Carta aberta a Rodrigo Vianna, após ler o livro "De Lula a Bolsonaro"

"Vou repetir aqui para você o que costumo dizer para o Luiz Carlos Azenha: vou morrer seu amigo", escreve Marco Aurélio Mello para Rodrigo Vianna

www.brasil247.com - Rodrigo Vianna
Rodrigo Vianna (Foto: Felipe Gonçalves)


Por Marco Aurélio Mello 

Conheço você, Rodrigo Vianna, desde os tempos em que era aquele zagueiro troncudinho do time de futebol infantil do Ipê Clube. Você era duro, mas leal, ia na bola, nunca na perna do adversário. Talvez fosse essa uma exigência do técnico, Geraldinho (seu pai). Como eu não era craque, passei boa parte do tempo no banco observando nosso lateral em campo.

Só fui reencontrá-lo muitos anos depois, na TV Globo, na sede da Praça Marechal Deodoro. Confesso que não o reconheci de imediato. Repórter com passagens pela Folha e pela TV Cultura, você mostrou outra qualidade fora dos gramados: a memória.

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Estávamos num aniversário de crianças, com os nossos filhos pequenos, e você se lembrou daquele ponta direita que, admito, só entrava nos 15 minutos finais do segundo tempo.

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Dali em diante passamos a jogar juntos, no telejornalismo. Reportagens, entradas ao vivo, transmissões e coberturas. Na telinha você tinha saído da defesa para jogar no ataque. Eu, ao contrário, tinha me especializado em ficar na retaguarda, ambos, sem entradas maldosas, sempre na bola. Só que a TV para nós, longe das utopias e da ética, era futebol de várzea, vale-tudo.

E no jogo sujo, no tapetão, os inescrupulosos sempre levaram vantagem: na escalação, nos vestiários e na cartolagem. Ainda assim, como na mitológica jornada do herói, foi você quem acusou a patifaria e começou a organizar a resistência interna, já no início de 2006. Por isso, o país deve a esse zagueiro-atacante a fiscalização do processo eleitoral daquele já longínquo ano. Claro que, não fossem o Azenha, o Dorneles e em menor medida o Chico Pinheiro, o José Roberto Burnier, a Mariana Kotscho e, sem modéstia, eu, não daria para por todo o time em campo.

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Nossa peleja era: "a gente não é contra dar a notícia, qualquer que seja ela, boa ou má. A gente é contra noticiar apenas um lado." Estava lá, refletido em nosso manifesto público, um dos pilares do bom jornalismo que juramos seguir. Mas sair derrotados ao final do processo eleitoral foi inaceitável, não só para o PSDB e seu candidato, mas principalmente para os Irmãos Marinho, "que não têm nome próprio." E, assim, fomos perseguidos implacavelmente. Quem não capitulou teve seu pescoço cortado.

Vencemos aquela batalha, mas perdemos a guerra depois, como você profetizou em 2010. A extrema-direita lacerdista foi capaz de se organizar e impor seus métodos, desleais, desonestos, canalhas. Mente quem diz que o bolsonarismo é cria do PT. O bolsonarismo é cria da Globo! É cria do Serra, do Aécio, do FHC e do PSDB! Quando acuso a TV Globo, por extensão, acuso também um sem-número de profissionais pelos quais eu me recuso ter qualquer empatia.

A profecia de 2010 que se cumpriu está lá impressa, para todo mundo ler em seu livro: "a médio prazo, a equação pode não fechar para a esquerda. Isso ficou claro na campanha dominada por aborto, bispos, padres, pastores e reuniões com milicos de pijama." E, se me permite, pela bolinha de papel transformada depois em facada. 

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Reencontrar-me com a minha história - que é também parte da história do nosso país - no seu recém lançado livro: De Lula a Bolsonaro, Combates na Internet, pela Editora Kotter, é um prazer e uma honra. Hoje, eu pendurei as chuteiras e sigo a "profecia" estampada na capa do ex-blog Doladodelá: "não sei para onde minhas escolhas vão me levar, mas é para lá que eu quero ir." 

Nessa minha caminhada nunca fui bom para cultivar amizades. Tenho poucas, mas todas elas muito profundas. Por isso, vou repetir aqui para você o que costumo dizer para o Luiz Carlos Azenha: vou morrer seu amigo. Obrigado.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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