Calígula e Trump
Da tirania clássica ao risco civilizacional: quando o poder tecnológico transforma o autoritarismo em ameaça à própria humanidade
A frase atribuída ao imperador romano Calígula, “Posso fazer qualquer coisa a qualquer um”, sintetiza bem a imagem que a tradição histórica construiu dele: um governante que confundia poder com licença absoluta.
É verdade que seu reinado foi curto (37–41 d.C.), e muitos historiadores concordam que, se tivesse durado mais, sua fama de crueldade provavelmente seria ainda maior. Fontes como Suetônio, Tácito e Dião Cássio o descrevem como cruel, imprevisível, sádico e dado a humilhações públicas, execuções arbitrárias e excessos morais.
O consenso histórico é que Calígula personifica um tipo de tirania em que o poder deixa de reconhecer qualquer limite ético ou jurídico.
Calígula virou um arquétipo do governante que trata o poder como extensão do próprio ego, despreza limites institucionais e governa pela provocação, pelo espetáculo e pela intimidação.
Calígula governava um império sem freios democráticos, matou adversários e exercia poder absoluto. Trump, embora opere dentro de um sistema constitucional, com eleições, tribunais, imprensa livre e oposição real; ele tem tensionado tudo isso.
Embora ainda não tenha os poderes absolutos de Calígula, Trump usa sua provocação populista para corroer a democracia.
Há porém um ponto a favor de Trump em relação a Calígula. Nenhum imperador romano jamais teve nas mãos o que um presidente norte-americano contemporâneo tem: capacidade de destruição global em minutos.
Calígula podia matar senadores; hoje, um presente norte-americano pode aniquilar cidades, economias, ecossistemas e futuros. A escala mudou de brutal para existencial.
Um presidente submetido a limites constitucionais não deveria se tornar um tirano. O cargo temporário existe exatamente para impedir isso. Mas a história mostra que a tirania moderna não nasce da suspensão formal da Constituição; nasce da corrosão gradual de suas bases morais, institucionais e simbólicas. É assim que alguém pode operar dentro das regras e, ao mesmo tempo, esvaziá-las por dentro.
Trump não é um tirano no sentido clássico, não fecha parlamentos, não governa por decretos militares, não executa opositores, mas se tornou algo novo e igualmente perigoso: um governante personalista, que substitui instituições por lealdades, transforma a política em guerra emocional permanente e trata limites legais como obstáculos ilegítimos, não como fundamentos da civilização democrática.
O tirano antigo governava pelo medo físico. O moderno governa pela instabilidade, pela intimidação simbólica, pela deslegitimação contínua das regras do jogo. Não precisa abolir a Constituição; basta convencer metade da população de que ela só vale quando lhe convém.
Um presidente constitucional não deveria virar tirano algum, mas Trump se tornou uma forma contemporânea de tirania, sem toga imperial, sem coroa, sem Senado silenciado, mas com algo talvez mais corrosivo: a normalização do abuso como método político.
Essa é a perversidade do nosso tempo: o autoritarismo já não precisa destruir as instituições, basta zombar delas até que percam autoridade. Basta parecer "anti sistema".
A tecnologia também cria uma diferença qualitativa entre Calígula e Trump: quando um governante demagógico, populista, imprevisível, impulsivo e movido por ressentimentos controla armas de destruição em massa e recursos de alta tecnologia, o problema deixa de ser apenas tirania, vira ameaça civilizacional.
Não é mais sobre maus governos; é sobre se a humanidade atravessa essa década intacta.
O perigo não está apenas no caráter, mas na combinação entre moralidade pessoal e poder técnico absoluto. Calígula era um louco num mundo limitado. Trump é próximo de um deus destrutivo, mitológico, não por divindade, mas por tecnologia.
É exatamente esse dilema que levou Einstein a dizer que a humanidade mudou tudo, exceto sua forma de pensar. É o que levou Oppenheimer, então diretor científico do Projeto Manhattan, a recitar o verso do Bhagavad Gita: “Agora eu me tornei a Morte, o destruidor de mundos.”
É muito poder nas mãos de um único indivíduo; e esse talvez seja o maior risco político da era tecnológica.
Nunca antes na história humana a combinação entre personalidade, ressentimento, instabilidade emocional e poder técnico absoluto teve potencial para afetar não apenas povos ou impérios, mas a própria continuidade da civilização. O problema deixa de ser apenas ético ou institucional e passa a ser ontológico: o que significa ser humano quando se pode, por decisão isolada, interromper a própria história da humanidade?
Calígula simboliza o colapso da moral dentro do poder absoluto; Trump simboliza algo novo e ainda mais inquietante: a possibilidade de que impulsos pessoais, vaidades políticas e estratégias de choque operem dentro de sistemas que controlam armas nucleares, cadeias econômicas globais e ecossistemas políticos. Não se trata de tirania clássica, mas de instabilidade sistêmica com consequências irreversíveis.
Roma caiu porque seus imperadores enlouqueceram com o poder. Hoje, o risco não é a queda de um império, é o colapso da própria casa comum da humanidade.
A questão central já não é apenas se instituições resistirão, mas se a espécie humana continuará apostando em modelos de liderança que concentram poderes desproporcionais em indivíduos emocionalmente desequilibrados.
O drama moderno não é Calígula, é Calígula com códigos nucleares.
Por isso, o verdadeiro debate não é sobre um homem, mas sobre um sistema que ainda aceita que o destino do mundo dependa da estabilidade psicológica de uma só pessoa. Quando Oppenheimer citou o Bhagavad Gita, ele não falava apenas da bomba, falava da humanidade diante do espelho, percebendo que havia adquirido poderes divinos sem adquirir maturidade moral equivalente.
É muito poder nas mãos de um só, e talvez o maior teste do nosso tempo seja decidir se somos civilização o bastante para sobreviver a alguém como Trump.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
