Carta aberta à comunidade nikkey

Por fim queria dizer que numa democracia perder uma eleição e bastante normal. O que é inadmissível é perder a democracia numa eleição. Portanto, respeitosamente gostaria de pedir a todos os nikkeys do Brasil a votarem pelo Brasil, votando 13

Carta aberta à comunidade nikkey
Carta aberta à comunidade nikkey (Foto: Ricardo Stuckert)

Hoje segundo o IBGE, cerca 1,5 milhões de brasileiros de origem japonesas formam hoje a Comunidade Nikkey no Brasil, hoje já na quinta e sexta geração. Uma comunidade com um perfil bastante singular em relação às demais colônias no Brasil. Em minha opinião, a característica mais importante é sem dúvida como os japoneses encaram a questão da educação. Meu pai sempre dizia: "Que no Japão quando uma pessoa encontrava o Imperador deveria fazer uma reverência, porque ele era uma pessoa muito importante. Em segundo lugar, quando encontrava seus pais, deveria fazer duas reverências, porque eles são muito mais importantes. Agora quando encontrassem os seus mestres, deveriam fazer três reverencias porque eles realmente são os mais importantes" No Japão, o professor é o único profissional que não tem obrigação de fazer reverência ao Imperador.

Na minha adolescência havia um senso comum na sociedade brasileira, de que descendentes de japoneses são estudiosos, disciplinados, vão bem na escola, passam no vestibular com mais facilidade. De acordo com uma pesquisa feita pela USP e UNESP, os nipo-brasileiros, que são 1,2% da população da cidade de São Paulo, representam 4% nos inscritos no vestibular e cerca de 20% nos aprovados. Nas carreiras mais concorridas, como Medicina e Engenharia, eles chegam a representar, em média, 15% e 20% dos estudantes matriculados, respectivamente. Segundo dados do IBGE, 28% dos nipo-brasileiros possuem o ensino superior completo, enquanto a média nacional está em aproximadamente 8%. A pesquisa diz ainda se for considerado na faixa adulta, ou seja, em idade de terminar uma faculdade, esse percentual chega a 53 % de nikkeys com formação universitária. Isso sem dúvida é consequência da influência de seus pais e avós, que trouxeram da cultura japonesa, valores como a disciplina, o respeito à hierarquia, o esforço e a dedicação. Isso explica o fato da maioria da colônia japonesa estarem na classe média e média alta, na faixa salarial acima de cinco salários mínimo. Isso explica também a sua defesa de classe a partir do conceito de meritocracia. Tenho que admitir que no caso da colônia japonesa, tem certa justificativa, principalmente pelo fato das dificuldades e das adversidades que seus pais e avós, tiveram que enfrentar pra sobreviver e criar seus filhos no Brasil, em especial no período da segunda guerra mundial. Mesmo no período pós-guerra, os japoneses foram durante muito tempo vítimas de perseguição, preconceito e medidas discriminatórias do estado brasileiro.

Eu faço parte da segunda geração (Nissei) por parte do meu pai, e terceira geração (Sansei) porque minha mãe já era Nissei e meus avós, como meu pai vieram para o Brasil no início do século XX da ilha de Okinawa, a partir do acordo de imigração entre os dois países é firmado em São Paulo e assinado em 06 de novembro de 1907 por Ryu Mizuno, diretor-presidente da Companhia Imigração Kōkoku do Japão e por Carlos Botelho, secretário da Agricultura do Estado de São Paulo. Neste acordo, dava-se a entender que o governo brasileiro iria doar terra aos imigrantes para fomentar a agricultura no país. Mas na verdade poucos imigrantes receberam alguma terra e benefícios do governo brasileiro. Meu pai, por exemplo, foi enviado para uma fazenda no interior de São Paulo e quando ele percebeu que era tudo mentira o que haviam prometido, fugiu pra capital e foi trabalhar como marcineiro, tendo partcipado da construção do Monumento do Indepêndencia no Ipiranga e na constução do prédio Martinelli na Rua São Bento em São Paulo. O mesmo aconteceu com meus avós, eles foram pra Campo Grande no então Mato Grosso, não receberam nehuma terra do governo brasileiro e depois para Presidente Prudente em São Paulo.

Eu durante estas últimas semanas, quando tive a idéia de escrever este texto, fiquei muito indeciso se devia ou não. Isso porque eu sou um nikkey que na adolecência e na maior parte da fase adulta nunca fui próximo à colonia japonesa. Para ser mais claro, meu primeiro contato pra valer com a comunidade se deu no período de 1999 a 2002, quando indicado por Lula, fui para o Mato Grosso do Sul para colaborar com o governo do PT, no primeiro mandato do governador Zeca do PT. Mato Grosso do Sul depois de São Paulo, concentra a segunda ou terceira maior comunidade de nikkeys no país, lembrando que o Brasil é a maior colonia japonesa fora do Japão. Coincidência ou não, quis o destino que eu fosse participar do governo de um estado, aonde meus avós vieram quando imigraram para o Brasil e terra natal de minha mãe e meus tios. Logo que cheguei, fui procurado por representantes da comunidade japonesa, primeiro para uma aproximação e para discutir a possibilidade do governo do PT atender algumas demandas da comunidade. A primeira coisa que descobri é uma caracteristica da colonia japonesa, que ainda não estava muito claro pra mim, é a extrema solidariedade deles com relação aos seus. Segundo, é que eles se sentem representados quando algum nikkey ocupa um cargo importante no governo, independente da questão ideológica, e querem discutir, contribuir apresentando suas idéias. Nunca poderia imaginar que fosse receber algumas homengem da colonia, que me sensibilizaram muito em especial uma da comunidade de Mato Grosso do Sul em 2003, em função da minha indicação para a secretaria-executiva do Ministério dos Transportes e outra, junto com meu companheiro, o então ministro Luiz Gushiken, na Associação Okinawa do Brasil em São Paulo, quando da visita do govenador da provincia de Okinawa no Brasil e em diversos eventos relativos á comemoração do centenário da imigração japonesa no Brasil.

Como disse acima, só em 1999 em tive um contato efetivo com a colonia japonesa. Acredito que um dos motivos, seja a minha opção ainda na adolecencia pela militancia política de esquerda. Participar na resistência à ditadura militar no movimento estudantil, por alguns incidentes da época me levou a abandonar a faculdade no último ano. Participação nas greves do ABC de 1978, 1979 e 1980, me colocou uma lista negra organizada pela FIESP sob a tutela do estado brasileiro, estive por mais de três décadas fora do mercado de trabalho. Participar da fundação do PT e da CUT, a meu ver, contribuiu para aumentar essa distância com a comunidade nikkey e com a classe média em geral, em função dos interesses da classe e minha opção política.

Voltando a questão da meritocracia, que afirmei acima que este conceito na colonia japonesa tem algum sentido. Se a colonia japonesa no Brasil fosse um país, com certesa ela seria correta por que todos teriam as mesmas dificuldades e as mesmas oportunidades. Em termos de Brasil, diante de tanta desigualdade de oporunidades entre a classe média e a maioria da população, isso é inaceitável. Hoje este conceito é consequência de uma política ultra liberal, onde se propõe um estado mínimo, gerenciado como empresa, onde a educação, a saúde e a segurança nacional são negócios e devem ser geridas como empresa e o cidadão transformado em pessoa jurídica, com a ilusão que ele pode ser o patrão de si mesmo e prosperar na sociedade.

Pra mim estão claros as minhas divergências com o pensamento da elite e grande parte da classe média do país. Obviamente estas divergências atinge tambe´m a comunidade japonesa. No entanto, gostaria de comentar aqui as nossas convergências enquanto nikkeys.

Tem um amigo meu, que dizia que: "Japonês quando bom é bom, mas quando é ruim, nem polícia pega". Com esta brincadeira, não teria dúvida em afirmar que a maioria dos nikkeys como a maioria do povo brasileiro são pessoas de bem. Agora somos diferenciados em algumas questões, devido principalmente aos conceitos sobre valores como a disciplina, o respeito à hierarquia, o esforço e a dedicação que herdamos de nossos pais e avós.

No domingo dia 28 de outubro, a população brasileira ira escolher entre dois projetos, e definir os rumos da nação não para os próximos quatro anos, mas sim para as próximas décadas. Cerca de um milhão de nikkeys, com certeza também estarão lá porque nós temos consciência da importância do voto.

Temos um candidato que defende a tortura, que defende o fim de direitos trabalhistas como o décimo terceiro salário, o auxilio maternidade, o fim da aposentadoria. Um candidato que a retirada das nossas crianças e adolescentes da escola e a implantação do ensino fundamental à distância, com a demissão dos professores e de servidores da educação. Um candidato que propõe o fim do SUS – Sistema Único de Saúde e a privatização total da saúde no Brasil. Um candidato que propõe a liberação total da venda de armas para toda população como "política de segurança" e diz que no governo dele o policial que matar não será processado e sim condecorado. Um candidato que diz que não aceitará oposição e ira prender e matar seus adversários. Um candidato que diz que manterá a política do governo atual dos golpistas, com relação à entrega de nossas riquezas, das nossas estatais estratégicas para o desenvolvimento do país, como a Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDS, Eletrobrás, Embraer, etc. Um candidato que propõem uma guerra contra a Venezuela para atender os interesses com Estados Unidos. Esse candidato é um capitão do exército brasileiro reformado e parlamentar na Câmara dos Deputados e que em 28 anos de mandato nunca propôs nada que tivesse alguma relevância para o povo brasileiro, só utilizou a tribuna para propagar o ódio e a intolerância contra as mulheres, os negros, os nordestinos, os LGBTs, etc. Esse candidato que no primeiro turno das eleições utilizando tecnologia estrangeira que não se encontra no mercado, financiada pelo capital nacional e internacional, de forma ilegal, invadiu as redes sociais em especial o WHATSAPP e o FACEBOOK com notícias falsas de seu adversário na tentativa de ganhar as eleições no primeiro turno. Este candidato se chama Jair Bolsonaro.

Na verdade é bom que se diga que se houvesse um mínimo de justiça neste país, este processo eleitoral de 2018 já teria sido resolvido no dia 07 de outubro. Se Lula não fosse condenado e preso sem provas e sem o devido processo legal do transito e julgado; se o judiciário acatasse a liminar da Comissão de Direitos Humanos da ONU de manter a sua candidatura, de acordo com todas as pesquisas Lula já seria presidente eleito do Brasil. Como não aconteceu, apesar de todas as adversidades, de toda a campanha contra feita pela midia, temos hoje um candidato que representará Lula neste segundo turno. Um candidato que contra todas as propostas do fascista Jair Bolsonaro, que vai nos devolver a democracia com um livro na mão e uma carteira de trabalho na outra. Poderia falar do seu programa de governo e de como ele pretende resgatar a soberania da nação e os direitos da população, dos seus feitos como ministro a educação e prefeito da maior cidade do país. Mas como estou me dirigindo a Comunidade Nikkey do Brasil, vou dizer apenas que ele é um PROFESSOR e que ele representa todos aqueles valores culturais que herdamos de nossos pais e avós. Esse candidato se chama Fernando Haddad.

Por fim queria dizer que numa democracia perder uma eleição e bastante normal. O que é inadmissível é perder a democracia numa eleição. Portanto, respeitosamente gostaria de pedir a todos os nikkeys do Brasil a votarem pelo Brasil, votando 13, votando FERNANDO HADDAD para Presidente, e MANUELA DAVILA para Vice Presidente.

Um forte braço a todos e até a vitória final.

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