Carta ao Povo de Deus: uma sinuca para a CNBB

Colunista Marcelo Auler repercute a carta de 152 bispos contra Jair Bolsonaro, mas faz um alerta: segundo cálculo de um religioso para o seu blog, "de 10 a 20% dos bispos e uma proporção maior (talvez 35%) dos padres católicos brasileiros não só apoiam Bolsonaro como apoiam o governo atual e defendem mesmo o ódio, a intolerância e a violência"

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(Foto: Reprodução)


Por Marcelo Auler, em seu blog

A divulgação, na tarde de domingo (26/07), pela coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, da Carta ao Povo de Deus, endossada por 152 bispos – entre os quais o cardeal-arcebispo emérito de São Paulo, dom Claudio Hummes; o bispo emérito de Blumenau (SC), dom Angélico Sandalo Bernardino; o arcebispo de Feira de Santana (BA), dom Zanoni Demettino Castro; o bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM), dom Edson Taschetto Damian; o arcebispo de Belém (PA), dom Alberto Taveira Corrêa; o bispo prelado emérito do Xingu (PA), dom Erwin Krautler; o bispo auxiliar de Belo Horizonte (MG), dom Joaquim Giovani Mol; e o arcebispo de Manaus (AM) e ex-secretário-geral da CNBB dom Leonardi Ulrich – coloca a cúpula da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em uma sinuca de bico.

Idealizado, inicialmente, por alguns bispos entre aqueles que possuem “mais afinidade à dimensão social do trabalho pastoral”, o documento, em poucos dias, ganhou a adesão de boa parcela do episcopado brasileiro. Sua divulgação era prevista para quarta-feira, 22 de junho. Data significativa para a igreja que nela festeja Santa Maria Madalena, considerada a “Apóstola dos Apóstolos”.

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A divulgação, porém, foi adiada, a partir da ideia de apresentar o documento à cúpula da CNBB. “Achamos por bem enviá-la primeiro, com a assinatura de todos nós, ao Conselho Permanente da CNBB, para apreciação e posterior divulgação, com o apoio institucional da Conferência”, explicou ao BLOG, no mesmo dia 22, um dos bispos que aderiu ao movimento pouco após ele ser iniciado. Na mesma mensagem, porém, deixou claro: “A publicação dessa Carta é uma necessidade urgente, porque urgente é a profecia, que denuncia e anuncia, em favor do sofrido Povo de Deus.

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Oficialmente, o Conselho Permanente da CNBB só estará reunido no início de agosto. Havia a expectativa de que a Carta gerasse uma reunião extraordinária. Até domingo, porém, não surgiu nenhuma sinalização neste sentido o que pode ter provocado algum dos participantes a “vazar” o documento à jornalista. O fez, certamente, pensando em pressionar a direção da Conferência. Como a própria Mônica informou, “há um temor entre signatários do documento de que o setor conservador do órgão impeça a divulgação”

No cálculo de um religioso para o Blog, “de 10 a 20% dos bispos e uma proporção maior (talvez 35%) dos padres católicos brasileiros não só apoiam Bolsonaro como apoiam o governo atual e defendem mesmo o ódio, a intolerância e a violência. São, inclusive, contra o papa Francisco”.

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Os percentuais podem não ser estes. Mas, sem dúvida, que a preocupação de não se chocar diretamente com a ala mais conservadora da igreja vem impondo freios à cúpula da CNBB. Ainda que faça cobranças ao governo e se posicione contrária a várias de suas políticas, suas críticas ficam aquém das que foram feitas, por exemplo, durante os anos de chumbo da ditadura militar. Em especial nos anos 70.

Já a Carta ao Povo de Deus é forte. Difere totalmente das notas e pronunciamentos protocolares que a entidade tem divulgado. Marca um posicionamento contundente de uma grande quantidade de bispos brasileiros. Verdade que o episcopado brasileiro tem mais de 400 representantes entre os diocesanos e os eméritos, ou seja, aqueles afastados do dia a dia das dioceses. As 152 assinaturas, porém, tendem a crescer, ainda que encontre algumas resistências.

Confirmando a informação de que há muitos bispos que sequer foram consultados, no domingo à noite o Blog conversou com um que desconhecia o movimento. Na segunda-feira (27/07) ele admitiu, “li, gostei, mas não vou assinar por entender que ensejará perseguição à Igreja”.

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Nos anos 70, documentos marcaram posição da igreja

A história mostra, porém, que o peso político de uma manifestação como esta independe do número de assinaturas que ele traga em seu bojo. Basta lembrar a repercussão, em plena ditadura militar, ainda no governo do general Emílio Garrastazu Médici (maio de 1973), do famoso documento “Eu ouvi os clamores do meu povo“.

Ele não teve, oficialmente, a chancela da CNBB como um todo. Foi assinado por apenas treze bispos e cinco religiosos da Regional Nordeste da CNBB. À frente deles, dom Hélder Câmara (arcebispo de Olinda e Recife), dom José Maria Pires, o dom Pelé, da Paraíba e dom Antônio Fragoso, de Crateús (CE).

Ainda assim, é visto até hoje como um marco do posicionamento da igreja no embate com a ditadura militar, tal como relata a mestra em Ciência da Religião pela PUC de Pernambuco, Maria Alexandra Prado de Oliveira, na sua dissertação de mestrado (2015) “Eu Ouvi Os Clamores Do Meu Povo”: Análise de um Documento Eclesial e suas Repercussões.

Nisso reside a importância da Carta agora divulgada. O mesmo religioso com o qual o BLOG conversou relembrou os documentos do passado ao comentar que a manifestação destes 152 bispos deixa a impressão de que “voltarmos à década de 70 quando bispos do Nordeste e depois também do Centro-Oeste, independentemente da CNBB, fizeram e publicaram dois documentos importantes (“Eu Ouvi os Clamores do meu povo” e “Marginalização de um Povo do Centro“, em 1973/74) contra o modelo de desenvolvimento sem justiça, na época da ditadura”.

Ele ainda acrescenta: “Este tipo de documentos exerce um papel fundamental de provocar reflexão e posicionamento no clero e no povo, e sempre conseguem ser mais claros e fortes do que esperar posicionamentos da CNBB com seus quase 400 bispos que para fazer qualquer documento tem de fazer muitos acordos e concessões. Hoje, penso, nunca será um documento profético”.

Realidade não comporta indiferença

Certamente, para a cúpula da CNBB, que precisa transitar entre conservadores, moderados e progressistas, seria melhor que o documento viesse a público sem passar pelo seu crivo. Tal como os documentos lançados em 1973. Sem obrigá-la a se posicionar, pois agora ela vive uma espécie de sinuca de bico.  Se recuar, poderá ser confundida com o bolsonarismo. Acatando a Carta, certamente receberá críticas do setor mais retrógrado do catolicismo. Não custa lembrar que entre os signatários de primeiro momento está o cardeal-arcebispo emérito de São Paulo, Cláudio Hummes, o bispo brasileiro mais próximo do papa Francisco.

A Carta, que ocupa cinco laudas, tem 18 parágrafos, um total de 185 linhas – algo bem diferente das manifestações sucintas que têm surgido – bate em questões importantes, deixando claro o despreparo do governo para enfrentar as diversas crises que atormenta o país. E conclama “à unidade no respeito à pluralidade”:

“Por isso, propomos um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade, para que seja restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito, com ética na política, com transparência das informações e dos gastos públicos, com uma economia que vise ao bem comum, com justiça socioambiental, com “terra, teto e trabalho”, com alegria e proteção da família, com educação e saúde integrais e de qualidade para todos”.

Entre outros pontos, o documento com as 152 assinaturas deixa claro que:

“O Brasil atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história, comparado a uma “tempestade perfeita” (…) A causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República” (…)

“Somos convocados a apresentar propostas e pactos objetivos, com vistas à superação dos grandes desafios, em favor da vida, principalmente dos segmentos mais vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta. Essa realidade não comporta indiferença” (…)

“As escolhas políticas que nos trouxeram até aqui e a narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal, não justificam a inércia e a omissão no combate às mazelas que se abateram sobre o povo brasileiro” (…)

“Todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador. Assistimos, sistematicamente, a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela COVID-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino, o caos socioeconômico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço” (…)

“Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises. As reformas trabalhista e previdenciária, tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo” (…)

“O sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma “economia que mata” (Alegria do Evangelho, 53), centrada no mercado e no lucro a qualquer preço. Convivemos, assim, com a incapacidade e a incompetência do Governo Federal, para coordenar suas ações, agravadas pelo fato de ele se colocar contra a ciência, contra estados e municípios, contra poderes da República; por se aproximar do totalitarismo e utilizar de expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a democracia, a flexibilização das leis de trânsito e do uso de armas de fogo pela população, e das leis do trânsito e o recurso à prática de suspeitas ações de comunicação, como as notícias falsas, que mobilizam uma massa de seguidores radicais” (…)

“No plano econômico, o ministro da economia desdenha dos pequenos empresários, responsáveis pela maioria dos empregos no País, privilegiando apenas grandes grupos econômicos, concentradores de renda e os grupos financeiros que nada produzem. A recessão que nos assombra pode fazer o número de desempregados ultrapassar 20 milhões de brasileiros” (…)

“Até a religião é utilizada para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes. Ressalte-se o quanto é perniciosa toda associação entre religião e poder no Estado laico, especialmente a associação entre grupos religiosos fundamentalistas e a manutenção do poder autoritário” (…)

O documento foi bem recebido por leigos e religiosos de vários setores da Igreja, em especial os chamados “progressistas”. Estes trataram de divulgá-lo por suas redes sociais, uma vez que nenhum jornal da chamada imprensa tradicional, além da Folha de S.Paulo, noticiou-o. Gerou ainda comentários como um artigo escrito pelo monge beneditino Marcelo Barros – “A volta da profecia na voz dos cuidadores do povo de Deus, onde ele expõe:

  • “Só podemos desejar que estas denúncias claras contra o desgoverno que nos assola possam continuar por posicionamento claro destes bispos sobre os setores da nossa própria Igreja que apoiam esta iniquidade ou simplesmente ao se omitirem nesta hora a legitimam. E que uma porção assim tão significativa do nosso episcopado possa levantar sua voz profética para deixar claro que por trás do feitor que tortura os escravos está o senhor que nem mora no engenho, mas é quem financia e sustenta este sistema”.

“Carta ao Povo de Deus”

“Somos bispos da Igreja Católica, de várias regiões do Brasil, em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em comunhão plena com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que no exercício de sua missão evangelizadora, sempre se coloca na defesa dos pequeninos, da justiça e da paz. Escrevemos esta Carta ao Povo de Deus, interpelados pela gravidade do momento em que vivemos, sensíveis ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja, como um serviço a todos os que desejam ver superada esta fase de tantas incertezas e tanto sofrimento do povo.

Evangelizar é a missão própria da Igreja, herdada de Jesus. Ela tem consciência de que “evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Alegria do Evangelho, 176). Temos clareza de que “a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. A nossa reposta de amor não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados […], uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus […] (Lc 4,43 e Mt 6,33)” (Alegria do Evangelho, 180). Nasce daí a compreensão de que o Reino de Deus é dom, compromisso e meta.

É neste horizonte que nos posicionamos frente à realidade atual do Brasil. Não temos interesses político-partidários, econômicos, ideológicos ou de qualquer outra natureza. Nosso único interesse é o Reino de Deus, presente em nossa história, na medida em que avançamos na construção de uma sociedade estruturalmente justa, fraterna e solidária, como uma civilização do amor.

O Brasil atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história, comparado a uma “tempestade perfeita” que, dolorosamente, precisa ser atravessada. A causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governança.

Este cenário de perigosos impasses, que colocam nosso País à prova, exige de suas instituições, líderes e organizações civis muito mais diálogo do que discursos ideológicos fechados. Somos convocados a apresentar propostas e pactos objetivos, com vistas à superação dos grandes desafios, em favor da vida, principalmente dos segmentos mais vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta. Essa realidade não comporta indiferença.

É dever de quem se coloca na defesa da vida posicionar-se, claramente, em relação a esse cenário. As escolhas políticas que nos trouxeram até aqui e a narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal, não justificam a inércia e a omissão no combate às mazelas que se abateram sobre o povo brasileiro. Mazelas que se abatem também sobre a Casa Comum, ameaçada constantemente pela ação inescrupulosa de madeireiros, garimpeiros, mineradores, latifundiários e outros defensores de um desenvolvimento que despreza os direitos humanos e os da mãe terra. “Não podemos pretender ser saudáveis num mundo que está doente. As feridas causadas à nossa mãe terra sangram também a nós” (Papa Francisco, Carta ao Presidente da Colômbia por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, 05/06/2020).

Todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador. Assistimos, sistematicamente, a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela COVID-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino, o caos socioeconômico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço. Esse discurso não se baseia nos princípios éticos e morais, tampouco suporta ser confrontado com a Tradição e a Doutrina Social da Igreja, no seguimento Àquele que veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises. As reformas trabalhista e previdenciária, tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo. É verdade que o Brasil necessita de medidas e reformas sérias, mas não como as que foram feitas, cujos resultados pioraram a vida dos pobres, desprotegeram vulneráveis, liberaram o uso de agrotóxicos antes proibidos, afrouxaram o controle de desmatamentos e, por isso, não favoreceram o bem comum e a paz social. É insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população.

O sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma “economia que mata” (Alegria do Evangelho, 53), centrada no mercado e no lucro a qualquer preço. Convivemos, assim, com a incapacidade e a incompetência do Governo Federal, para coordenar suas ações, agravadas pelo fato de ele se colocar contra a ciência, contra estados e municípios, contra poderes da República; por se aproximar do totalitarismo e utilizar de expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a democracia, a flexibilização das leis de trânsito e do uso de armas de fogo pela população, e das leis do trânsito e o recurso à prática de suspeitas ações de comunicação, como as notícias falsas, que mobilizam uma massa de seguidores radicais.

O desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia também nos estarrece. Esse desprezo é visível nas demonstrações de raiva pela educação pública; no apelo a ideias obscurantistas; na escolha da educação como inimiga; nos sucessivos e grosseiros erros na escolha dos ministros da educação e do meio ambiente e do secretário da cultura; no desconhecimento e depreciação de processos pedagógicos e de importantes pensadores do Brasil; na repugnância pela consciência crítica e pela liberdade de pensamento e de imprensa; na desqualificação das relações diplomáticas com vários países; na indiferença pelo fato de o Brasil ocupar um dos primeiros lugares em número de infectados e mortos pela pandemia sem, sequer, ter um ministro titular no Ministério da Saúde; na desnecessária tensão com os outros entes da República na coordenação do enfrentamento da pandemia; na falta de sensibilidade para com os familiares dos mortos pelo novo coronavírus e pelos profissionais da saúde, que estão adoecendo nos esforços para salvar vidas.

No plano econômico, o ministro da economia desdenha dos pequenos empresários, responsáveis pela maioria dos empregos no País, privilegiando apenas grandes grupos econômicos, concentradores de renda e os grupos financeiros que nada produzem. A recessão que nos assombra pode fazer o número de desempregados ultrapassar 20 milhões de brasileiros. Há uma brutal descontinuidade da destinação de recursos para as políticas públicas no campo da alimentação, educação, moradia e geração de renda.

Fechando os olhos aos apelos de entidades nacionais e internacionais, o Governo Federal demonstra omissão, apatia e rechaço pelos mais pobres e vulneráveis da sociedade, quais sejam: as comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, as populações das periferias urbanas, dos cortiços e o povo que vive nas ruas, aos milhares, em todo o Brasil. Estes são os mais atingidos pela pandemia do novo coronavírus e, lamentavelmente, não vislumbram medida efetiva que os levem a ter esperança de superar as crises sanitária e econômica que lhes são impostas de forma cruel. O Presidente da República, há poucos dias, no Plano Emergencial para Enfrentamento à COVID-19, aprovado no legislativo federal, sob o argumento de não haver previsão orçamentária, dentre outros pontos, vetou o acesso a água potável, material de higiene, oferta de leitos hospitalares e de terapia intensiva, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea, nos territórios indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais (Cf. Presidência da CNBB, Carta Aberta ao Congresso Nacional, 13/07/2020).

Até a religião é utilizada para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes. Ressalte-se o quanto é perniciosa toda associação entre religião e poder no Estado laico, especialmente a associação entre grupos religiosos fundamentalistas e a manutenção do poder autoritário. Como não ficarmos indignados diante do uso do nome de Deus e de sua Santa Palavra, misturados a falas e posturas preconceituosas, que incitam ao ódio, ao invés de pregar o amor, para legitimar práticas que não condizem com o Reino de Deus e sua justiça?

O momento é de unidade no respeito à pluralidade! Por isso, propomos um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade, para que seja restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito, com ética na política, com transparência das informações e dos gastos públicos, com uma economia que vise ao bem comum, com justiça socioambiental, com “terra, teto e trabalho”, com alegria e proteção da família, com educação e saúde integrais e de qualidade para todos. Estamos comprometidos com o recente “Pacto pela vida e pelo Brasil”, da CNBB e entidades da sociedade civil brasileira, e em sintonia com o Papa Francisco, que convoca a humanidade para pensar um novo “Pacto Educativo Global” e a nova “Economia de Francisco e Clara”, bem como, unimo-nos aos movimentos eclesiais e populares que buscam novas e urgentes alternativas para o Brasil.

Neste tempo da pandemia que nos obriga ao distanciamento social e nos ensina um “novo normal”, estamos redescobrindo nossas casas e famílias como nossa Igreja doméstica, um espaço do encontro com Deus e com os irmãos e irmãs. É sobretudo nesse ambiente que deve brilhar a luz do Evangelho que nos faz compreender que este tempo não é para a indiferença, para egoísmos, para divisões nem para o esquecimento (cf. Papa Francisco, Mensagem Urbi et Orbi, 12/4/20).

Despertemo-nos, portanto, do sono que nos imobiliza e nos faz meros espectadores da realidade de milhares de mortes e da violência que nos assolam. Com o apóstolo São Paulo, alertamos que “a noite vai avançada e o dia se aproxima; rejeitemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz” (Rm 13,12).

O Senhor vos abençoe e vos guarde. Ele vos mostre a sua face e se compadeça de vós.

O Senhor volte para vós o seu olhar e vos dê a sua paz! (Nm 6,24-26).

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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