Carta aberta aos imortais das letras

Não sejam vocês (os escritores magnânimos) os imortais fantasmagóricos e invisíveis desta infeliz história. Não sejam peças de museu, reclamem com sua voz ser parte do presente vivo

Carta aberta aos imortais das letras
Carta aberta aos imortais das letras

Os lugares mais sombrios do inferno são reservados para aqueles que mantêm sua neutralidade em tempos de crise moral.

Dante Alighieri

Estimados imortais, se vocês estão animados com a ideia de que se tornaram eternos, antes de se encantar com essa desmedida imaginação, tem primeiro que ser verdadeiros pensadores de seu convulsionado e agitado tempo.

Não comentam o erro de alguns maçons aburguesados que apenas se entusiasmam com a parte lúdica da vida, com cerimônias pomposas e denominações públicas. Desprezem heroicos a adulação e o rito luminoso, e deixem seu exemplo corajoso no bronze para a ingrata posteridade.

Vocês são escritores, você tem o poder denunciador da pena, e a posteridade sempre exige que os narradores e livres pensadores se comprometam com seus estremecidos e angustiantes tempos.

Muitas vezes enquanto você se veste de imortais com esses vestidos brilhantes, custosos e ornamentados, uma criança, no mesmo momento, no sertão do Brasil chora de fome.

Quando vocês se olham no espelho animados para acomodar os punhos. Em algum lugar do Brasil uma mãe solteira recebe uma bala perdida no crânio ou um indigente trabalhador da cana morre sem ter auxílio.

Há pouco tempo, sofremos um golpe de Estado e, depois disso, começou um assalto a quatro mãos.

Um decrépito desleal de pouca iniciativa e vitalidade tomou o poder. Ele é esse tipo de mortal que assusta as crianças com sua presença fantasmagórica, um péssimo poeta de avião. Eu só espero que você não se tentar a lhe dar uma cadeira em sua ilustre academia quando saia sem destino da presidência.

Este traidor de amigos e conterrâneos recebe contatos metódicos com diferentes gestores, como os chefes da Boeing e com os amos da Shell. Ele sempre está predisposto a vender o Brasil na calada da noite a preço de banana. Essas são as coisas que devem fazer a vocês acordarem na indignação estimados imortais.

Vejam os tempos estranhos em que vivemos. Observem o que acontece no universo jurídico. Os alunos do primeiro ano de direito sabem explicar em detalhes porque um julgamento famoso e recente não se baseou na lei escrita e sim na perseguição política. Enquanto muitas autoridades no campo legal estão escondidos por trás dos acortinados da burocracia, para não aventar, não discernir, para não enfrentar o necessário e patriótico debate.

Esses tempos são uma grande oportunidade para o pensamento crítico de vocês, famigerados imortais. Um jantar servido para escritores comprometidos com a vida.

Essa mesa brasileira discute de tudo e de todos. Vocês não podem ficar fora. Até um ator pornográfico mal sucedido se atreve a despontar sua cabeça para defender os interesses dos usurpadores.

Não sejam vocês (os escritores magnânimos) os imortais fantasmagóricos e invisíveis desta infeliz história. Não sejam peças de museu, reclamem com sua voz ser parte do presente vivo.

Nas prateleiras de cedro procurem suas penas, procurem suas tintas e papeis e escrevam. Registrem sua rebeldia como se você fossem uma reencarnação francesa de Diderot ou Voltaire. Tem que assumir compromissos e posições, porque não há escritores sem grandes preocupações e civilizadores vigores.

Os estudantes no futuro exigirão a seus professores de literatura, a posição política que os exímios e bem vestidos escritores tomaram nesta crise histórica.

Estimados imortais, não apostem, não aspirem a querer se reunir na morte no lugar mais escuro e mais reservado do inferno de Dante.

Salvem suas almas!

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