Caetano Veloso sempre esteve no Recife
Entre memória, literatura e Carnaval, Caetano Veloso surge como presença permanente no Recife, da ditadura aos dias de folia e da MPB brasileira
As notícias de hoje falam:
“Depois de encantar os pernambucanos na abertura do Carnaval do Recife em 2023, Caetano Veloso volta à folia do estado nesta sexta-feira (30), quando se apresenta na prévia do Enquanto Isso Na Sala da Justiça, a partir das 21h, no pavilhão interno do Centro de Convenções. Desta vez, o cantor baiano traz a turnê ‘Caetano nos Festivais’, cujo repertório vem arrancando elogios pelo Brasil afora, desde que estreou em maio do ano passado”.
Mas até onde a memória alcança, Caetano Veloso sempre esteve no Recife. De tal modo, que ele aparece em nosso romance “A mais longa duração da juventude”. Olhem e vejam por favor a coincidência:
“Pátio de São Pedro, sexta-feira do carnaval de 1972.
Nos anos da ditadura, o Pátio de São Pedro era um dos lugares da esquerda no Recife para conversar, misturado a populares e jovens de modos de ser alternativos. Com um belo casario, com a igreja de séculos, ali existiam bares para todos os gostos e paladares. Nas pedras do chão colonial, iluminadas e cheias de moças, rapazes e intelectuais, o Pátio era uma ilha de Cuba na imaginação dos que não conheciam a ilha. É espantoso, é trágico que não víssemos o controle policial sobre os santuários da esquerda, que julgávamos ser do nosso fechado conhecimento. Mas se não víamos o Big Brother a nos vigiar, não era por cegueira ou estupidez. Era a obnubilação que domina os necessitados.
- Vamos beber – ouso falar.
- Calma, rapaz. Precisamos estar lúcidos para a luta – Vargas responde.
‘Sou um miserável sozinho’, penso. E me vem a impressão íntima do soneto Só de Cruz e Sousa. Estamos iguais no frio sepulcral de desamparo, mas não há estrelas do infinito acenando carinhosas para mim. Sou negro igual a Cruz e Sousa, sinto a desesperança do soneto igual, mas o que me amarra nu e chagado é o desencontro entre a minha tendência e o que exigem de mim. Estou no front de emergência, de atividades práticas, mas eu preferia estar entre bombas fazendo outra coisa. Outra. Qual? O quê? O que é o quê?
- É muito melhor compositor. Não acha? – Vargas me questiona.
– Hum. Quem é maior? – respondo sem entender a pergunta.
- Caetano Veloso, é claro. Está dormindo? – Ele volta.
- Eu? Nada. Sim, Caetano Veloso é bom - falo.
- Ele não é bom. Ele é o melhor compositor da música popular brasileira – Vargas responde.
- Não, aí é demais – falo. – Olhe, já é uma batalha gostar de Caetano. Mas ver Caetano como o melhor é demais.
- Eu gosto de Caetano Veloso – Alberto fala. – Ele tem umas coisas boas.
- Boas?! – Vargas se exalta. – Ele é o melhor compositor da música brasileira.... – ‘de todos os tempos’, ele ia dizer. Hoje percebo que se conteve com uma modéstia do Barão de Itararé, que ia se chamar de Duque, mas baixou o título para Barão. E continuou Vargas: – É o melhor! Caetano Veloso é o melhor compositor do tempo da revolução.
Olho em volta e percebo que nas mesas vizinhas se faz um silêncio. Todos nos escutam, concluo. Assuntos de música popular, no Brasil, são os que mais despertam interesse, depois do futebol. Mas na ditadura falar na altura da voz de Vargas, usando a palavra ‘revolução’, é demais. Nelinha lhe toca o braço e sussurra ‘cuidado’. Ele sorri:
- Tranquilo, minha santa. Estou falando de cultura.
- Estamos falando sobre música, não tem problema – Alberto fala.
- E tudo é revolucionário, não é? – Vargas completa. – O cinema de Glauber é revolucionário, a juventude é revolucionária, tudo é revolucionário. Menos Chico Buarque.
Todos riem. Ocorre o que às vezes se chama brincar com o perigo. Zombar do abismo. Mas na hora o que me ocorre é o cometimento de uma injustiça.
- Eu não acho – falo. – Chico, para mim, é o melhor compositor de música popular brasileira hoje. Ele tem uma poesia que não tem Caetano. Chico é de fazer música, não é de dar espetáculo. Caetano é escandaloso, entende?
- A revolução é um escândalo! – Vargas quase grita. Alberto ri, Nelinha sorri para o companheiro, que se vê estimulado. – Chico é o compositor de Carolina, Januária na janela. É o poeta dos olhos verdes das meninas. Isso é revolucionário? Preste atenção: a música de Chico é o passado. Ele é um compositor de 1960 pra trás.
- Olhe... – eu queria dizer, se compreendesse então que Chico ligava a tradição à música de 1970, assim como Paulinho da Viola fez essa ligação com o samba. Mas há um tempo em que possuímos o sentimento, mas não encontramos as palavras, que ainda não nos chegaram pela experiência. Então arquejo, como um náufrago, diante da catilinária. – Olhe, você quer poesia melhor que ... – e tento cantarolar ‘se uma nunca tem sorriso, é pra melhor se reservar...’ – que ‘a dor é tão velha que pode morrer’, hem? – E baixo a voz: - Chico é a esquerda do futuro.
- Ele não é nem do presente – Vargas responde. – Que dirá do futuro. Preste atenção, muita atenção: ‘sei que um dia vou morrer de susto, de bala ou vício’. Escutou? Esta é a música de agora, dos jovens revolucionários de hoje.
- Isso não é de Caetano. É de Gil, Torquato e Capinam – falo.
De Gil? – Vargas responde. – Não importa. Está no disco de Caetano. Ele fez da música um hino revolucionário. Isso é o que importa.
- Hum, sei - falo, mas ainda não sei. Vou do rosto de Vargas até Nelinha, sigo para Alberto, retorno a Vargas. – É bom também – admito, a fórceps.
Olho para Vargas e me pergunto ‘será bom mesmo?’, e o que vem a ser o conteúdo da pergunta eu não me digo nem quero ver. Se eu soubesse na noite o que soube depois, eu diria ‘esta música é o anúncio da morte’. Esse ritmo alucinante, à caribe, é enganoso e leviano. Pregar a revolução com palavras e música é uma coisa, Vargas. Fazer a revolução é outra coisa, eu diria, se soubesse em 1972 os acontecimentos da tragédia de 1973. Mas ainda ali, percebo agora, eu seria injusto até a estreiteza e maledicência. Então os artistas não podem expressar o sentimento que corre na gente? Então é justo acusar de leviano, de traidor da revolução, quem escrever como homem poético o homem prático? Só a raiva, no que tem de embrutecedora, verá a canção da luta armada no Brasil dessa maneira. Se assim fosse justo e real, o que dizer de Lorca, de Víctor Jara, até mesmo de Neruda? Então eu, que de nada sabia, escuto Vargas cantarolar ‘estou aqui de passagem, sei que adiante um dia vou morrer de susto, de bala ou vício’. E para ser mais preciso, em meio à intuição do horror, se põem acordes do frevo lá na Dantas Barreto. Meus olhos correm do rosto de Vargas, vão até a barriga de Nelinha, tão desamparada me parece na tormenta. Me dá uma vontade à beira do irreprimível de acariciar o fruto que virá no temporal. Vargas, que é vigilante insone da mulher, flagra o meu olhar nesse instante. Mas o macho vigia da sua fêmea é derrubado pela humanidade que pressente nessa ternura solidária. Assim sei, assim soube, porque a sua voz baixa o tom, e me fala como a um camarada, um irmão de jornada:
- Companheiro, desculpe. Pensamos diferente, mas você é um companheiro. Estamos juntos, não importa o que fazem de nós. O companheiro me desculpe.
- Que é isso, rapaz? Não foi nada. – Comovido pela gravidez de Nelinha e pelo descobrimento do Vargas que vem, fico embargado. E como sempre, tento corrigir a emoção com uma frase que me salve: - Eu também gosto de Caetano Veloso.
- Eu também gosto de Chico Buarque de Holanda. - Vargas me responde e sorri: - Que revolucionário.
- Sim – falo – Mas não na forma, na altura de um Caetano.
Todos gargalhamos. Então Alberto puxa desafinado, à sua maneira desafinado, ‘Apesar de você’. E mesmo com os sons do frevo que se aproxima, cantamos juntos ‘amanhã vai ser outro dia, amanhã vai ser outro dia’. Se em algum lugar houver um minuto de fraternidade, no Pátio de São Pedro houve esse instante. Estávamos juntos desde a proteção da gravidez de Nelinha.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
