Carta aberta à Igreja cristã brasileira, sobre a morte de Ághata Vitória

A necropolítica implementada pelo Governador do estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, está sendo responsável pela morte de dezenas de inocentes. Entre eles, crianças. Meninos e meninas pobres, em sua maioria pretos, moradores de áreas economicamente menos favorecidas, estão sendo exterminados por uma política de segurança pública, que tem por objetivo matar criminosos, independente dos inocentes que possam ser atingidos e mortos em tais operações. Acredito que os senhores estejam cientes disto.

Caríssimos,

Eu, como católico, de família católica, que fui músico na Igreja, que fui regente de coral infantil e coordenador de grupo de música da minha paróquia, sinto-me à vontade, guardado o devido respeito, para fazer-lhes um questionamento em forma de desabafo, sobre o que vem acontecendo no país, principalmente, no Rio de Janeiro, e que, talvez, exigisse um posicionamento das lideranças cristãs.

A necropolítica implementada pelo Governador do estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, está sendo responsável pela morte de dezenas de inocentes. Entre eles, crianças. Meninos e meninas pobres, em sua maioria pretos, moradores de áreas economicamente menos favorecidas, estão sendo exterminados por uma política de segurança pública, que tem por objetivo matar criminosos, independente dos inocentes que possam ser atingidos e mortos em tais operações. Acredito que os senhores estejam cientes disto.

Em tempos idos, a Igreja, como estado e em nome de Deus, também cometeu excessos que levaram milhares de pessoas a perderem a vida. Sem falar, dos momentos em que se omitiu diante de governos injustos, cruéis e assassinos, que, quando não matavam, oprimiam a existência e a dignidade humana. Contrariando o dito popular, tais águas passadas parecem que continuam a querer mover os moinhos do sistema, quando observamos o silêncio da Igreja cristã brasileira e de seus principais líderes, diante da nova barbárie imposta.

Rogo aos digníssimos, que analisem com cuidado tal política e examinem-se a si mesmos, fazendo um mea culpa, talvez, por sua tão grande culpa, ao se calarem ou omitirem-se diante da morte de crianças pobres e inocentes, que não tiveram a oportunidade de desfrutar a vida, como a maioria dos senhores e de nós, membros da comunidade cristã, que pela misericórdia divina estamos conseguindo sair ilesos às munições letais do estado. Não me entendam mal, não me queiram mal, mas, eu não consigo entender como os senhores, pregadores da palavra de Deus, conseguem celebrar suas missas e cultos, sem dor na alma e na consciência, por não manifestarem pública indignação contra a violência legitimada, e, que assim como na era medieval, usa o nome de Deus como escudo sob o pretexto de estabelecer a ordem.  

Respeitosamente, agora me dirijo diretamente aos Padres Marcelo Rossi, Fábio de Melo e Padre Paulo Ricardo (que já fez sermão instigando gritos de: "Mito! Mito!" dentro do salão paroquial) e também a outras lideranças católicas midiáticas, para perguntar se os senhores não dirão nada sobre a morte de mais uma criança, vítima da política de extermínio do Governador Witzel, que, por ironia do destino, contou com o apoio de Dom Orani Tempesta, Arcebispo da arquidiocese do Rio de Janeiro (que nos últimos dias celebrou uma missa para as vítimas do incêndio no hospital Badim, na Tijuca, bairro de classe média e alta da cidade) durante as eleições?

Com o mesmo respeito, me dirijo às lideranças evangélicas para perguntar-lhes: e aí varões e varoas de Deus?  Vocês não falar nada? Nenhuma nota de pesar, nenhuma reflexão proposta, nenhuma menção? Será que a Igreja voltou aos tempos idos do silêncio diante das injustiças? Será que o Cristo, o qual os senhores representam, ficaria em silêncio diante da morte bárbara de mais um de seus pequeninos? Não foi ele quem pediu para que eles fossem protegidos, pois só herdaria o reino dos céus quem tivesse a pureza de uma criança? Não foi ele, que foi crucificado por se opor às práticas injustas e perversas dos governantes de seu tempo? Será o silêncio de vocês está de acordo com a ideologia que Jesus Cristo pregou?

Não querendo apontar-lhes o dedo, como vocês costumam fazer contra quem não pensa como vocês, mas eu vi lideranças cristãs estimulando o gesto de fazer arminha com a mão dentro da Igreja. Fiquei pensando naquele versículo que diz que não devemos adorar a dois senhores. Como é possível fazer um gesto que remete a morte, adorando a um Deus que deseja que todos tenham vida plena e abundante? Não estou julgando ninguém, apenas gostaria de entender, se você conseguirem me explicar. Lembro-me também, que durante a marcha para Jesus, o sinal de arminha com a mão foi repetido no palco do evento, como um gesto de congraçamento entre os líderes religiosos e o público ali presentes. Perdoem-me, mas, por um momento blasfemei e tive a certeza de que Jesus, se estava presente, retirou-se e foi sentar-se numa calçada qualquer da Av. Paulista, para desabafar com um morador de rua qualquer, desses que alguns de nós costumamos ignorar a existência, sobre a sua decepção com os cristãos.

Fiquei pensando, até quando, continuaremos erguendo as mãos e dando pulinhos "de dois em dois", feito animaizinhos adestrados, para glorificar a Deus, deixando de estender as mesmas mãos para os que sofrem e morrem, injustamente, como Jesus sofreu e morreu? Eu sempre entendi, que Deus quer os cristãos ao lado dos pobres, marginalizados e injustiçados, e não sendo omissos e coniventes com aqueles que lhes impõem tais condições. Me corrijam, se eu estiver errado. Afinal, eu não recebi a mesma unção divina e nem tenho a mesma proximidade com Deus que os senhores têm. É que eu li na Bíblia, que o apóstolo Paulo disse que não devemos nos conformar com as coisas deste mundo. Acredito que ele estivesse se referindo às injustiças praticadas em nome da lei e da ordem. Uma ordem que costuma favorecer os mais ricos, em detrimento dos mais pobres. Promovendo a miséria e a desigualdade social.

Termino esta missiva, na esperança de que os senhores venham a público fazendo uso de argumentos baseados no cristianismo que pregam e que receberam como missão de Deus, para mostrar à nossa sociedade que Deus não está ao lado de quem apoia a tortura ou qualquer outra política que não respeite e valorize a vida humana acima de tudo. Porque Deus é vida, amor, perdão, harmonia, fraternidade, igualdade, solidariedade e justiça. Me corrijam, se eu estiver errado mais uma vez. Como Deus está sempre falando com vocês, imagino que ele deva estar lhes preparando para agirem no momento certo e oportuno. Eu, como sou um pobre pecador, fico ansioso e imaginando que já era hora de os senhores quebrarem o silêncio e condenarem, da mesma forma que Jesus condenou a hipocrisia dos fariseus, essa política genocida e sanguinária que está estabelecendo-se por aqui.

Eu sei que o tempo de Deus não é o nosso, não é verdade? Mas, novamente eu acabo por blasfemar, pensando que os senhores estão deixando de cumprir a vontade de Deus, ficando em silêncio. Talvez, por saber que tantos outros inocentes já morreram ao longo da história, e por duvidar se Deus ainda não os liberou para agirem, falando a verdade e condenando a violência de um estado que se opõe a tudo aquilo que Jesus Cristo nos ensinou ou se os senhores estão com receio de fazer clara oposição às injustiças e ficarem mal na fita com alguns de seus seguidores. Com certeza, isto é mais uma blasfêmia da minha parte. Afinal, os ungidos de Deus jamais se renderiam aos poderes do mundo, pois o seu compromisso é com a verdade de Deus. Doa a quem doer.

Despeço-me, saudando a todos com a paz de Cristo. Do Cristo que não faz distinção de pessoas, que não se comove seletivamente e que deseja um mundo justo, fraterno, sem violência e igual para todos. Ou seja, o mesmo Cristo que os senhores representam aqui na terra. Me corrijam, se eu estiver enganado.

Saudações! 

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