Carnaval é época de brincar, se fantasiar e lutar contra o racismo
O Carnaval deve ser celebração e resistência, não palco para fantasias racistas que humilham identidades e perpetuam desigualdades históricas
Os meses de janeiro e fevereiro vêm acompanhados de inúmeros bloquinhos nas principais capitais do país. O Carnaval é um dos patrimônios culturais do Brasil e deve ser saudado como uma manifestação popular que dá voz ao seu povo. Mas conceder a palavra não quer dizer permitir qualquer tipo de manifestação. Fantasias como blackface, que reforçam o racismo recreativo, devem ser combatidas, pois, além de perpetuarem estereótipos, endossam atitudes de intolerância e discriminação.
Para quem não conhece com propriedade, o blackface é uma prática racista, com origens no século XIX, em que pessoas brancas pintam o rosto de preto para representar pessoas negras de maneira caricata, estereotipada e depreciativa. No Brasil e no mundo, a prática é amplamente repudiada por desumanizar e ridicularizar a população negra, muitas vezes associando-a a imagens de subalternidade ou servidão. Trata-se de uma forma de violência simbólica que fere a dignidade e reforça desigualdades históricas.
O mesmo se aplica à população indígena e a outros grupos minorizados, como mulheres, pessoas LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência e demais comunidades frequentemente alvo de estigmatização. Não há folia quando nem todos podem brincar com respeito e segurança. A festividade não pode ser uma desculpa para disseminar o preconceito ou disfarçá-lo com confete e serpentina.
O debate sobre racismo no Carnaval tem ganhado cada vez mais visibilidade, o que demonstra um avanço importante na consciência social. Em 2026, o Ministério da Igualdade Racial lançou a campanha “Sem Racismo o Carnaval Brilha Mais”, com o objetivo de prevenir e enfrentar práticas discriminatórias em blocos de rua, quadras, ensaios e desfiles. A iniciativa reforça que a maior festa popular do país deve ser também um espaço de respeito, valorização da cultura negra e reconhecimento das mãos que constroem essa tradição.
O Carnaval brasileiro é uma expressão profundamente marcada pela contribuição da população negra. Do samba aos cortejos, das baterias às alegorias, a festa é resultado de histórias de resistência, criatividade e afirmação cultural. Respeitar essa herança significa também rejeitar práticas que transformam identidades em fantasia, caricatura ou motivo de riso. Celebrar a cultura é diferente de se apropriar dela de forma desrespeitosa.
Mais do que uma discussão pontual, o enfrentamento ao racismo no Carnaval é parte de um compromisso maior com uma sociedade mais justa. O espaço público da festa reflete as relações sociais do cotidiano. Se queremos um país mais inclusivo, é preciso que a alegria coletiva caminhe ao lado da responsabilidade individual e do cuidado com o outro.
Como cidadão, defendo que o Carnaval é tempo de liberdade, criatividade e encontro. Mas a verdadeira festa só acontece quando todos podem participar com dignidade. Escolher fantasias conscientes, denunciar práticas discriminatórias e promover o respeito são atitudes que fazem a diferença. Porque, quando a diversidade é celebrada sem preconceito, o Carnaval não apenas brilha mais. Ele se torna, de fato, a expressão de um Brasil que reconhece sua pluralidade e luta contra o racismo todos os dias.
Sobre a Inaperê
A Inaperê é uma consultoria especializada em DE&I, que oferece uma série de ações que visam à ampliação da diversidade e à garantia de equidade no ambiente escolar e empresarial. Fundada pelos educadores Leonardo Bento e Andréa Ladeira, desenvolve ações de letramento racial e histórico em escolas, empresas e instituições públicas, aliando rigor acadêmico, prática pedagógica e vivência territorial. Entre seus projetos, destacam-se as consultorias em equidade racial para empresas e escolas, a Biblioteca Comunitária da Paz, as Trilhas das Memórias Negras e o grupo de estudos Entrelinhas Afro-Indígenas, que acontecem mensalmente na cidade de São Paulo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
