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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Bruce Springsteen reage à violência migratória nos EUA

Duas mortes causadas por agentes migratórios em Minneapolis levam Bruce Springsteen a transformar fatos, nomes e datas em canção política

Bruce Springsteen se apresenta em comício de Kamala Harris, na Filadélfia, Pensilvânia, EUA 28 de outubro de 2024 REUTERS/Eloisa Lopez (Foto: REUTERS/Eloisa Lopez)

Minneapolis deixou de ser apenas um endereço urbano e passou a nomear um capítulo sombrio da política migratória dos Estados Unidos. Em janeiro de 2026, duas mortes provocadas por agentes federais de imigração expuseram, em sequência, o grau de violência institucional que marca a nova ofensiva do governo Trump.

Poucos dias depois, Bruce Springsteen respondeu como sabe fazer: transformando fatos em canção, denúncia e memória pública.

No dia 7 de janeiro, Renee Good, 37 anos, mãe de três filhos, foi morta por um agente do ICE quando tentava deixar uma rua residencial com seu carro. Imagens analisadas posteriormente mostraram que ela não representava ameaça iminente. Em 25 de janeiro, Alex Pretti, também de 37 anos, enfermeiro de UTI, foi morto durante uma operação migratória. Pretti portava legalmente uma arma, mas já havia sido desarmado quando os agentes atiraram.

Os dois episódios desencadearam protestos em Minneapolis, com moradores filmando abordagens, usando apitos para alertar vizinhos e denunciando uma política que passou a tratar civis como alvos.

É desse chão concreto que nasce “Streets of Minneapolis”. “Their claim was self-defense, sir / Just don’t believe your eyes” (“A alegação deles foi legítima defesa, senhor / Só não acredite no que seus olhos veem”), canta Springsteen, desmontando a versão oficial apresentada pela Casa Branca. Em outro trecho, a letra sintetiza o conflito contemporâneo: “It’s our blood and bones / And these whistles and phones” (“É o nosso sangue e nossos ossos / E esses apitos e celulares”).

A canção opõe o aparato armado do Estado a corpos vulneráveis que tentam sobreviver registrando provas. Isto é arte e reação cidadã.

Springsteen vai além da metáfora. Cita Stephen Miller e Kristi Noem, figuras centrais da política migratória trumpista, a quem atribui “mentiras sujas”. Chama Donald Trump de “rei”, cercado por um “exército privado”. Não há ambiguidade poética: há acusação direta, consciente de que a disputa política hoje se dá também na arena cultural.

O gesto dialoga com um marco anterior de sua carreira. Em 11 de fevereiro de 1994, Springsteen lançou “Streets of Philadelphia”, tema do filme Philadelphia, de Jonathan Demme, protagonizado por Tom Hanks e Denzel Washington. À época, a música ajudou a romper o silêncio em torno da epidemia de HIV/Aids. O impacto foi mensurável: Top 10 da Billboard Hot 100, Oscar de Melhor Canção Original em 1994 e Grammy de Canção do Ano em 1995. Rádio, MTV, vendas físicas e premiações funcionaram como indicadores objetivos de um alcance que ultrapassou o cinema e entrou no debate público.

Há, porém, uma diferença decisiva:

Se “Streets of Philadelphia” traduziu uma dor social ainda marcada pelo silêncio e pelo estigma, “Streets of Minneapolis” recusa o recolhimento. Exige testemunhas imediatas, convoca a exposição pública e assume que, na era dos celulares e das redes, a memória é um campo de batalha.

Nascido em 23 de setembro de 1949, em Long Branch, Nova Jersey, Bruce Springsteen construiu uma obra atravessada pela crítica social. Autor de clássicos como “Born to Run”, “The River”, “Dancing in the Dark” e “Born in the U.S.A.”, costuma dizer que “a música é o lugar onde a verdade ainda pode respirar”. Ao longo de cinco décadas, Bruce Springsteen transformou canções em arquivos morais dos Estados Unidos.

“Streets of Minneapolis” talvez nunca seja medida por Oscars ou Grammys.

Seu impacto será aferido por outros critérios: circulação nas redes, presença em protestos, reações oficiais e tentativas de silenciamento. Como em outros momentos decisivos, Springsteen lembra que há horas em que a arte não serve para consolar.

Serve para acusar, registrar — e impedir que o esquecimento se imponha. Não é à toa que há muito tempo sabemos do papel fundamental que a classe artística tem como aquilo que são: antenas da raça.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.