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Reynaldo José Aragon Gonçalves

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global. Editor do site codigoaberto.net

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Brasil entra na disputa pela governança global da internet

Ao defender uma nova governança global da internet e da inteligência artificial, Lula reposiciona o Brasil no centro de uma disputa estratégica

Lula (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Ao defender publicamente a construção de uma nova arquitetura global para a governança da internet e da inteligência artificial, o presidente Lula sinaliza uma inflexão estratégica na política internacional brasileira. Em um cenário dominado por gigantes como Google, Meta, Amazon e Microsoft, e marcado pela concentração de dados, infraestrutura e poder algorítmico, o gesto coloca o Brasil no centro de uma disputa decisiva: quem controla as tecnologias que organizam a economia, a política e a própria realidade. Mais do que diplomacia, trata-se de soberania, desenvolvimento e futuro para o Sul Global.

A nova fronteira do poder

A internet deixou de ser um meio de comunicação. Ela se tornou a principal infraestrutura de poder do século XXI. É por meio dela que circulam dados, se organizam cadeias produtivas, se estruturam mercados, se coordenam sistemas logísticos, se moldam comportamentos e se disputam narrativas. Quem controla essa infraestrutura não apenas opera serviços digitais. Define as condições sob as quais economias funcionam, sociedades se informam e decisões são tomadas.

Diferente das infraestruturas clássicas, como energia ou transporte, a internet atua em uma camada mais profunda e decisiva. Ela não apenas conecta, ela organiza a forma como o mundo é percebido, interpretado e vivido. Plataformas digitais determinam o que ganha visibilidade, algoritmos estabelecem prioridades, sistemas de recomendação orientam escolhas. O que parece fluxo espontâneo é, na prática, resultado de estruturas técnicas que operam segundo critérios definidos por poucos atores.

Nesse ambiente, a ideia de neutralidade tecnológica não se sustenta. A internet é uma arquitetura organizada por interesses econômicos, decisões técnicas e disputas geopolíticas. Cada ajuste de algoritmo, cada mudança de política de plataforma, cada decisão sobre infraestrutura produz efeitos concretos sobre mercados, comportamento e opinião pública. O poder não está apenas no conteúdo que circula, mas na estrutura que define o que pode circular.

É nesse ponto que se estabelece a nova fronteira das disputas globais. Não se trata mais apenas de território físico ou recursos naturais, mas do controle sobre dados, algoritmos e infraestrutura digital. No século XXI, o centro do conflito não está apenas na produção de bens, mas na capacidade de organizar a realidade. Quem governa essa infraestrutura não apenas participa do mundo. Define como ele funciona.

O gesto de Lula: precisão e reposicionamento

Ao defender publicamente a construção de uma nova governança global para a inteligência artificial e para a internet, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva intervém em um dos campos mais decisivos da disputa contemporânea. A declaração ocorre em um ambiente internacional marcado pela crescente concentração de poder nas grandes plataformas digitais e pela ausência de mecanismos efetivos de regulação global dessas tecnologias. Ao destacar a necessidade de estruturas multilaterais e mencionar iniciativas internacionais voltadas à cooperação em inteligência artificial, com participação relevante da China, Lula não formaliza adesões, mas assume um posicionamento político claro em favor da reorganização desse sistema.

O gesto não é retórico nem circunstancial. Ele insere o Brasil em uma disputa onde as regras ainda estão em formação e onde o vazio regulatório tem beneficiado atores específicos, sobretudo grandes empresas de tecnologia sediadas no Norte Global. Ao defender a centralidade de instâncias multilaterais e a inclusão dos países em desenvolvimento na definição dessas regras, o Brasil sinaliza que não pretende apenas se adaptar ao sistema existente, mas participar da sua redefinição.

Há aqui uma inflexão relevante. Em vez de tratar a tecnologia como um campo neutro ou meramente técnico, o posicionamento reconhece que a inteligência artificial e a internet são hoje estruturas centrais de poder. Ao fazer isso, o país desloca o debate para o terreno onde ele efetivamente ocorre: o da disputa por controle, por capacidade de decisão e por influência sobre os rumos da economia e da política global.

Em um cenário de intensificação das tensões geopolíticas e tecnológicas, esse movimento não é trivial. Ele indica que o Brasil compreende a natureza do conflito em curso e que pretende atuar não como espectador, mas como agente na definição das regras que irão organizar o ambiente digital nas próximas décadas.

Quem governa a internet hoje

A governança real da internet não está nas instituições multilaterais nem em estruturas públicas globais. Ela é exercida, na prática, por um conjunto reduzido de grandes empresas de tecnologia que controlam as camadas centrais da infraestrutura digital. Google, Meta, Amazon e Microsoft não apenas operam serviços amplamente utilizados. Elas estruturam os sistemas que organizam a circulação de informação, a operação de mercados e o funcionamento de parte significativa da economia global.

Esse poder se sustenta sobre o controle de infraestrutura crítica. Serviços de computação em nuvem como Amazon Web Services e Microsoft Azure hospedam dados, operam sistemas e sustentam aplicações utilizadas por governos, bancos, empresas e plataformas digitais em escala global. Quando instituições públicas dependem dessas infraestruturas para funcionar, a fronteira entre serviço privado e função estratégica se torna difusa. O que está em jogo deixa de ser apenas tecnologia e passa a envolver capacidade de operação do próprio Estado.

Ao mesmo tempo, essas empresas controlam fluxos massivos de dados, que se tornaram o principal recurso da economia contemporânea. Cada interação digital produz informações que são capturadas, processadas e convertidas em valor por meio de sistemas algorítmicos. Esses sistemas não apenas organizam o consumo. Eles influenciam decisões, moldam comportamentos e estruturam a forma como indivíduos e instituições se relacionam com o mundo.

O resultado é uma concentração de poder sem precedentes históricos. Poucas corporações operam como intermediárias quase universais das relações sociais, econômicas e informacionais. Nesse arranjo, a governança da internet deixa de ser definida por normas públicas amplamente negociadas e passa a ser exercida por decisões privadas, tomadas em ambientes corporativos e orientadas por interesses que não coincidem necessariamente com os das sociedades onde esses sistemas operam.

Como o sistema opera: extração e dependência

Esse arranjo funciona a partir de uma lógica estruturada de extração e concentração. Dados são produzidos de forma massiva por indivíduos, trabalhadores, empresas e instituições em todo o mundo, mas o processamento, a monetização e a captura de valor permanecem concentrados em poucas empresas sediadas no Norte Global. Cada busca, cada interação em rede social, cada deslocamento mediado por aplicativo gera informações que são apropriadas, analisadas e transformadas em valor econômico por essas plataformas.

O que se estabelece é uma nova divisão internacional do trabalho. Países do Sul Global participam intensamente da geração de dados e do consumo de serviços digitais, mas permanecem marginalizados nas etapas de maior valor agregado, como o desenvolvimento tecnológico, o controle da infraestrutura e a exploração econômica desses dados. A dinâmica reproduz, sob novas formas, estruturas históricas de dependência, nas quais a periferia fornece recursos e o centro concentra riqueza, tecnologia e poder.

A economia da atenção aprofunda esse modelo. Plataformas são projetadas para maximizar o tempo de permanência dos usuários, utilizando sistemas de recomendação que operam sobre padrões comportamentais e cognitivos. Esse desenho não apenas amplia a captura de dados, mas organiza o fluxo de informação de forma a manter engajamento contínuo, influenciando hábitos de consumo, padrões culturais e posicionamentos políticos.

No campo do trabalho, a mesma lógica se manifesta na forma de controle algorítmico. Trabalhadores de aplicativos operam sob sistemas que definem remuneração, ritmo e condições de trabalho com base em critérios opacos. A gestão deixa de ser visível e negociável e passa a ser automatizada e assimétrica. A infraestrutura digital, que organiza mercados e comunicação, passa também a estruturar relações de trabalho marcadas por maior controle e menor autonomia, reforçando uma arquitetura global de extração e dependência.

A proposta em disputa: nova governança global

Diante dessa concentração de poder e dessas assimetrias estruturais, emerge no debate internacional a necessidade de construir uma nova arquitetura de governança para a internet e para a inteligência artificial. O ponto central dessa proposta não é técnico, mas político. Trata-se de redefinir quem estabelece as regras, quais interesses orientam essas regras e como o poder é distribuído no ambiente digital. Iniciativas recentes, defendidas por países do Sul Global e articuladas também a partir de propostas apresentadas pela China em fóruns internacionais, buscam deslocar o centro de decisão hoje concentrado em atores privados para estruturas mais amplas, com participação estatal e coordenação multilateral.

Um dos eixos dessa agenda é o reconhecimento de que dados, infraestrutura e sistemas algorítmicos possuem caráter estratégico. Isso implica que não podem permanecer sob uma governança predominantemente privada, orientada por interesses corporativos e concentrada em poucos países. A defesa de instâncias multilaterais, com protagonismo de organismos como a ONU, aponta para a construção de um espaço onde países em desenvolvimento possam participar de forma efetiva da definição das normas que irão regular esse ambiente.

Outro elemento central é a soberania digital. Estados passam a reivindicar a capacidade de regular o uso de dados, proteger suas infraestruturas críticas e estabelecer diretrizes para o funcionamento de plataformas em seus territórios. Ao mesmo tempo, há a preocupação de evitar uma fragmentação completa da internet, o que exigiria mecanismos de cooperação internacional capazes de garantir algum nível de interoperabilidade e coordenação global.

O que está em disputa, portanto, não é apenas a regulação de tecnologias emergentes. É a reorganização de um sistema que hoje combina baixa transparência, alta concentração de poder e forte dependência estrutural. A proposta de uma nova governança global representa a tentativa de deslocar a internet de um espaço dominado por decisões privadas para um campo regulado por princípios políticos mais amplos, onde soberania, desenvolvimento e equilíbrio entre países passem a ter peso real.

A nova arquitetura de poder: Big Techs como “State Companies”

Para compreender a profundidade dessa disputa, é necessário reconhecer que as grandes empresas de tecnologia já ultrapassaram o papel tradicional de agentes econômicos. Elas passaram a operar como estruturas híbridas, que combinam lógica privada com funções típicas de poder estatal. Controlam infraestrutura crítica, organizam fluxos de informação, definem regras de funcionamento de ambientes digitais e influenciam diretamente processos políticos e econômicos em escala global.

Serviços como Amazon Web Services e Microsoft Azure sustentam sistemas utilizados por governos, bancos, hospitais e empresas em todo o mundo. Mecanismos de busca como o Google definem o acesso à informação e a ordem em que ela é apresentada. Plataformas como as da Meta estabelecem critérios de visibilidade que impactam o debate público e a circulação de narrativas. Em todos esses casos, decisões corporativas produzem efeitos estruturais que, em outros momentos históricos, estariam sob responsabilidade direta de Estados.

Esse conjunto de funções permite compreender essas empresas como algo mais do que corporações privadas. Elas operam como verdadeiras “State Companies”. Não são Estados formais, mas exercem poder com características estatais, com capacidade de influenciar economias, regular fluxos informacionais e afetar diretamente a organização da vida social. Em muitos casos, sua atuação se articula, de forma direta ou indireta, com interesses geopolíticos mais amplos, o que amplia ainda mais seu alcance.

O resultado é uma reconfiguração da arquitetura global de poder. A governança da internet deixa de ser um campo exclusivamente técnico ou econômico e se afirma como um espaço de disputa política entre Estados, corporações e blocos geopolíticos. Nesse ambiente, a ausência de regulação pública não produz neutralidade. Produz a consolidação de atores privados com capacidade de atuação quase soberana, capazes de definir regras que afetam bilhões de pessoas sem mediação democrática equivalente.

A disputa central: quem controla a realidade

A partir desse ponto, a questão deixa de ser apenas tecnológica ou regulatória e se revela em sua dimensão mais profunda. O que está em disputa não é apenas o controle da internet, mas o controle sobre a própria produção da realidade social. Em um mundo onde a maior parte das interações humanas é mediada por sistemas digitais, quem organiza fluxos de informação, define critérios de visibilidade e estrutura sistemas algorítmicos passa a influenciar diretamente como o mundo é percebido.

Plataformas digitais não apenas distribuem conteúdo. Elas hierarquizam o que é relevante, amplificam determinadas narrativas e reduzem a visibilidade de outras. Algoritmos não apenas processam dados. Eles operam como dispositivos de modulação comportamental, orientando escolhas e decisões a partir de padrões previamente identificados. Sistemas de recomendação não apenas sugerem conteúdos. Eles organizam o ambiente informacional de forma a conduzir trajetórias de consumo, opinião e engajamento.

O resultado é a constituição de uma camada estrutural que intermedeia a relação entre indivíduos e realidade. Essa camada não é neutra nem transparente. Ela é projetada, ajustada e operada por atores específicos, com objetivos definidos. Nesse sentido, a realidade social passa a ser, em parte, produzida por sistemas técnicos que determinam o que é visível, o que circula e o que permanece invisível.

É nesse ponto que a governança da internet assume seu verdadeiro significado. Governar a internet não é apenas regular plataformas ou estabelecer normas técnicas. É disputar os critérios que organizam a experiência do mundo. É definir quem tem poder para estruturar a percepção coletiva, influenciar decisões e, em última instância, moldar os limites do que é socialmente possível.

O que está em jogo para o Brasil e o Sul Global

Para o Brasil e para os países do Sul Global, essa disputa não é abstrata nem distante. Ela define as condições concretas de desenvolvimento, autonomia e inserção no sistema internacional. Permanecer em um modelo no qual infraestrutura, dados e tecnologias são controlados por atores externos significa aceitar uma posição subordinada na economia digital. Significa depender de plataformas estrangeiras para operar serviços essenciais, submeter dados estratégicos a sistemas fora do controle nacional e limitar a capacidade de formular políticas próprias.

Essa dependência não é apenas tecnológica. Ela é econômica e política. A captura de dados e a centralização de sua monetização reduzem a capacidade dos países de reter valor gerado internamente. Ao mesmo tempo, a ausência de controle sobre fluxos informacionais expõe sociedades a dinâmicas que podem interferir em processos políticos, influenciar eleições e desestabilizar instituições. A infraestrutura digital, nesse contexto, deixa de ser apenas um suporte e passa a ser um vetor de poder.

Participar ativamente da construção de uma nova governança global abre a possibilidade de alterar essa posição. Permite disputar regras que podem ampliar o controle sobre dados, incentivar o desenvolvimento de infraestrutura local e criar condições para que países avancem em áreas estratégicas como inteligência artificial e serviços digitais. Trata-se de uma tentativa de romper com a lógica de dependência que historicamente marcou a relação entre centro e periferia, agora reconfigurada no ambiente digital.

Além disso, há uma dimensão democrática incontornável. A capacidade de regular plataformas, exigir transparência algorítmica e estabelecer limites ao poder informacional das grandes empresas é fundamental para proteger o espaço público. Sem esses instrumentos, a esfera informacional permanece vulnerável a mecanismos opacos de influência e controle. Nesse cenário, a governança digital se afirma como uma questão central de soberania, desenvolvimento e proteção democrática.

O limite decisivo: sem poder material, não há soberania

A construção de uma nova governança global da internet só se sustenta se for acompanhada por capacidade material. Sem infraestrutura própria, sem domínio tecnológico e sem instrumentos regulatórios efetivos, qualquer defesa de soberania digital tende a permanecer no plano do discurso. O sistema atual não se mantém apenas pela ausência de regras, mas pela concentração concreta de tecnologia, capital e capacidade de operação em poucos atores.

Disputar governança exige mais do que presença em fóruns internacionais. Exige capacidade de produzir, armazenar e processar dados em escala. Exige domínio sobre sistemas de inteligência artificial, formação de quadros técnicos e fortalecimento de instituições capazes de regular e operar esse ambiente. Sem esses elementos, países continuam inseridos em uma posição de dependência estrutural, ainda que defendam maior autonomia no plano político.

Há também um risco estratégico. Iniciativas de governança podem ser esvaziadas se não forem acompanhadas de coordenação e ação concreta entre os países que buscam alterar o equilíbrio atual. A ausência de capacidade material tende a reproduzir as mesmas assimetrias sob novas formas, mantendo a concentração de poder e a lógica de dependência.

Por isso, o ponto decisivo não está apenas na formulação de propostas, mas na capacidade de implementá-las. A disputa pela governança da internet é, em última instância, uma disputa pelos meios materiais de produção digital. Sem enfrentar essa dimensão, qualquer projeto de soberania permanece limitado, enquanto a estrutura de poder vigente segue operando sem alteração significativa.

O caminho brasileiro: estratégia e ação

Se o Brasil pretende transformar posicionamento em poder real, precisa estruturar uma estratégia que articule infraestrutura, política industrial, regulação e ação internacional de forma coordenada. O primeiro eixo é a construção de capacidade própria em dados e computação. Isso envolve investimento em centros de dados, desenvolvimento de soluções de nuvem sob controle nacional e redução da dependência de infraestruturas estrangeiras em áreas críticas da administração pública e da economia.

O segundo eixo é a política industrial voltada para inteligência artificial e tecnologias digitais. Universidades, centros de pesquisa e empresas precisam operar de forma integrada, com financiamento consistente, formação de mão de obra qualificada e estímulo à produção de tecnologia local. Não se trata apenas de consumir inovação, mas de participar da sua produção e de definir suas aplicações de acordo com interesses nacionais.

O terceiro eixo é a regulação das grandes plataformas. É necessário estabelecer mecanismos concretos de transparência algorítmica, responsabilização e limites ao poder de mercado dessas empresas. A regulação deve ser capaz de equilibrar inovação com proteção social, garantindo que o ambiente digital funcione sob parâmetros definidos por interesses públicos e não apenas por estratégias corporativas.

O quarto eixo é a atuação internacional. O Brasil precisa se articular com países do Sul Global para construir posições comuns e ampliar sua capacidade de influência nas negociações. A participação ativa em fóruns multilaterais, a construção de alianças estratégicas e a coordenação política são elementos fundamentais para transformar propostas em regras efetivas.

A efetividade dessa agenda depende da capacidade de alinhar discurso, investimento e ação institucional. Sem essa articulação, a defesa de uma nova governança global corre o risco de permanecer como posicionamento político. Com ela, pode se transformar em estratégia capaz de alterar, ainda que gradualmente, a posição do país na arquitetura global do poder digital.

Conclusão: a governança da realidade

O debate sobre a governança da internet não é um tema técnico nem periférico. É uma disputa estrutural sobre poder, desenvolvimento e soberania no século XXI. Ao defender a construção de uma nova arquitetura global para regular a inteligência artificial e o ambiente digital, o Brasil sinaliza que compreende a natureza desse momento histórico e que pretende atuar na definição das regras que irão organizar o mundo contemporâneo.

O que está em jogo não é apenas a regulação de plataformas ou a organização de mercados digitais. Trata-se de decidir quem controla os fluxos de informação, quem define os critérios de visibilidade e quem estabelece as condições sob as quais sociedades produzem sentido, tomam decisões e organizam suas vidas. Em um ambiente onde a realidade é cada vez mais mediada por sistemas digitais, o poder não está apenas na produção de conteúdo, mas na estrutura que determina o que pode ser visto, amplificado ou silenciado.

A disputa pela governança da internet é, portanto, uma disputa pela organização da própria realidade social. Quem controla dados, algoritmos e infraestrutura digital não apenas participa do sistema global. Define suas regras, seus limites e suas possibilidades. Nesse cenário, soberania deixa de ser apenas controle territorial e passa a envolver a capacidade de intervir nas estruturas que organizam o mundo digital.

O gesto do Brasil indica uma direção. Mas direção, por si só, não altera estruturas. O que definirá o resultado dessa disputa é a capacidade de transformar posicionamento em estratégia, estratégia em capacidade material e capacidade material em poder efetivo. Sem isso, a arquitetura atual se mantém. Com isso, abre-se a possibilidade de reconfigurar, ainda que progressivamente, a distribuição de poder no sistema global.

A nova fronteira da soberania não está apenas no território, mas na arquitetura invisível que organiza a vida contemporânea. Quem a governa não apenas influencia o mundo. Define como ele funciona.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.