Campanha ou compra de votos?

Reforma política legítima tem de dar mais voz às ruas e menos aos partidos. E é sempre bom lembrar que a melhor ferramenta de campanha para a reeleição é ter realizado um bom mandato. Muitos desses que estão aí, mudando as regras com o jogo em andamento, não fizeram o dever de casa

Image para artigo de Celso Raeder, Campanha ou compra de votos?
Image para artigo de Celso Raeder, Campanha ou compra de votos? (Foto: Celso Raeder)

Trabalho com marketing para campanhas políticas há mais de 30 anos. Tenho no currículo alguns cases de sucesso, mas devo admitir que os fracassos foram muito maiores. E antes que me chamem de incompetente, devo dizer que me orgulho muito por quase todas as derrotas que sofri. Explico. No Brasil, quem não tem dinheiro – muito dinheiro -, não se elege. Salvo os poucos políticos que gravitam no segmento do eleitorado de opinião, a grande maioria dos parlamentares brasileiros sobrevive mesmo é da compra de votos.

Vou contar uma história para vocês entenderem melhor. Em 2014 assumi o comando da campanha de uma candidata a deputada estadual pelo Rio de Janeiro, filiada a um desses partidos nanicos que se juntam à sopa de letrinhas para garantir espaço na TV. A proposta era levar às ruas uma candidatura limpa, alegre, programática e crítica, com mensagem ancoradas em peças inovadoras. Pois bem, no meio da campanha sou chamado pela cliente para uma reunião na casa dela, e me deparo com um banqueiro do jogo do bicho esparramado no sofá, se apresentando como o novo coordenador da campanha. Virei as costas e fui embora.

Dez minutos depois recebo um telefonema da candidata, nervosa, pedindo que eu reconsiderasse. Disse que havia um engano, que eu continuava responsável pela campanha e que o tal bicheiro estava ali apenas para somar. Eu já sabia o desfecho daquela história, mas voltei porque, afinal, ela é minha amiga. Sem poder fazer absolutamente nada, vi passar diante dos meus olhos milicianos, pastores evangélicos e até um candidato a senador, todos – eu digo, TODOS -, garantindo votos em troca de dinheiro. O trabalho foi contaminado e ela não se elegeu.

Querem outra? Em 2016 fui contratado para coordenar uma campanha para prefeito numa cidade do interior de São Paulo. O candidato era o favorito na disputa do segundo turno contra aquele que buscava a reeleição, e que amargava índices de rejeição beirando 80%. De posse dessa informação, uma romaria de cabos eleitorais, lideranças comunitárias, presidentes de partidos de aluguel, outros pastores de igrejas evangélicas, entre tantos, se amontoaram no comitê central da campanha, todos vendendo sua preciosa mercadoria: o voto alheio. Ninguém se ofereceu para trabalhar por identificação ideológica. Queriam dinheiro e cargos públicos se a empreitada lograsse êxito.

O problema é que a nossa campanha não contava com financiamento de ninguém. Não havia dinheiro para negociar apoios, e mesmo se houvesse, o candidato não assumiria esse tipo de compromisso. Sabe o que aconteceu? Todos foram bater na porta do prefeito mais rejeitado da história da cidade, que abriu os cofres, distribuiu cargos, emitiu bons sinais de que renovaria os contratos com os donos das mídias locais, e acabou se elegendo no primeiro turno.

De um jeito ou de outro, é para isso que serve esses quase R$ 4 bilhões que deputados e senadores querem arrancar do bolso do contribuinte, a título de financiamento público de campanha. Nas capitais ou nos grotões, a compra de votos não se dá mais entre o candidato e o eleitor. O negócio agora é feito com os "atravessadores", um sistema que dificulta a identificação do crime eleitoral, e que a Polícia Federal e os Tribunais Regionais Eleitorais não conseguem dar conta de reprimir, posto que já está institucionalizado na vida pública brasileira.

Pergunte ao João Santana ou a qualquer outro marqueteiro de peso se estou falando bobagem. Programas de TV, rádio, panfletos, etc, nada mais são do que peças de ancoragem, para dar lastro ao discurso dos atravessadores de votos junto aos seus rebanhos. Isso explica um monte de coisas, entre elas o descaso com a educação, e os esforços fascistas para acabar com a discussão política dentro das salas de aula. Reforma política legítima tem de dar mais voz às ruas e menos aos partidos. E é sempre bom lembrar que a melhor ferramenta de campanha para a reeleição é ter realizado um bom mandato. Muitos desses que estão aí, mudando as regras com o jogo em andamento, não fizeram o dever de casa.

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