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J. Carlos de Assis

Economista, doutor em Engenharia de Produção pela UFRJ, professor de Economia Internacional na Universidade Estadual da Paraíba e autor de mais de 20 livros sobre economia política.

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Caiu a máscara

A tênue nuvem de credibilidade que existia em torno de Jair Bolsonaro e de sua família simplesmente desapareceu

Ciro Nogueira e Jair Bolsonaro (Foto: Reuters/Ueslei Marcelino)
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A tênue nuvem de credibilidade que existia em torno de Jair Bolsonaro e de sua família simplesmente desapareceu diante das descobertas da Polícia Federal sobre as falcatruas do principal ministro do então presidente em suas relações com o banqueiro bandido do banco Master, Daniel Vorcaro. As provas colhidas pela PF são acachapantes. Não se tratava de um conluio de um banqueiro com um ministro qualquer. Tratava-se da compra do chefe da Casa Civil de um presidente, Ciro Nogueira, por R$ 500 mil mensais, para favorecer o banqueiro no Congresso e, provavelmente, junto ao próprio Presidente da República.

Era impossível Bolsonaro não saber do que estava acontecendo sob suas barbas no Planalto. Alguma satisfação seu chefe da Casa Civil tinha que lhe dar sobre nada menos do que três viagens ao exterior (Estados Unidos, França e Suíça), nenhuma das quais tinha relação com o interesse público. Na melhor das hipóteses, Ciro viajou de férias com Borcaro, que lhe pagou até a roupa de inverno na Suíça. Na pior, saiu do País para ter privacidade no tratamento de negócios escusos com o banqueiro, abrindo espaço para que Bolsonaro fechasse as negociações.

Isso reforça a convicção de que jamais se pode entregar o Poder político a alguém próximo de pessoas como Bolsonaro. Quando tem oportunidade, ele rouba descaradamente. Ciro, como é regra na família Bolsonaro, não se contentou com uma mesada mensal de $ 500 mil, ou de R$ 6 milhões por ano. Quis mais. Queria hotel de luxo e restaurantes caríssimos no exterior, o que o esconderia de olhares de jornalistas curiosos que, no Brasil, poderiam flagrá-lo– como de fato foi flagrado em situações suspeitas, captadas por jornalistas e pela Polícia, que vasculhou suas relações pessoais.

Entretanto, o melhor resultado que resta desse episódio é que ele liquida com a candidatura de Flávio Bolsonaro, muito antes que as urnas sejam abertas ou fechadas. A liderança do PL, principalmente o capacho de Jair Bolsonaro, Valdemar Costa Neto, entrou em pânico. Eles estavam convergindo em torno do nome de Ciro para consagrá-lo como vice na chapa de Flávio, ao mesmo tempo em que consolidavam o nome de Flávio como candidato potencial à Presidência. Agora terão que dar um passo atrás e reconstruir todo o castelo de cartas em que vinham trabalhando para as eleições.

A descoberta das falcatruas de Ciro contamina a imagem de todos os bolsonaristas como sendo políticos honestos. Além disso, é mais uma indicação da podridão moral e ética pela qual o Brasil passa. Se Ciro, um dos mais importantes políticos da República, pode roubar na escala observada, o que os trabalhadores comuns mais humildes e os cidadãos e cidadãs das periferias , que não tem renda sequer para uma vida decente, podem fazer para garantir sua sobrevivência? Ciro abriu a porteira para mais um passo da corrupção no Brasil, de cima para baixo. A boiada pode se chafurdar na lama à vontade, de baixo para cima.

É claro, porém, como disse, que em tudo isso há um resultado positivo para o País. Não apenas porque Ciro foi apanhado com a boca na botija, mas porque, com a revelação de suas relações espúrias com Vorcaro, foram água abaixo as articulações do PL para fazer dele candidato a vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro. Com isso, as duas candidaturas naufragaram: é que Flávio cometeu a indiscrição de dizer que queria Ciro como vice, antes de se torarem públicas suas íntimas relações com Vorcaro. Com isso, de uma tacada, nos livramos dos dois: do candidato a presidente, juntamente com seu vice. De Vorcaro, cuida a Polícia Federal e cuidará o Supremo Tribunal Federal. Jogo fechado!

Não será fácil par a liderança do PL achar um candidato à Presidência, depois desse escândalo. Flávio estava sendo apresentado como um político bonzinho, melhor do que o pai, e dedicado a temas mais neutros e menos polêmicos , como segurança. Isso o distinguiria de candidatos da direita mais radicais, como Caiado e Zema, assim como da memória negativa do exercício da Presidência pelo próprio Bolsonaro pai. A relação familiar o ajudaria, mesmo porque, a despeito de estar na cadeia, Bolsonaro tem votos. Acontece que, agora, Bolsonaro paii e família têm que carregar o caixão de Ciro Nogueira, um corrupto notório exposto ao eleitorado de todo o País.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.