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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Brasil amplia autonomia ao acessar capital chinês

Diversificação financeira ganha força na política econômica brasileira com acesso ao mercado chinês, sinalizando planejamento e visão de longo prazo

Durigan fechou acordo para a emissão e Panda Bonds (Foto: Brasil 247 / Dall-E)
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Há notícias que faço questão de ler duas ou três vezes antes de escrever. Aprendi, depois de décadas acompanhando economia e relações internacionais, que algumas decisões aparentemente técnicas acabam revelando mudanças muito mais profundas do que deixam transparecer na primeira leitura. Foi exatamente essa impressão que tive ao conhecer a intenção do governo brasileiro de emitir, pela primeira vez, títulos soberanos em yuan no mercado doméstico chinês. Quem enxergar apenas uma operação financeira estará olhando para a árvore e ignorando a floresta.

Durante muito tempo, acostumei-me a ver o Brasil recorrer quase sempre aos mesmos caminhos quando precisava dialogar com o mercado internacional de capitais. Nova York ocupava posição central. Londres aparecia logo depois. Em alguns momentos, Frankfurt ampliava esse circuito. Era como se o mapa financeiro mundial tivesse poucos endereços realmente relevantes. A realidade de hoje é outra. A economia global tornou-se mais distribuída, a Ásia consolidou-se como centro de produção, investimento e inovação, e a China deixou de ser apenas a grande fábrica do planeta para transformar-se também em uma das maiores fontes de crédito e liquidez internacionais. Ignorar essa transformação seria interpretar o presente com categorias do passado.

É por isso que considero tão importante a decisão brasileira. O Tesouro Nacional prepara uma emissão de até 5 bilhões de yuans, cerca de US$ 735 milhões, por meio dos chamados Panda Bonds, títulos colocados diretamente no mercado financeiro chinês. Em termos fiscais, a operação pouco altera o perfil da dívida pública brasileira, medida em trilhões de reais. Seu alcance, porém, vai muito além do valor captado. Pela primeira vez, o Estado brasileiro convida investidores chineses a participarem diretamente do financiamento de sua dívida soberana. Isso altera a natureza da relação entre os dois países. Até agora, a China era principalmente nossa maior compradora de produtos. Passa, gradualmente, a tornar-se também financiadora do Estado brasileiro.

Não interpreto esse movimento como simples diversificação cambial. Vejo nele uma mudança estratégica de posicionamento internacional. Em abril deste ano, o Brasil voltou ao mercado europeu depois de mais de uma década sem emissões naquele ambiente, captando 5 bilhões de euros. A procura superou 16 bilhões de euros, demonstrando forte confiança dos investidores internacionais na economia brasileira. Agora surge uma terceira avenida financeira. O país deixa de depender exclusivamente dos mercados tradicionais para construir uma presença também no maior mercado de capitais da Ásia. Essa sequência não parece casual. Ela revela planejamento.

Sempre desconfiei da ideia de que autonomia nacional se constrói apenas com discursos diplomáticos. Países fortalecem sua soberania quando ampliam suas possibilidades de escolha. Quem depende de uma única moeda, de um único mercado financeiro ou de um único centro de crédito aceita, consciente ou inconscientemente, viver sob limitações que não controla. Diversificar não significa romper relações com parceiros históricos. Significa reduzir vulnerabilidades. É exatamente isso que as grandes economias procuram fazer quando o cenário internacional se torna mais imprevisível.

Os números ajudam a compreender essa decisão. Desde 2009, a China ocupa a posição de maior parceiro comercial do Brasil. Em 2025, o intercâmbio entre os dois países ultrapassou US$ 170 bilhões, respondendo por mais de um quarto de todo o comércio exterior brasileiro. Nenhum outro parceiro possui hoje essa dimensão econômica nas relações com o Brasil. Continuar concentrando nossas fontes de financiamento apenas nos mercados ocidentais, enquanto a maior relação comercial brasileira se fortalece na Ásia, passou a representar uma assimetria difícil de justificar.

Também não estamos diante de uma experiência isolada. Portugal abriu esse caminho em 2019, tornando-se o primeiro integrante da zona do euro a emitir títulos soberanos em yuan. A Hungria aprofundou essa estratégia e lançou uma emissão de 5 bilhões de yuans em 2025. O Egito captou 3,5 bilhões de yuans em 2023. A Eslovênia realizou uma emissão de 4 bilhões de yuans neste ano. O Cazaquistão estreou recentemente nesse mercado com 3,4 bilhões de yuans, registrando demanda muito superior à oferta. O Paquistão também prepara sua entrada. Cada país possui motivações distintas, mas todos chegaram à mesma conclusão: ampliar as alternativas de financiamento fortalece a posição internacional do Estado.

O caso brasileiro, contudo, possui uma característica própria. Diferentemente de alguns desses países, o Brasil não enfrenta sanções econômicas, não perdeu acesso aos mercados em dólar nem necessita recorrer ao yuan por falta de opções. Está fazendo uma escolha, não respondendo a uma emergência. Essa diferença muda completamente a leitura geopolítica da operação. Não se trata de procurar uma saída. Trata-se de construir novas possibilidades antes que elas se tornem indispensáveis.

Outro aspecto merece atenção. Empresas brasileiras como Vale e WEG já demonstraram interesse em acessar o mercado financeiro chinês. Para grupos que produzem, investem e vendem intensamente naquele país, captar recursos em yuan reduz riscos cambiais e aproxima receitas das obrigações financeiras. A emissão soberana do Tesouro cria uma referência importante para futuras operações privadas, funcionando como porta de entrada para um relacionamento financeiro muito mais amplo entre as duas economias.

Vejo um erro recorrente em parte do debate brasileiro. Ainda insistimos em interpretar qualquer aproximação com a China como se representasse, automaticamente, um afastamento dos Estados Unidos. Essa lógica talvez tenha feito sentido durante a Guerra Fria. Hoje ela empobrece a análise. As grandes potências defendem seus interesses nacionais com clareza. A China faz isso. Os Estados Unidos também. A União Europeia, igualmente. Não encontro razão para que o Brasil seja o único país chamado a justificar permanentemente suas escolhas estratégicas.

Ao observar essa emissão em yuan, não penso em substituição de moedas nem em disputas ideológicas. Penso em autonomia. Penso na capacidade de um país negociar simultaneamente com diferentes centros financeiros, diferentes investidores e diferentes moedas, preservando maior liberdade para tomar decisões. Essa me parece ser a verdadeira novidade.

Continuo convencido de que o futuro pertencerá às nações capazes de ampliar suas opções, e não às que permanecerem presas às estruturas que organizaram a economia mundial durante tantas décadas. O Brasil possui alimentos, energia, água, biodiversidade, capacidade industrial e um mercado interno entre os maiores do planeta. Não há razão para comportar-se como economia periférica quando pode atuar como protagonista. A emissão soberana em yuan não muda, sozinha, a posição brasileira no mundo. Mas sinaliza que começamos, finalmente, a compreender que independência econômica não nasce de discursos. Nasce da coragem de construir alternativas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.