Boulos e Erundina, a chapa inimiga número 1 do bolsonarismo e dos poderosos, em São Paulo. Resposta a Juca Simonard

Dizer que Boulos, Erundina e o PSOL tiveram relações com o golpe é de um absurdo digno de uma produção de ficção científica de mal gosto

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Co-autora: Deborah Cavalcante - Coordenação da pré-campanha Boulos/Erundina

“Bandidos do MST, bandidos do MTST… As ações de vocês serão tipificadas como terrorismo. Vocês não levarão mais o terror ao campo ou a cidade, ou vocês se enquadram e se submetem às leis, ou vão fazer companhia ao Lula em Curitiba.” Essa é uma parte do discurso ofensivo de Jair Bolsonaro contra as esquerdas, por telefone, uma semana antes do segundo turno em um comício na Avenida Paulista.

Três dias depois da vitória de Bolsonaro, a Frente Povo sem Medo convocou um ato chamado “vai ter Resistência” na Av. Paulista. Perante dez mil pessoas, a maioria jovens, Guilherme Boulos fez o seguinte discurso: “… Nós viemos à rua pela democracia, mas também viemos aqui pelos nossos direitos porque não vamos aceitar reforma da previdência que retira aposentadoria do povo, não aceitamos com Michel Temer e não aceitaremos com Jair Bolsonaro. Nós viemos às ruas porque os movimentos sociais são legítimos têm o direito de lutar e não vamos aceitar a criminalização… Nós vamos seguir a nossa luta e nós não vamos desistir dos nossos sonhos…”.

Nesse momento, Boulos e a Frente Povo Sem Medo, com firmeza de ideias e na ação, foram um ponto de apoio concreto para milhares de trabalhadores em um momento de derrota para toda a esquerda. Mas não se trata de um episódio isolado. Essa é a história de Guilherme Boulos, líder de um movimento com mais de 20 anos de luta. 

Quem participou das principais mobilizações nos últimos 7 anos em São Paulo pôde comprovar. Foi assim durante o governo Dilma lutando por verba para a moradia, como nas fortes mobilizações da ocupação “Copa do Povo”, e contra os ajustes fiscais. Foi assim também quando mudou a relação entre forças no Brasil diante do golpe de 2016. Boulos e o MTST levantaram a bandeira da unidade no movimento para marchar contra o golpe, pelo Fora Temer e contra a retirada de direitos. Foi assim na greve geral de 2017. Justamente essa postura corajosa e ávida pela mobilização permanente que projeta o MTST como um alvo específico do discurso neofascista de Jair Bolsonaro.

Por isso, fomos surpreendidos pelo conteúdo do texto publicado por Juca Simonard, no site Brasil 247, intitulado: "Boulos e Erundina, uma chapa da burguesia para conter a polarização — parte 1" e parte 2, com uma promessa de uma segunda parte para os próximos dias.

Somos adeptos da concepção de uma esquerda plural, viva e aberta a polêmicas. Mas do lado de cá da trincheira não vale tudo para defender posições e apresentar diferenças. Repudiamos o uso de fake news, apagamentos seletivos da história, ataques morais, calúnias e derivados. Tais métodos já fizeram mal à esquerda no século XX e não podem ser naturalizados como parte do repertório da esquerda e entre aqueles e aquelas que têm compromisso com a classe trabalhadora.

Juca Simonard se utiliza desse expediente ao levantar a falsa ideia de que a chapa Boulos e Erundina tem ligações com a burguesia paulistana a partir da existência de supostas matérias favoráveis ao PSOL publicadas em veículos da grande imprensa do país. E faz essa acusação sem pudor e sem nenhuma prova que sustente isso a não ser suas “suposições ou convicções”. Assim, sem mais nem menos, altera propositalmente a bússola de classes da realidade para colocar Boulos, Erundina e o PSOL do lado da burguesia. Não satisfeito, o autor do texto promete um novo artigo para provar segundo suas palavras: 

“A primeira parte, sendo esta, mostra inicialmente como é perceptível a defesa da direita da chapa Boulos-Erundina. Em seguida, procurarei demonstrar as ligações dos candidatos do PSOL com a burguesia e o processo golpista; explicar o caráter pequeno-burguês da candidatura; mostrar como ela será usada para favorecer a manobra da burguesia para isolar o PT; e, finalmente, apontar porque a candidatura não favorece em nada a luta contra a direita golpista e o desenvolvimento independente da luta dos trabalhadores." 

Dizer que Boulos, Erundina e o PSOL tiveram relações com o golpe é de um absurdo digno de uma produção de ficção científica de mal gosto. Nessa chapa estão figuras e movimentos que estiveram à frente das ocupações urbanas em São Paulo e região metropolitana que despertam o ódio de todos os poderosos da cidade. Pelo seu papel nas lutas sociais, Boulos passou a sofrer inclusive ameaças de morte. Boulos esteve à frente de todas as principais mobilizações contra o impeachment, Luiza Erundina votou contra o impeachment no parlamento.

No momento que foi decretado a prisão de Lula no dia 5 de abril foi uma coluna de uma ocupação urbana do MTST, na região do ABC, com Boulos a frente que chegou primeiro no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para fazer uma corrente humana e impedir o cumprimento da prisão decretada pelo Juiz Sérgio Moro. Luiza Erundina foi no Sindicato dos metalúrgicos com uma delegação do PSOL e falou no carro de som denunciando a prisão arbitrária

Todos esses fatos são públicos e de conhecimento de Juca Simonard. Ao invés de combater Márcio França e sua aliança histórica com Alckmin e o tucanato, ou de combater a gestão de Bruno Covas ligada a tragédia do Governo Dória ou mesmo ao invés de combater as candidaturas de extrema-direita como a de Joyce (PSL) ou do Mamãe-falei, o autor do texto prefere o caminho de uma campanha de calúnias contra a chapa do PSOL.

Isso é ainda mais grave levando em conta as últimas pesquisas que mostram que, nesse momento, essa é a candidatura de esquerda com mais possibilidades de chegar ao segundo turno.

Essa opção lamentável pela calúnia deve ser combatida por todos os ativistas de esquerda, independente de qual candidato estão mais vinculados nesse momento. 

A candidatura Boulos e Erundina é aliada de quem é assalariado, desempregado, de quem mora nas periferias, de quem vai fazer o breque dos apps no dia 25 de julho, dos negros que mobilizaram lutas durante a pandemia, das mulheres que estiveram no “Ele Não”, das LGBTQI+, de quem luta contra Bolsonaro, Dória e os governos criminosos. Essa é a verdade. 

As diferenças políticas e programáticas entre PSOL, PT e PCdoB não alteram o fato de que a luta pela derrubada do governo Bolsonaro e o neofascismo é a principal tarefa política da esquerda nesse momento. Certamente esse tema e seus reflexos em São Paulo estarão no centro das eleições em 2020. Além disso, a esquerda também tem a tarefa de combater a falsa oposição liberal que tem peso importante no estado de São Paulo com o PSDB e a candidatura de Bruno Covas. Polemizar com Márcio França e os anos de aliança com os tucanos. Guiamos nossa política com essa bússola e seguiremos por esse caminho.

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