Bozo I, Vélez, Moro e Tchuchuca reescrevem a nova história de 1964

Tragédia em um ato: Palácio do Planalto, nove e meia da manhã, o rei Bozo I ajeita sua mesa de trabalho

Bozo I, Vélez, Moro e Tchuchuca reescrevem a nova história de 1964
Bozo I, Vélez, Moro e Tchuchuca reescrevem a nova história de 1964 (Foto: Marcos Corrêa/PR)

Tragédia em um ato
Palácio do Planalto, nove e meia da manhã. O rei Bozo I ajeita sua mesa de trabalho. Sobre o tampo repousa uma fruteira cheia de laranjas e um almanaque do Recruta Zero. Veste apenas uma cueca samba-canção e uma touca com pompom. Entra na sala o ministro Vélez Rodriguez enxugando a testa com um lenço. Traz três pastas volumosas debaixo do braço.
Vélez - Lo que passa, señor presidente es que estoy muy preocupado con los nuevos libros didáticos donde vamos informar que 64 no fué 64...
Bozo I – Não fala em colombiano, River. Fala em brasileiro do jeito que até um general pode entender, cacete!
Vélez – Lo que quiero decir...
Bozo I – Carai, esse troço aqui é uma zorra mesmo. Ô, Vélez, vocês ficam falando em Racing, Boca e Never Oldi Bóis nessa língua que ninguém entende...
Vélez (esforçando-se) – É que tem coisa que ainda não consegui explicar nos libros nuevos sobre la dictadu... el Movimiento de 64...
Bozo I – Tipo o quê, San Lorenzo?
Vélez – O pau-de-arara. Como vamos explicar o pau-de-arara?
Bozo I- Pilates.
Vélez – Perdón, jefe...
Bozo I – Pilates. Naquela época, os militares estavam muito preocupados com a saúde dos presos. Aquela coisa de só ficar comendo e bebendo do bom e dos melhor nas nossas masmorras, engordando, aumentando o colesterol. Como é que se diz?
Vélez - Sedentarismo.
Bozo I – Isso, sedimentarismo. Vagabundagem, no popular. Então nossa turma pendurava os caras pra fazer exercício de alongamento. Solidariedade, sabe? Aí , uns mal-agradecidos inventaram que era tortura. E tem gente que acredita!
Vélez – Mas penduravam os caras e davam choque...
Bozo I – Pilates energizante. Invenção da gente. Já era a modernidade chegando. Alguns músculos dos presos estavam entorpecidos e precisavam receber descargas elétricas de corrente contínua para se soltarem. Uma maravilha. Depois, alguns deles até diziam "Nunca me senti tão bem, seu carrasco".
Vélez (emocionado) – Fenómeno! Podemos usar isso en los libros.
Bozo I -- Use, River. Acha um desses presos beneficiados pelo pilates do porão e pega o depoimento dele. Se ele não quiser falar, pendura no pau-de-arara que ele conta tudo.
Vélez – Mas tem a tal cadeira com um buraco no assento onde os documentos do cidadão ficavam expostos e dependurados e tomando choque, a cadeira do dragón...
Bozo I – Outra ação humanitária e mal compreendida, Racing. Alguns presos estavam com medo de sair dali e não funcionar mais. Sabe como é, dar no couro, dá-le nel cuero. Então agitamos o projeto PPP...
Vélez – Si, la Parceria Público Privada...
Bozo I – Não, Projeto Pró-Penetração. A gente fazia ciência. O pessoal tinha lá um livro daquele doutor alemão, o Mengele, gente fina pra carai. E o Mengele dizia que choque nos bombons e no pirulito era um santo remédio pra broxura. Depois, o Ustra me contou que um dos presos dele até mandou uma carta de agradecimento dizendo que tava dando quatro sem tirar.
Vélez – Increíble! Mas e quando arrancavam os dentes do sujeito?
Bozo I – Odontologia preventiva. Dente é um negócio que só dá incomodação, ainda mais com os presos fazendo festa todo dia depois do pilates, tomando champanhe e comendo bolo e deixando o glacê detonar a dentadura.
Vélez – E o afogamento, enfiar a cabeça duma persona num tonel cheio d'água...
Bozo I - Esta é a explicação mais fácil. Você sabe que todo comuna é sujo, né? Fica aquela catinga, uns curtindo o sovaco dos outros. Mas tinha cara que, além de esquerdopata, andava com uma camaçada de piolho. Então, a gente enfiava a cabeça deles naqueles tonéis com criolina. Depois, uns gostavam tanto que faziam fila pro afogamento. E tinha até briga pra ver quem ia primeiro.
Vélez - (remexendo nas pastas) Bueníssimo, mas tem mucho más cosas pra acertar, jefe...Como a questão da censura...Não era só política, cortavam cenas mais fortes de amor...
Bozo I – E você queria o que, Boca? Espiar? Deus acima de tudo e família atrás da porta! Será que vou ter que chamar o Frota pra te explicar isso daí?
Vélez – Não, pero...
Bozo I – Nem pero, nem pêra. Moro, vem cá!
(Despercebido, Moro estava afundado num dos sofás king size da sala, decifrando um Cruzadex Fácil)
Moro – Às ordens, chefe!
Bozo I – Explica aí pro Independiente, a coisa da defesa da família, ameaçada pelos tentáculos da hidra comunista.
Moro - Se a cena de amor era de um conje com sua conja , casados no civil no religioso, tudo bem porque a moral e os bons costumes não estavam em risco.
Vélez – Mas às vezes não dá pra saber se os dois eram casados. O roteiro não trazia evidências, provas...
Moro – Não precisa, basta convicção.
Bozo I – Não falei? Nem precisou buscar o Frota! Êta, cabra bão! Tá dispensado, Moro.
(Moro diz "Sim Senhor!", bate continência, gira nos calcanhares e volta pro Cruzadex)
Vélez – Tem também a coisa da economia...
Bozo I – Economia? Chama o Tchuchuca!
(Entra Paulo Guedes, abanado com grandes leques de plumas pelos colunistas dos jornais e sob chuva de confetes e serpentinas, seguido pela charanga da Fiesp)
Vélez – A questão da economia é que vamos ter que explicar como a ditad.. quero dizer a revolução chegou para acabar com a inflação mas acabou pegando uma inflação de 80% ao ano e entregou o país com 230% ao ano...
Tchuchuca – (para Vélez ) Não me provoca, seu moleque! Não me provoca. Inflação é a sua mãe, é a sua vó, é a put...
Bozo I – Levem o Tchuchuca embora. Mas antes apliquem o Rivotril que ele esqueceu. (Suspirando) Afe, é todo o dia assim. Carai, isso aqui é mesmo um tremendo abacaxi. É ou não é, Lanús?
Vélez – Un tremendo ananas...
Bozo I - Que negócio é esse de naná? Não tô te conhecendo, Banfield. Qué naná comigo? Sai pra lá! Ainda mais de manhã, hora tão inconveniente...

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