Carta aberta aos racistas

Até quando vocês continuarão nos observando com suas caras malfazejas, cuja fisionomia, quando não expressa vossa suspeição sobre nós, tenta nos sugerir que não deveríamos estar naquele lugar ou que aquilo não foi feito para o nosso desfrute?

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Estúpidos,

Tendo em vista a perseguição racial histórica que os seres humanos de minha etnia sofrem por parte de vocês, escrevo-lhes esta carta aberta com o intuito de fazer-lhes algumas ponderações e questionamentos a respeito da ignorância que pontua vossas ações e que me parece ser inerente ao caráter apodrecido de vossas senhorias, possivelmente herdado de seus antepassados. Apesar da enorme e dolorosa indignação que me consome, não irei me alongar.

Talvez seja apenas uma impressão pessoal minha, mas tenho observado que as manifestações racistas nos últimos anos vêm sendo praticadas também como uma espécie de entretenimento. Os últimos acontecimentos, principalmente, nos estádios de futebol, merecem uma reflexão um pouco mais longa e uma resposta mais assertiva. Eu, particularmente, fico me perguntando que tipo de ser humano pode sentir prazer humilhando a existência do outro?

Confesso que em certos momentos penso que é inútil lutar contra algo tão desonesto, pouco inteligente, ilógico e sem o menor fundamento. Seja ele moral, ideológico, social, ético, humano ou baseado em qualquer outro ínterim comportamental, que possa ser produzido pelo inconsciente coletivo. Eu já cheguei à conclusão de que tentar combater o racismo ou qualquer outro tipo de comportamento preconceituoso utilizando-se de uma retórica didática, baseada em argumentos históricos, fatores sociais ou apelando para o senso de humanidade de vossas senhorias é o mesmo que tentar convencer a um serial killer de que ele deve parar de matar, ensinando-lhe o mandamento da lei de Deus que proíbe tal prática.

Tanto vocês quanto qualquer outro tipo de assassino não estão preocupados com leis (sejam elas divinas ou terrenas) ou com qualquer outro tipo de virtude humanitária. Sua vontade de violentar a nossa natureza humana e a nossa liberdade transcende os limites do desrespeito e da incapacidade de adequar-se a um ambiente social diverso e civilizado. Não posso deixar de lembrar que vocês possuem um “habeas corpus” definitivo, concedido pela estruturação da nossa sociedade, que, ao longo dos tempos, sempre foi socialmente injusta e racialmente seletiva.

São inúmeros os casos, nos quais ficamos expostos à orgia egóica, a falta de educação, a violência e à podridão contida em vossas atitudes. Desde o preto morto por um “mata leão” do segurança do supermercado, ao jogador de futebol agredido na sua honra por milhares de torcedores adversários. Há quem relativize ambas as situações. Esses tais, ainda que não tenham percebido, são cúmplices de vocês nessa jornada supremacista branca, que os levará, com perdão da expressão, à porra nenhuma.  Ou ser racista os eleva a algum tipo de status quo ou lhes conferem algum título de nobreza?

O árbitro de futebol que expulsou do campo de jogo um de nossos irmãos, por ele ter se revoltado e respondido às injúrias raciais direcionadas contra ele, faz parte dessa claque relativista, que entende que o ofendido deve relevar o seu agressor, e, dessa forma, permitir que vocês racistas, sigam intrépidos e impunes em sua caça lúdica e predatória à nossa raça. Alguns de vocês, ainda nos acusam de não termos calma o suficiente para lidar com tal situação. Não acho que tenha nos faltado calma, nas últimas centenas de anos. Até que temos lidado bem, com toda essa estrutura social que sempre nos excluiu dos melhores espaços, negou-nos oportunidades iguais e nos submeteu a uma invisibilidade representativa, que pode ser percebida a olho nu, por qualquer um que não faça parte da turma de vocês.

Mas será que o seu racismo tem mesmo justificativa? Será que apenas por ter a cor da pele diferente da sua, alguém merece ser subjugado? Se esta carta chegar a um bom número de racistas – O que não é improvável. Afinal, racista é igual é formiga. Tem em todo lugar – peço que parem e reflitam sobre o seu preconceito. De onde ele veio? Quando foi que você se descobriu racista? Como o seu preconceito se desenvolveu? Do que ele se alimentou durante todo esse tempo? Qual a lógica da sua existência? Ele faz com que vocês sintam-se mais felizes? Qual o nível de prazer e de satisfação pessoal, que o seu ser racista lhe proporciona? Algum de vocês poderia me dar esse feedback?

Não vou nem perguntar se vocês gostariam de serem tratados da mesma forma injuriosa e indigna, pois já sei sua resposta. Por se acharem superiores e terem a seu favor um “mainstream” racial que sempre os privilegiou, é óbvio que vocês nem devem cogitar a possibilidade de sofrerem por tais agruras, não é verdade? O preto aqui só quer saber de vocês, o que realmente passa por vossas cabeças, ao acharem que têm o direito de ofender a minha origem, a minha essência e a minha natureza? Vocês acham mesmo que podem e devem se divertir às custas da cor da minha pele e das minhas características étnicas?

Até quando vocês continuarão nos observando com suas caras malfazejas, cuja fisionomia, quando não expressa vossa suspeição sobre nós, tenta nos sugerir que não deveríamos estar naquele lugar ou que aquilo não foi feito para o nosso desfrute? Até quando iremos tolerar os seus olhares de desprezo, superioridade, arrogância e indiferença, diante da nossa presença? Até quando nossa mão preta, por obra do acaso, esbarrar em vossas faces insuportáveis? Ou devemos seguir esperando, passiva e educadamente, que um dia vossas excelências supremacistas passem a nos enxergar com igualdade e nos ofereça o mesmo respeito que gostam de receber?

Até lá, respeitosamente, mando-lhes irem ao raio que vos parta. Pois não toleraremos mais os vossos cretinos desatinos. Agradeçam-nos, por estarmos exigindo apenas justiça. Pois, se quiséssemos vingança, vocês não iriam suportar o que sobreviria a vossas cabeças. Nossa resistência sempre foi mais digna do que vossas atitudes. Nossa cor sempre foi mais pura do que a alma que habita vossos corpos. Nossa existência sempre foi mais limpa do que o obscurantismo que permeia vossos pensamentos a nosso respeito. Realmente, não somos iguais. E, talvez, nunca sejamos. A não ser que vocês revejam os valores que têm como humanos e de bem.

Sem mais!

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