Brasil, de país do carnaval a país do absurdo

"Ninguém se escandaliza sequer com um desfile de tanques e blindados militares na Esplanada dos Ministérios para – pasmem – entregar um convite ao Presidente", escreve o jornalista Ribamar Fonseca

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(Foto: Pedro França/Agência Senado)


Por Ribamar Fonseca 

No governo Bolsonaro o Brasil virou  o país do absurdo. Ninguém mais se surpreende com nenhum fato surreal, estranho ou inusitado como, por exemplo, os palavrões do Presidente da República, suas agressões às outras instituições, seus ataques   à imprensa, suas mentiras, seus desfiles de moto fantasiado de motoqueiro, etc, como se tudo isso fosse normal. Ninguém se escandaliza sequer com um desfile de tanques e blindados militares na Esplanada dos Ministérios para – pasmem – entregar um convite ao Presidente. Nem o ditador Kim Jong Un, da Coreia do Norte, faria melhor. Será que eles pensam que o povo brasileiro é abestado para acreditar nessa história só porque elegeu Bolsonaro Presidente? Se a moda pega, dentro em breve a Aeronáutica poderá fazer um razante  de caças em Brasilia, com um pouso espetacular na Esplanada dos Ministérios, também para entregar algum outro convite ao capitão. E ninguém, obviamente, se espantará.  

Na verdade, embora o deputado Arthur Lira tenha interpretado o fato como uma “trágica coincidência”, todo mundo sabe que o inusitado aparato militar teve o objetivo de intimidar o Congresso e a Suprema Corte, no dia da votação da PEC do voto impresso, uma encenação que, no entanto, produziu um efeito contrário ao imaginado por Bolsonaro, pois a proposta foi rejeitada. Ninguém conseguiu entender até agora como os militares se prestaram a semelhante papel para satisfazer um capricho do antigo capitão, que quer que todos acreditem que ele tem o apoio das Forças Armadas. Um general da reserva classificou o fato como um ato de “subserviência”  de uma instituição que, até antes do governo Bolsonaro, era a mais bem avaliada pela população. O desfile, por sua motivação,  deve ter sido motivo de risos no resto do planeta. O convite da Marinha, que pela lógica deveria ter sido feito em meio a um desfile de navios de guerra no Lago Paranoá,  foi recebido por um Presidente empertigado, cercado de comandantes militares e ministros de Estado, como se fora um grande acontecimento.  

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O fato é que o inusitado espetáculo em nada alterou  a disposição dos deputados em rejeitar o voto impresso e muito menos a disposição do Supremo Tribunal Federal  em processar o Presidente.  Bolsonaro vai continuar fazendo ameaças,  insultando ministros dos tribunais superiores e inundando as redes sociais de fakes, desesperado diante dos sinais indicadores de que dentro em breve será expelido do Planalto. Nem mesmo a criação de uma nova Bolsa Familia conseguirá evitar a sua queda. Ninguém mais aguenta um Presidente aloprado eleito e sustentado por mentiras, que isolou o Brasil do resto do mundo e não se mostra preocupado com o avanço da fome, que tem levado o povo a fazer fila para comer ôsso. E que se sente realizado desfilando de moto sob os aplausos de apoiadores. De nada serviram os 28 anos que passou na Câmara dos Deputados, pois não aprendeu nada sobre o país e seu povo.

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Constata-se que após o duro discurso do ministro Luiz Fux, em uma surpreendente  reação às agressões de Bolsonaro, surgiram veementes  manifestações em vários setores de atividades da vida nacional contra os ataques do Presidente da República a ministros da Suprema Corte e as ameaças à democracia. Ex-presidentes, entidades de classe dos magistrados, empresários  de peso e procuradores, entre outros, além dos jornalões Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, condenaram o comportamento do capitão e defenderam o seu afastamento do Planalto. Afora seus fanáticos seguidores e o pessoal do Centrão, ele ficou praticamente isolado, o que sinaliza para a sua próxima destituição, já que não conta também com o apoio dos militares. Na verdade, se ele realmente tivesse o apoio das Forças Armadas, como sugere com frequência em suas bravatas, há muito já teria dado o golpe e fechado os tribunais superiores, que ele hoje considera seus inimigos.

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Tudo leva a crer que  a queda dele se dará por meio do Judiciário, pois se depender de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, Bolsonaro se perpetuará no Palácio do Planalto, pois o parlamentar não pretende abrir nenhum processo de impeachment, ignorando os mais de 100 pedidos que dormem em sua gaveta. Ao contrário, Lira parece empenhado em facilitar a permanência do capitão no poder e, por isso, mandou a PEC  do voto impresso para o plenário da Casa  mesmo rejeitado pela comissão especial nomeada por ele para apreciá-la. Provavelmente tinha esperanças de que a proposta pudesse ser aprovada pelos deputados mas aconteceu justamente o contrário: a PEC foi mais uma vez rejeitada e arquivada, uma vergonhosa derrota para o capitão. Agora, pergunta-se: se a comissão especial não tinha poder de decisão, por que Lira não enviou a proposta direto para o plenário, evitando desmoralizar a própria instituição que preside? Com essa atitude ele, na verdade, quis agradar o chefe.   

O fato é que ninguém espera mais uma atitude democrática de Artur Lira que, obediente a Bolsonaro, não teve coragem sequer de, como presidente do poder legislativo e terceiro na  linha sucessória, manifestar-se contra as ameaças do Presidente da República à democracia. A nota que ele soltou após o ministro Fux ter cancelado a reunião com os  chefes dos poderes, como reação  às agressões à suprema Corte, foi confusa e enigmática, falando até num tal botão amarelo que ninguém sabe de onde é mas serviu para interpretações ao sabor de cada um. Na realidade, a nota foi um primor de acrobacia linguística, que evidenciou a preocupação de Lira em não desagradar nem Bolsonaro nem a Suprema Corte. E ainda teve o cinismo de dizer que a Câmara reverbera a vontade popular: se isso fosse verdade a Casa não teria aprovado a privatização dos Correios.

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Outro que também tentou enganar todo mundo após um encontro com o presidente do STF, o procurador geral Augusto Aras, cobrado por sua omissão em relação às loucuras de Bolsonaro, também soltou uma nota com pura enrolação. Assim como Lira, também  preocupado em não desagradar o capitão e o Supremo, divulgou uma nota curta em que não disse absolutamente nada, escolhendo bem as palavras para não se comprometer. Embora seja sua função abrir processo para apurar  os crimes praticados pelo Presidente da República, até antes do encontro com Fux nunca moveu um músculo para conter as insanidades de Bolsonaro, ignorando as suas agressões a ministros do STF e suas ameaças à democracia. E ninguém acredita que mudará seu comportamento, pois tem se revelado um fiel escudeiro  do Presidente, que propôs a sua recondução ao cargo e prometeu-lhe a próxima vaga do Supremo, após André Mendonça. Portanto, é fácil concluir que se depender de Lira e Aras, Bolsonaro nunca deixará o Planalto. Ainda bem que eles não são os únicos a ter esse poder.   

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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