Breve análise do bolsonarismo
Bolsonarismo persiste como desafio político mesmo após derrota eleitoral de Bolsonaro
O bolsonarismo, como fenômeno social, teria se iniciado em 2015, quando o então deputado Jair Bolsonaro começou a ter certo protagonismo no processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.
Informações preliminares
O tenente do Exército Jair Messias ficou conhecido em 1986 por publicar um artigo na revista Veja, criticando o baixo salário dos militares. No ano seguinte, a revista revelou que ele havia planejado ataques terroristas (plantar bombas) contra bases militares do RJ; condenado em primeira instância pela Justiça Militar, foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar (STM) e transferido para a reserva como capitão. Em 1988, foi eleito vereador no Rio; em 1990, deputado federal, reeleito seis vezes – membro do chamado "baixo clero", visto como folclórico, sem papas na língua, com declarações racistas, misóginas, homofóbicas, em defesa de torturadores e contra a democracia.
O salto
Com o impeachment de Dilma, a campanha presidencial de Bolsonaro (PSL) ganhou força: o "candidato antissistema", "defensor dos valores familiares", com apoio do mercado, da mídia e do agronegócio, venceu Fernando Haddad (PT), no segundo turno, por 10% de vantagem.
Daí, aperfeiçoou uma estrutura político-familiar, com os filhos Flávio (01), senador pelo RJ; Carlos (02), vereador carioca; Eduardo (03), deputado federal por SP; e, recentemente, Jair Renan (04), vereador em Camboriú/SC, cujas bases eleitorais são fundamentadas em regiões controladas por milícias e/ou pastores neopentecostais, além do eleitorado ultraconservador; e angariou milhões de reais por meio de propinas e achaques – tudo segue sob investigação policial.
Modus operandi
Aparelhou a administração federal com militares; submeteu a economia aos interesses dos ricos e do agronegócio (cortes de direitos trabalhistas, juros altos, ações antiambientais); perseguiu minorias (negros, LGBT+); alinhou a política externa à extrema direita; criou uma megaestrutura de comunicação nas redes sociais (o Gabinete do Ódio), disseminando fake news em "escala industrial". O Brasil voltou ao Mapa da Fome, desemprego e inflação subiram, e o negacionismo à pandemia custou a vida de milhares.
Em 2022, diante da iminente derrota eleitoral, tramou um golpe de Estado, que incluía o assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes. A tentativa falhou, os líderes foram julgados (acabaram condenados e presos) e os casos de corrupção foram revelados; apesar disso, Lula venceu por uma diferença de apenas 1,6%.
O enigma
Não é fácil explicar o porquê da persistência do bolsonarismo; haveríamos de recorrer à Psicologia Social, à História, à Sociologia etc. Em três anos de governo Lula/Alckmin, o país saiu do Mapa da Fome, reconquistou prestígio internacional, o desemprego recuou ao menor nível, e a classe média passou a pagar menos impostos. Mesmo assim, o candidato bolsonarista aparece bem colocado nas pesquisas.
O psiquiatra forense Guido Palomba chama o fenômeno do bolsonarismo de "dissonância cognitiva coletiva", fruto do "narcisismo dos ressentidos e fracassados”, isto é, por falta de instrução e/ou deficiência de caráter, muitas pessoas não têm consciência da própria ignorância, apegam-se a narrativas irreais e culpam os outros por seus fracassos. Isso se daria porque existe um "ente indutor" que estimula os "induzidos"; a saída, segundo Palomba, seria "afastar um dos outros". Acontece que o principal indutor, o ex-presidente Bolsonaro, foi preso (afastado dos induzidos), mas os fanáticos seguem fiéis ao líder.
A complexidade do sistema de sustentação do fenômeno solidificou o extremismo a ponto de tornar impossível convencer o "bolsonarista-raiz" a mudar o voto. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, avalia que a polarização é um fato, que não há espaço para "terceira via" e que a luta política se dará entre os que não têm alinhamento orgânico nem a Lula nem a Bolsonaro. Essa pequena parte do eleitorado poderá estar disposta a comparar, de forma racional e pragmática, o governo Lula/Alckmin ao de Bolsonaro.
O resultado das eleições nos dará uma ideia se o bolsonarismo chegou – ou não – ao fim.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

