Carta ao militante Lula

Presidente Lula, escrevo reafirmando toda minha solidariedade e desejo de que você não fique mais nenhum dia privado de liberdade. É o que te desejo de militante pra militante

Carta ao militante Lula
Carta ao militante Lula (Foto: Ricardo Stuckert)

Presidente Lula, escrevo reafirmando toda minha solidariedade e desejo de que você não fique mais nenhum dia privado de liberdade. É o que te desejo de militante pra militante.

Meu nome é Rodrigo Francisco dos Santos e sou físico pesquisador com mestrado em física pela Universidade Federal Fluminense. Sou filho de uma doméstica com um eletricista, nascido e criado na cidade de São João de Meriti na Baixada Fluminense. Meu pai viveu a maior parte de sua vida desempregado, situação que sempre dificultou enormemente minha formação. Mesmo assim, fiz duas graduações: astronomia e física. A primeira não pude terminar, era o governo FHC e a Lei da Responsabilidade Fiscal reduzia os investimentos em assistência estudantil.

Só no seu governo, e graças a luta do movimento estudantil, que a UFRJ aplicou algumas políticas de permanência e assistência, o que me permitiu terminar minha graduação. Ingressei no mestrado na UFF e nossas bolsas de pós graduação, espremidas pela continuação da LRF, não tinham se recuperado da década perdida de FHC. O que me levou a lutar junto com a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) por reajustes das bolsas. De forma que minha própria formação é resultado da luta dos trabalhadores brasileiros na construção de seu partido tanto chegando ao governo, quanto nas lutas estudantis que participei e me levaram a minha filiação ao PT.

Ao longo de todo esta luta, uma coisa que notei desde cedo, foi a hostilidade das instituições universitárias, mesmo públicas, às nossas demandas. Parte significativa do corpo docente coloca os seus títulos a serviço do paradigma mercadológico e seus preconceitos "meritocráticos", não entendendo que a inclusão dos mais pobres não é beneficial somente aos mais pobres, mas ao conjunto da nação. Ao longo de toda a graduação sempre estive a ponto de perder meus benefícios assistenciais por estar envolvido com o DCE e a luta dos estudantes, contudo, sem desistir de lutar, foi possível reverter nas instâncias superiores essas investidas de um grupo de meus professores.

Como morador de periferia também sempre tive grande desconfiança do aparato repressor do Estado, que nunca conseguiu esclarecer, por exemplo, o assassinato do meu vizinho e companheiro, o sindicalista Anderson Luís. Seu assassinato, em 2006, já no seu governo, permanece sem solução, o que me levou a concluir que o PT governar nos marcos das atuais instituições herdadas da ditadura militar e intocadas pela constituição de 1988 ainda deixa os mais pobres e pretos sem direito a vida e a justiça.

Porém, depois do golpe, tudo está muuuuito pior. Em 2016, quase simultaneamente à deposição sem crime de Dilma, fui expulso do doutorado na UFF por argumentos produtivistas que não se sustentam, pois publiquei um artigo 6 meses antes da data prevista para a defesa. Como não poderia deixar de ser, recorri às instâncias superiores, mas desta vez, elas apenas ratificaram as posições do colegiado do programa, mesmo que eu tenha evidências de assédio moral por meu orientador, que sempre rejeitou minha ação junto a ANPG.

Na "academia" o obscurantismo tem avançado. Os mesmos dirigentes do programa de pós graduação em física da UFF, que sempre "pedalaram" para manter a nota 6 da CAPES no programa de física da UFF, abriram mão de um artigo classificado como B2 no QUALIS e também de uma tese que já está escrita e contém descobertas matemáticas sobre um modelo geométrico de interpretação do Universo a partir da teoria da Relatividade Especial Simétrica. O próprio processo da minha exclusão, deixou uma bolsa ociosa no programa, que acabou sendo sequestrada pela CAPES do governo golpista logo após a queda de Dilma.

Considero o processo que aconteceu comigo, numa outra escala e impacto, análogo tanto ao impeachment comprado, quanto a esta conspiração judicial chamada lavajato. As provas foram completamente desconsideradas e as convicções foram a base das sentença que aplicaram a você e a presidenta Dilma, assim como a diversas lideranças petistas e, tem se estendido aos militantes de base do PT, como eu e muitos outros companheiros e companheiras das mais variadas formas. O que me permite concluir que há, por conta das atuais instituições do Estado uma verdadeira perseguição ao PT, suas lideranças e seus militantes. Em todos os casos, bloqueando a via para o desenvolvimento industrial e científico de nosso país de forma soberana.

Os mesmos que se beneficiam do atraso do país, se aproveitam do atual clima de terror e perda de direitos para iniciar uma verdadeira perseguição contra os que resistem a seus planos. É o que se vê no aumento vertiginoso da demissão de sindicalistas, como na Nestlé no Rio de Janeiro, unidade na qual Anderson trabalhava e que teve 3 sindicalistas demitidos só no último mês. Mas não é só na iniciativa privada: Na Eletrobras, na Petrobras, na Embrapa já foi iniciada uma verdadeira caça às bruxas a petistas e ativistas.

Companheiro Lula, a cada dia que você permanece preso, mais aumenta a rejeição da maioria da população às instituições políticas, jurídicas e de segurança de nosso país. Na contramão desta tendência, milhares se filiam ao PT. Porque o povo, mesmo que tentem manipulá-lo, tira suas conclusões de sua própria experiência. Como acreditar nas atuais instituições apodrecidas se elas não fazem o que dizem que fazem? Como acreditar que as polícias militares devem assegurar segurança, se a PM aterroriza e leva tiroteios aos dia a dia das crianças nas favelas, muitas vezes matando-as, como recentemente aconteceu com Marcus Vinicius no Rio de Janeiro? Como acreditar que as instituições políticas emanam do povo, se o partido que o povo quer no governo é impedido de governar através de fraudes políticas e jurídicas?

Como militante que luta pela sua liberdade e pelo seu direito de governar o Brasil, como quer a maioria da população, não posso me conformar com as injustiças. Escrevo esta carta com otimismo que vamos libertá-lo, pois vejo crescendo na militância a ideia de que não é mais possível deixar os nossos para trás. Mais e mais militantes tem se dado conta que José Dirceu, Dilma, Marisa, Marielle e muitos outros foram sacrificados pela atual ordem vigente e que, além de libertar você, é preciso que se faça justiça para todos que são vítimas das atuais instituições. E isto também se aplica a mim que continuo lutando para reverter minha exclusão injusta do doutorado e pelo direito dos filhos dos proletários fazerem ciência.

Lutar pelos nossos militantes e pelo povo segue indissociável de derrotar e reverter as medidas do Golpe e, neste caso, derrotar as atuais instituições não só politicamente, mas estruturalmente para que enterremos a herança golpista, violenta, autoritária, racista, machista e antipopular das atuais instituições. Mudanças essas que, a exemplo da Venezuela , só podem ser feitas com uma Constituinte Soberana.

Olhando ainda para a vizinha Venezuela me ocorre que o Golpe não tende a afrouxar no Brasil com eleições livres e sem fraudes. Desde que o governo dos Estados Unidos está por trás do Golpe do Brasil e busca se apropriar do nosso Petróleo, tem se agravado as ameaças a Venezuela, também grande produtora de Petróleo. De forma que o Golpe no Brasil é estratégico para avançar sobre o país vizinho para saqueá-lo também. Sendo assim, ainda que existam setores golpistas no Brasil que possam caminhar para um acordo para libertá-lo porque eles não controlam a situação caótica que criaram, há poucas chances que o imperialismo estadunidense recue aceitando um governo do PT no Brasil no atual cenário mundial. Tal situação e a falência das instituições políticas brasileiras me faz acreditar que a saída política via eleições pode estar bloqueada no Brasil.

Por outro lado, o PT continua sendo o legítimo mandatário da presidência da República e a cada dia de golpe mais brasileiros são perseguidos, assassinados, perdem seus empregos e direitos.

Todos os sacrifícios e militantes que ficaram pelo meio do caminho foram um preço alto demais e não serviu nem para evitar que você fosse preso, ao contrário. A ausência de mobilização em defesa do PT no caso da condenação de Dirceu abriu caminho para o impeachment de Dilma, e a falta de reação e luta para reverter o impeachment pelo PT, por sua vez, abriu caminho para sua própria prisão.

Companheiro, estou entre aqueles que lutam para que este golpe e a sua privação de liberdade não durem nem mais um dia. Tenho convicção que este é o desejo da maioria do povo brasileiro e a cada dia que converso com os militantes e com a população nas panfletagens e atividades militantes, acumulo provas que a maioria não quer seguir a vida como se não houvesse golpe.

Tomei a liberdade de escrever-lhe e dividir minhas experiências e reflexões com você pois vejo a hesitação em setores de nosso partido e da esquerda em geral que, para defender seus privilégios individuais sustentados pelas instituições políticas e sindicais atuais, cogitam deixá-lo, também, pra trás – até mesmo eleitoralmente! Por isso achei que poderia interessá-lo uma voz que vem de baixo destas estruturas reassegurando a você, companheiro, que o projeto iniciado no fim da década de 70, em São Bernardo, vive. Os trabalhadores brasileiros construíram o PT e também experimentaram os limites de jogar o jogo no terreno dos inimigos, por isso a cada dia que passa, as novas gerações de trabalhadores tomam consciência de que virar este jogo é uma necessidade de sobrevivência.

Aproveito, companheiro, para lhe fazer algumas perguntas que aparecem no meu diálogo com outros militantes que também lutam pela sua liberdade imediata: Um governo do PT, apoiado numa grande mobilização para a anulação do impeachment, não poderia reverter esta situação dramática em que o país se encontra agora e não mais adiar uma solução para depois de eleições que, ao que tudo indica, serão fraudadas? Se o PT foi tirado da presidência por vias não eleitorais, porque colocar todas as nossas fichas na volta para a presidência via eleições? O povo colocou o PT na presidência e sempre odiou o golpista Temer: A vontade do povo não está clara já? Porque esperar as eleicões, então, e não lutar para que se anule o impeachment desde agora? O PT reassumindo a cadeira da presidência, que é sua, não poderia ser o caminho mais curto para sua libertação? Não poderia, então, você voltar a governar junto com Dilma para passar o país a limpo de toda herança golpista? Não estamos, como petistas, atrasados historicamente ao assumir o risco de termos nossos destinos decididos por instituições antipopulares e anti-PT, quando o povo já decidiu que é do PT à presidência da república?

Se conseguiremos anular o impeachment e todas as medidas golpistas ainda este ano ou no futuro não é possível dizer, mas uma coisa posso assegurar, a militância de base está impaciente e não está errada. Não faltará apoio popular a um chamado seu de luta, agora, para derrotar o golpe e tirar você de Curitiba e o levar para Brasília, subindo a rampa do planalto como emanação do poder do povo e com o povo decidir que instituições devem existir e como devem funcionar.

Companheiro, você deve estar me achando um otimista. Mas sempre me inspirei em otimistas que nem você e desde criança sonho em entender o universo assim como fizeram outros cientistas que admiro, como Einstein e Hawking. Se, com tudo a minha volta me dizendo que por ter nascido na família que nasci, eu não tinha este direito, e eu ainda não desisti, é porque nós, que não temos muitas oportunidades, precisamos mesmo de muito otimismo para lutar nos nós mesmos.

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