Carta aberta a Felipe Neto

O linguista e colunista do 247, Gustavo Conde, escreve uma carta aberta ao comunicador Felipe Neto. Ele diz: "não tente agradar a grande imprensa. Não tente jogar em dois lados da história, no da civilização e no da barbárie. Não se deixe seduzir pelo falso ‘status’ de figurar nas manchetes de um ‘grande jornal’. Isso se tornou um protocolo nocivo à qualquer imagem pública - se o parâmetro forem os setores verdadeiramente democráticos"

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Felipe, querido, 

Confesso que me empolguei com sua nova fase ‘politizante’. Torci e torço por você, pelo seu crescimento, por sua tentativa de se retratar de besteiras ditas em passado recente. Enfim, por sua chegada ao mundo do debate público.  

Mesmo sabendo que o discurso progressista lhe pode servir como vetor de tráfego digital, que pode ser enquadrado em mais um subproduto de seu repertório cômico de conteúdo (ser de esquerda também ‘vende’), eu via - e ainda vejo - no seu ímpeto político algo alvissareiro, positivo, sintomático, quase espontâneo.  

Mas me parece que você está sendo abduzido pela vaidade residual e tóxica que paira nas mídias tradicionais, como no jornal Folha de S. Paulo, na TV Cultura, no Grupo Globo etc. Seu caminho rumo à descoberta de si e do mundo pode estar prestes a ser drasticamente interrompido.  

Para ser direto: você fez as alianças erradas, meu querido. Essas plataformas estão velhas, precarizadas, obsoletas, comprometidas demais com um passado tenebroso. Elas te puxam para baixo, te vampirizam. Solitárias e sucateadas, precisam de você para se sentirem ainda um pouco vivas. 

Elas, obviamente, o induziram ao erro - àquele cálculo estúpido do alinhamento natural aos pressupostos do mercado financeiro, ao neliberalismo e ao espancamento moral sistemático dirigido às esquerdas (para não dizer da reincidente criminalização da política).  

Você estava quase se libertando disso.  

Para você não achar que estou teatralizando a decepção, trago um relato afetivo: meu filho de 12 anos te adora. Ri muito contigo, te assiste todos os dias. Aprendi a gostar de você por causa dele. Sempre perguntava: “e aí, qual foi a do Felipe hoje?”. 

Acabei me entusiasmando com sua ‘guinada’ ‘politizante’ e passei a elogiar seu trabalho para ele. Celebramos juntos seu engajamento na pauta democrática. Você, de fato, é brilhante, sua comunicação é espontânea, sincera. Por isso, talvez, que seu caminho de autoconhecimento seja delicado e enseje alguns cuidados diante da linguagem ultrapassada da mídias tradicionais, dos empresários tradicionais e dos consultores tradicionais.  

Convenhamos: você não é tradicional.  

O fato é que você parece estar mal assessorado. Seu gigantismo empresarial em um país empresarialmente precarizado e viciado como o Brasil possivelmente atraiu o que de pior poderia existir em termos de consultoria e planejamento estratégico de imagem pública para sua carteira de investimento. Você, sozinho, é mais interessante do que ‘você assessorado’, se é que me entende. 

A rigor, o flerte com as mídias tradicionais destrói qualquer imagem nesses tempos contraintuitivos. Seria preciso insistir na ousadia, na impetuosidade, no atrevimento. Deixar-se domesticar tão cedo pelo canto da sereia institucional-classista te leva para perto de personagens folclóricas como Luciano Huck e Tabata Amaral. Você não merece isso. 

Dois pontos, apenas para reflexão: ganhastes o posto de um das cem pessoas mais influentes do mundo, pela revista Time. O que você fez? Comemorou!  

Não se comemora esse tipo de coisa, Felipe. Até porque, você teve de comemorar explicando - explicando que não concordava com o fato de Bolsonaro figurar na mesma lista.   

Não tem um assessor para te explicar isso? Um designer ético, um coach de costumes, um parça?   

Essas listas são o suprassumo do aliciamento para o establishment, meu caro. É um protocolo similar ao prêmio “Faz a Diferença” com que a Globo comprou a vaidade e o voto de alguns ministros do STF e outros juízes e procuradores por aí, legião de homens toscos sobre a qual você também poderia opinar de vez em quando (coragem!).  

Sua últimas incursões no mundo do comentário e análise política também flertaram com o precipício. O tuíte sobre a lista de candidatos do PT às prefeituras e seus respectivos percentuais de intenção de voto te coloca na posição desconfortável de analista-padrão das grandes mídias.  

Você foi quase um Merval Pereira.  

Diz que analisou “números”. É sério? Alguém já te falou que para analisar números é preciso parâmetros, contextualização e protocolo técnico (ainda mais números referentes a pesquisas de opinião)?  

Gaste um pouco do seu tempo precioso estudando um pouco de metodologia científica e de história política do Brasil! Não fique apenas nos ‘historialistas’ da moda, tente ler os clássicos da sociologia (Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Antonio Candido, Celso Furtado, Paulo Freire, Caio Prado Júnior). Tire um tempo para ler os epistemólogos (Imre Lakatos, Paul Feyerabend e Thomas Kuhn). Se sobrar uns minutinhos, dê um pulo na literatura sobre linguística (Saussure, Chomsky, Pêcheux, Pinker, Austin, Searle).  

Eu vi que você leu Dostoiévski e que gostou. É isso! Mais Dostoiévski e menos revista Time.  

Sobre os índices de intenção de voto dos candidatos do PT, uma palavrinha: não é assim que se faz análise de cenário eleitoral, querido. Nesse universo, a gente costuma usar a palavra ‘tendência’. ‘Viés’. Eu sei que você sabe disso. Mas permita-se saber um pouco mais: o PT foi, é e continuará sendo o partido mais atacado pelo jornalismo tradicional e pelos players do mercado financeiro no Brasil. Esse é um pressuposto básico para analisar performance de intenção de voto.  

Lembre, ainda, que Fernando Haddad - em quem você votou no segundo turno em 2018, salvo engano - tinha 3% de intenção de voto nesse mesmo momento nas eleições de 2012, que, posteriormente o consagraram como prefeito (que viria a ser o melhor prefeito do mundo na premiação anual insuspeita da Bloomberg em 2016 - um ‘petista’ ganhar prêmio de melhor prefeito do mundo de uma fundação com viés neoliberal é um feito real, não um mero aliciamento do mercado e do sistema).  

Enfim, você foi criticado pela precariedade de sua análise, aproveitou para se fazer de vítima e usou a oportunidade para conquistar mais seguidores via apelo emocional. Não deixa de ser inteligente, prático. É um ganha-ganha, não? Mesmo errando, você “acerta”. Muito bom.  

Mas, prejudica sua ‘busca pessoal por conhecimento’, se é que você ainda tem uma.  

Permita-me dizer, caro Felipe: a despeito de tudo isso, eu ainda vejo integridade nas suas movimentações por autoconhecimento. Sei que você sofreu, que você se deprimiu, que você tem origem humilde, que você tem bom coração. 

O que eu poderia dizer para você, de posse do meu respeito pelo outro, é: se imponha. Vença de uma vez esse preconceito com relação à esquerda, ao PT. Supere isso (e faça rápido, porque o cenário está mudando).  

Eu sei que você fez uma live - belíssima - com Marcelo Freixo. Assisti e gostei. Mas você pode ser mais interessante do que isso. Freixo é uma espécie de salvo-conduto para quem quer ser de esquerda mas ainda tem medo. Supere! Faça uma live com Lula, com Haddad, com Dilma.  

Coragem, garoto! 

Não tente agradar a grande imprensa. Não tente jogar em dois lados da história, no da civilização e no da barbárie. Não se deixe seduzir pelo falso ‘status’ de figurar nas manchetes de um ‘grande jornal’. Isso se tornou um protocolo nocivo à qualquer imagem pública - se o parâmetro forem os setores verdadeiramente democráticos.  

Você tem autenticidade. Use-a. Não precisa dessa injunção precarizada e ultrapassada dos setores da contemporização pública também chamada de ‘frente ampla’. É em função deles que fomos levados a Bolsonaro.  

Conceda-se o benefício de duvidar de si - leia Foucault. Esse é o princípio básico de um bom pesquisador e de alguém realmente interessado em descobrir algo novo dentro da sua própria história.  

Arrisque mais. Você pode.  

Com um abraço fraterno, 

Gustavo Conde

 

 

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