Bolsonaro pergunta ("A Amazônia é nossa?") e responde: "Não é mais"

"Em vídeo gravado na campanha presidencial, Bolsonaro compara a Amazônia às ilhas Malvinas, enclave colonial que a Inglaterra conserva ao Sul do Continente, inclusive através de uma guerra que deixou 1000 mortos, em 1982," escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia.

Em circulação pela internet, um vídeo de um minuto e 20 segundos é de particular utilidade para se compreender as ideias e a visão de mundo de Jair Bolsonaro, eleito em outubro de 2018 para ocupar a presidência do Brasil até janeiro de 2023. 

Postado no tuite do deputado Paulo Pimenta (PT-RS), com uma marca "Bolsonaro TV," o vídeo é uma peça da campanha presidencial e mostra Bolsonaro de microfone na mão, em pé diante de uma mesa, na qual é possível reconhecer o filho 03 -- hoje candidato a embaixador em Washington -- e a cabeça branca do Major Olimpio, eleito senador. 

Através de uma passagem curta, o vídeo permite identificar os  lamentáveis eixos ideológicos que alimentam  a barbárie mental do presidente. 

Como registro político, está  destinado a ter um impacto considerável, no Brasil e no exterior, pelo tratamento que Bolsonaro reserva ao debate sobre a Amazonia. 

Ele chega  a comparar a Amazonia às Ilhas Malvinas, aquele enclave colonial que a Inglaterra mantém ao sul do Continente desde o final do século XIX, assegurando sua posição  através da guerra de dois meses de 1982, que deixou pelo menos 1000 mortos dos dois lados.

"A Amazonia é nossa?", pergunta. "Só a pessoa que não tem qualquer cultura fala que é. Não é mais nossa", afirma, com ares de quem julga possuir pelo menos "alguma cultura". 

É  postura inaceitável para pretendia assumir,  com a eleição, e a posse, a obrigação constitucional de defender a soberania do país e a integralidade de seu território. 

A frase ("não é mais nossa") aparece num contexto preciso, quando Bolsonaro revela que tem "se aproximado do governo americano " e fala que fez  "reuniões com embaixadores". 

Numa conjuntura na qual seu governo se mobilizou para confrontar -- com modos grosseiros e gestos truculentos -- o debate europeu sobre  a Amazonia, essa postura já envolve consequências políticas  comprometedoras. 

Permite entender que a recente guerra midiática de Bolsonaro em torno da Amazonia não passou de um teatro demagógico, de quem  agredia e até ofendia nas lideranças do Velho Mundo, em particular o presidente da França Emmanoel Macron e sua mulher, Brigitte, para agradar aos interesses do patrão de Washington, Donald Trump. 

"Ele só está querendo escolhendo para quem vai entregar a Amazonia," diz Paulo Pimenta. 

A partir do vídeo, atitudes que parecem absurdas passam a fazer sentido -- a começar pelo questionamento sem base técnica dos registros do INPE, numa agressividade destinada a  forçar a demissão de um cientista de reconhecimento internacional, a guerra às demarcações de terras indígenas e o estimulo à violência. 

Ao longo de 80 segundos, Bolsonaro expõe noções e preconceitos de toda ordem -- inclusive raciais --, devidamente importados e traduzidos para a realidade brasileira. Sua utilidade é justificar a subordinação às prioridades externas, em particular de Washington. 

Falando de um país onde a pobreza é uma realidade a ser vencida, e a falta de oportunidades impede milhões de pessoas de alcançar uma melhor condição de existência, Bolsonaro se apega a um vergonhoso mito colonial -- de que somos um povo com fraquezas morais incorrigíveis -- para explicar nossas dificuldades econômicas e sociais. 

"Eu nunca vi japonês pedir esmola", diz, com a ignorancia feliz de quem jamais se deu ao trabalho de conhecer a grande literatura e o melhor cinema daquele país de cultura maravilhosa. Numa frase onde o sujeito oculto é a visão preconceituosa do brasileiro como um tipo eternamente vocacionado para a preguiça e o comodismo, Bolsonaro diz que o japonês "é um cara que tem vergonha na cara", sugerindo, novamente, que somos um povo sem caráter nem valores. 

Parece absurdo e é. Trata-se, contudo, de  uma visão  coerente com suas fantasias permanentes. No mesmo pronunciamento,  ele se refere ao desembarque de grandes correntes de imigrantes haitianos e africanos ao país para em seguida se referir a ausência dos louros suecos. "Você acha que o da Suécia vai querer vir para esse lixo aqui?" .

O Google informa que os imigrantes suecos gostam de "vir para esse lixo aqui" desde 1890, quando 200 famílias se estabeleceram no Rio Grande do Sul em busca de oportunidades de trabalho e melhores condições de vida,. dando início a uma corrente imigratória que anos depois levaria a formação de uma sociedade de empresários suecos no Rio de Janeiro, além de igrejas em outras cidades. 

Para quem quer conhecer a realidade como ela é, não custa lembrar alguns exemplos. Filho de pai português e mãe sueca, o paulista Manoel Bergstrom Lourenço Filho (1897-1970) foi um educador influente, com uma posição de liderança no movimento Escola Nova, que lutou pela universalização do ensino público, gratuito e laico. Amir Klink é um descendente que dispensa apresentações, bem como a Rainha Sylvia. Filha de um empresário do ramo metalúrgico,  Sylvia viveu dez anos em São Paulo, onde estudou num colégio alemão, Porto Seguro. 

Falar do Brasil como "esse lixo aqui" é o discurso típico de quem quer entregar barato.

Alguma dúvida? 

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