“Brasil acima de tudo”: quando o patriotismo pede socorro a Washington
Nacionalismo de fachada cede lugar à submissão explícita ao imperialismo quando o projeto autoritário é derrotado internamente
Durante anos, o bolsonarismo se apresentou ao país envolto na retórica ruidosa do “Brasil acima de tudo”. Bandeiras, slogans nacionalistas e apelos emocionais foram mobilizados para construir a imagem de um movimento supostamente defensor da pátria, da soberania nacional e dos interesses do povo brasileiro. No entanto, não é o blá-blá-blá que revela a essência de um fenômeno político, mas a prática concreta e os interesses de classe que ele serve. E, nesse terreno, o bolsonarismo se revela como aquilo que sempre foi: uma força profundamente antinacional, submissa ao imperialismo e disposta a sacrificar a soberania do país em nome da manutenção de seus privilégios.
O que se vê hoje escancara essa contradição de forma ainda mais grotesca. Setores expressivos do bolsonarismo passaram a defender abertamente que os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, intervenham nos assuntos internos do Brasil. Não se trata mais de alinhamento ideológico ou diplomático, mas de um verdadeiro clamor por sanções econômicas, boicotes comerciais, pressões políticas e até interferência direta no processo eleitoral brasileiro. Em outras palavras, aqueles que se diziam patriotas agora pedem, sem pudor, que uma potência estrangeira use seus mecanismos de coerção contra o próprio país. Canalhas!
Essa postura não é um acidente nem uma incoerência pontual. Ela expressa o caráter histórico das classes dominantes em países dependentes como o Brasil. Desde a formação do capitalismo periférico, amplos setores da burguesia nacional optaram por uma posição subalterna no sistema imperialista mundial, abrindo mão de qualquer projeto nacional e soberano de desenvolvimento em troca de associação dependente com o capital estrangeiro. O bolsonarismo é herdeiro direto dessa tradição, que se mostra autoritária com o povo, violenta com os trabalhadores, mas dócil e servil diante do imperialismo.
Essa submissão ficou evidente durante todo o governo Bolsonaro. Sob o pretexto de combater o tal do “globalismo”, o país foi empurrado para um alinhamento automático e acrítico aos Estados Unidos. O Brasil abriu mão de qualquer política externa minimamente independente, sabotou os mecanismos de integração latino-americana, hostilizou parceiros estratégicos do Sul Global e reduziu sua inserção internacional à condição de fornecedor de commodities agrícolas e minerais. O discurso ideológico escondia uma realidade simples: a aceitação passiva do lugar subordinado reservado ao país na divisão internacional do trabalho.
A entrega da Base de Alcântara é um exemplo emblemático dessa política antinacional. Vendida como cooperação tecnológica, a operação significou, na prática, a cessão de um território estratégico a interesses estrangeiros, sem garantias reais de transferência de tecnologia ou desenvolvimento científico nacional. O mesmo pode ser dito sobre o desmonte da Petrobras, da política de conteúdo local, da engenharia pesada e do parque industrial construído ao longo de décadas. Tudo isso foi feito em nome de um suposto liberalismo econômico que, na realidade, serviu para facilitar a apropriação de riquezas nacionais pelo capital internacional.
Outro caso exemplar foi a defesa incondicional da Operação Lava Jato, mesmo após virem à tona provas abundantes de cooperação ilegal entre procuradores brasileiros e órgãos do Estado norte-americano, como o Departamento de Justiça e o FBI. A Lava Jato destruiu empresas estratégicas, provocou desemprego em massa e abriu caminho para a venda de ativos nacionais a preço vil. Ainda assim, foi celebrada como cruzada moral quando, na verdade, funcionou como instrumento de guerra híbrida contra a soberania econômica do país. Sérgio Moro, ícone desta quadrilha, foi nomeado ministro da Justiça por Bolsonaro.
Hoje, essa lógica atinge um novo patamar. Incapaz de obter apoio popular majoritário e derrotado no terreno institucional, o bolsonarismo passa a flertar abertamente com a ideia de tutela estrangeira. Ao pedir sanções, boicotes e interferências externas, abandona qualquer verniz patriótico e assume sua verdadeira face: a de força política que prefere ver o Brasil punido e enfraquecido a aceitar a derrota de seu projeto autoritário. Trata-se de uma postura que, em termos históricos, sempre foi associada às elites coloniais e às oligarquias dependentes.
Lênin já advertia que, na época do imperialismo, a burguesia dos países atrasados tende a se comportar como aliada menor das potências centrais, funcionando como correia de transmissão de seus interesses. O bolsonarismo se encaixa perfeitamente nessa definição. Seu nacionalismo é puramente retórico e, na prática, se ajoelha diante do imperialismo e lambe a sola de suas botas.
Desmascarar essa contradição é tarefa central das forças progressistas e populares. Defender o Brasil exige muito mais do que slogans. “Brasil acima de tudo” exige enfrentar a dependência estrutural, fortalecer a autodeterminação nacional e colocar os interesses da classe trabalhadora acima dos interesses do capital estrangeiro e de seus agentes internos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
