Carta explosiva da UN Watch acusa Abbas Araghchi e pressiona liderança da ONU
Ao exigir o desconvite do chanceler do Irã, a UN Watch denuncia como deplorável sua presença e ameaça acionar autoridades suíças por crimes internacionais
A carta enviada pela UN Watch ao secretário-geral António Guterres não é um gesto protocolar. É uma interpelação pública, com data e alvo definidos. No texto, a organização afirma textualmente que “chegou ao nosso conhecimento que o Ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, está programado para discursar no Conselho de Direitos Humanos da ONU em 23 de fevereiro de 2026, em sua presença”.
A expressão “em sua presença” dirige-se diretamente a Guterres e transforma o episódio em questão institucional, não apenas diplomática.
A UN Watch é uma organização não governamental sediada em Genebra, fundada em 1993, que se define como independente e dedicada a “responsabilizar a ONU por seus princípios fundadores”. Ao longo das últimas décadas, tornou-se conhecida por denunciar o que considera incoerências do Conselho de Direitos Humanos, especialmente quando Estados com histórico problemático ocupam cadeiras ou recebem tribunas. Seu diretor executivo, Hillel C. Neuer, atua frequentemente nas sessões do Conselho, confrontando delegações e o secretariado.
O centro da controvérsia é Abbas Araghchi.
A carta sustenta que ele foi “implicado em graves violações de direitos humanos, incluindo crimes contra a humanidade”, mencionando “repressão sistemática”, “brutal repressão a manifestantes” e “execuções”. Relatórios recentes de organizações internacionais apontam aumento das execuções no Irã após protestos iniciados em 2022, além de detenções em massa. O governo iraniano rejeita tais acusações, alegando soberania e combate à desordem interna.
A UN Watch afirma que permitir o discurso enviaria “uma mensagem perigosa de que a ONU tolera e dá plataforma a responsáveis por assassinatos em massa”.
Vai além.
Caso o convite não seja revogado, diz que instará as autoridades suíças a promoverem sua prisão “por crimes contra a humanidade”, evocando o Estatuto de Roma. Trata-se de uma escalada retórica com implicações jurídicas complexas.
Outro ponto sensível envolve suposta mensagem de Guterres ao presidente Masoud Pezeshkian no aniversário da Revolução Islâmica. A ONG afirma que o texto teria oferecido “os mais calorosos parabéns” a um regime “notório por seu histórico de décadas de opressão”. Exige a divulgação integral da carta para permitir “escrutínio e responsabilização”.
A controvérsia precisa ser lida à luz da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que proclama, em seu artigo 3º, que “todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”, e, no artigo 5º, que ninguém será submetido a “tortura ou tratamento cruel”. A ONU nasceu para proteger esses princípios, não para relativizá-los.
A tensão não é inédita. O Conselho já enfrentou críticas por incluir países como a Coreia do Norte em debates multilaterais, gerando acusações de contradição moral. A pergunta que emerge não é apenas diplomática. É fundacional.
Pode a ONU manter canais abertos com governos acusados de violações sistemáticas sem comprometer a integridade da própria Carta?
Ao tornar pública sua carta, a UN Watch desloca essa interrogação do silêncio burocrático para o debate global. Que sejamos as vozes dos que não têm voz, porque são estes os condenados da Terra.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
