Carta aberta de um pastel de feira para Rosângela Moro

Até o João Dória demonstrou um pouco menos de pavor em manter contato com a nossa iguaria

www.brasil247.com - Rosângela Moro comendo pastel em campanha
Rosângela Moro comendo pastel em campanha (Foto: Reprodução)


Prezada,

Há muito tempo vimos suportando a falsidade e o fingimento de políticos brasileiros, que só lembram que nós existimos em época de eleição. Fingem ter apreço pela nossa massa, pelo nosso recheio e pelo nosso sabor popular, mas jamais seriam de capazes de nos incluir no projeto gastronômico de vossas famílias. Usam a nossa imagem e a nossa identificação com a população para transmitir a ideia de que são humildes, e depois nos vomitam na primeira latrina que encontram pela frente. Pronto, falei!

Foram muitas as situações as quais fomos digeridos a contragosto, com desprezo, repulsa e ânsia de vômito, porém, devo confessar que o jeito com que vossa senhoria reluta para comer um dos nossos, excede todos os limites do desespero para conquistar o voto dos mais pobres. A começar pela maneira como a senhora morde o nosso companheiro. Parecia a Michelle beijando a boca do Bolsonaro e fazendo um sacrifício para não cuspir. Que antipatia. Até o João Dória demonstrou um pouco menos de pavor em manter contato com a nossa iguaria.

Não vou me estender muito nessa massiva, digo, missiva, porque dentro de instantes estarei sendo saboreado por alguém que sabe valorizar o meu sabor e a minha tradição. Apenas quero deixar claro uma coisa. Se você pensa que o nosso recheio é de papelão, não vá pensando, pois não é. Ele é melhor do que o seu, que é temperado com o preconceito da elite brasileira e uma pitada de nojo contra os mais pobres. Nos respeite, dona Rosângela! Nós somos a delícia da feira de domingo. Nós temos mais carisma do que o seu “conje” e teríamos mais votos do que os dois juntos se disputássemos as eleições.

O seu desespero em se livrar logo do nosso irmão pastel era tanto, que a senhora nem percebeu que atrás da sua arrogância elitista havia uma mulher em condição de vulnerabilidade revirando o lixo. Talvez, a procura dos restos de algum de nós para saciar a fome. Fome que a senhora nunca sentiu, nunca saberá o que é sentir, e, por isso, pode se dar ao privilégio de fazer carinha de nojo para nós. Um alimento que milhões de brasileiros gostariam de estar comendo neste momento mas não podem, por culpa do governo que a senhora ajudou a colocar no poder.

Encerro esse desabafo dizendo que a senhora subestimou a nossa capacidade de eleger um candidato. E digo mais. Após as eleições, a senhora e seu “conje” estarão mais fritos do que eu estarei daqui a pouco. Porque ninguém faz aquela cara para comer um de nós e fica impune. Quem não gosta de pastel de feira, não pode representar o povo. Ainda que vista um boné para parecer “maloqueira”. Sobre o seu pedido de desculpas por não ter visto a mulher revirando o lixo enquanto você agonizava fingindo gostar do que estava comendo, ele é tão sincero quanto o seu apreço por nós pasteis. É o retrato de uma elite colonialista e tosca, que produz e despreza o sofrimento dos menos favorecidos.

Parem de fingir que gostam de mim. Eu sou um pastel, mas tenho consciência de classe.

Passar bem!

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