura física de Lula é exemplar: peito estufado, olhar direto, iniciativa corporal. Quando anda, Lula parece dançar. É claro que a academia diária é decisiva, mas nasce de dentro para fora este desfile exuberante de quem tem a serena certeza que irá para seu terceiro mandato presidencial.

Bolsonaro tem cada vez menos apoio, é um pária no planeta e colhe cada vez mais rejeição e repulsa no país. Vive num entra-e-sai de hospitais. Olha para cima, como se buscasse desviar o olhar do interlocutor. Impõe sua autoridade agarrado ao cargo, aos socos na mesa, aos xingamentos. 

Fiquei espantado ao assistir à live. Bolsonaro é uma sombra do homem que se apresentava ao público até o 7 de setembro, quando acreditou que dobraria os demais poderes da República e foi empacotado por eles. No passado, teria usado a live como instrumento de combate para a nova crise com o STF, teria brandido ameaças entre risadas de escárnio, açulado sua base popular, chacoalhado as mãos e feito brincadeira com ministros e outros personagens, num espetáculo ao estilo fascista, grotesco, agressivo, irônico. Mas Bolsonaro estava ausente da live. Fugiu do embate com o STF, não convocou a turba, ficou numa conversa sem graça e totalmente desimportante sobre o BNDES. Estava com ar cansado, desanimado como num canto do ringue. visivelmente cumprindo uma obrigação sem qualquer prazer.

Imagine Bolsonaro vendo o desempenho de Lula na última coletiva ou nas entrevistas mais recentes para rádios e vendo-se a si próprio no dia a dia. Imagine o efeito psicológico sobre ele. 

O auge da live foi quando Bolsonaro, diante de uma pergunta sobre um eventual governo Lula, respondeu como numa confissão desanimada:  "O que tenho informação aqui é que tá tudo pronto no futuro possível governo Lula".  Ali, ele entregou tudo e mostrou-se alquebrado psicologicamente, derrotado no meio da corrida, subjugado pelo adversário exuberante e vencedor: "futuro possível governo Lula".

Bolsonaro reconheceu, oito meses antes das eleições, que Lula o derrotou. Ainda não nas urnas, mas naquilo que precede a disputa eleitoral: no embate psicológico entre os adversários.  

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