Caserna vendida

O nome do astronauta Marcos Pontes, tenente-coronel da reserva da Força Aérea Brasileira, é o epitáfio no túmulo do militar nacionalista, essa fantasia que embala a esquerda brasileira há, pelo menos, cinco décadas

Ministro e ex-astronauta Marcos Pontes
Ministro e ex-astronauta Marcos Pontes (Foto: Shamil Zhumatov - Reuters)

O nome do astronauta Marcos Pontes, tenente-coronel da reserva da Força Aérea Brasileira, é o epitáfio no túmulo do militar nacionalista, essa fantasia que embala a esquerda brasileira há, pelo menos, cinco décadas.

A cada tragédia nacional, seja o golpe de 1964, seja o de 2016, há sempre os otimistas que, mesmo acuados num canto qualquer da democracia, bradam suas esperanças nesse Quixote verde e amarelo: o militar nacionalista. Conservador, tosco, grosseiro, rastejante, bitolado, ignorante, violento – mas nacionalista.

Esse herói que pode até consentir a tortura, mas não aprova a entrega da Amazônia aos estrangeiros.

Aceita descer o pau nos estudantes, mas nada de vender a Petrobras.

Cacete nos comunistas? Tudo bem, mas não toquem nas nossas riquezas.

Da redemocratização do País, em 1985, até os últimos dias de Dilma Rousseff no poder, vi muita gente com fé inabalável na existência dessa criatura. Poderia ocorrer de tudo, mas, quando nada mais nos restasse, os militares nacionalistas iriam dizer “chega”, porque esse País poderia se tornar o lixo que fosse, mas sempre seria nosso, dos brasileiros.

Com Bolsonaro, até essa esperança ridícula nós perdemos. Não há nem sombra de nacionalismo nas Forças Armadas brasileiras. O País está sendo desmontado diante deles e com a ajuda deles, representados por esse bando de generais empoleirados em cargos da Presidência da República, atores coadjuvantes dessa ópera bufa que nos tornou uma terrível piada internacional.

Pontes, essa figura cada vez mais roliça enfiada em um macacão da Nasa, poderia ter se tornado, ao menos, um guardião da ciência. A viagem do então tenente-coronel ao espaço, de carona na nave espacial russa Soyuz, custou de 10 milhões de dólares aos contribuintes brasileiros, em 2006. Sorridente, o nosso orgulhoso astronauta plantou feijão no algodão, em gravidade zero, e, na volta, largou a FAB, virou estrela de programas de auditório, garoto propaganda de travesseiros e, finalmente, coach motivacional para trouxas motivados.

Ocorre que o único brasileiro que viu a Terra do espaço aceitou fazer parte de um governo de terraplanistas que acreditam, também sem restrições, que o nazismo era de esquerda – o que, mesmo para um militar disposto a tudo, é um insulto histórico e uma ofensa à luta dos pracinhas, na Itália, durante da Segunda Guerra Mundial.

Agora, Pontes, ministro da Ciência e Tecnologia, vendeu o que restava de sua alma ao argumento de que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mente ao revelar que o desmatamento da Amazônia, em junho, aumentou 88% em relação ao mesmo mês, no ano passado. O fez sabendo ser uma infâmia, em solidariedade a Bozo, um demente obcecado com a própria ignorância, determinado a destruir o patrimônio e a ciência do Brasil.

Não há nenhum militar nacionalista. Estão todos empenhados em se vingar do esquecimento a que foram relegados, depois da ditadura, sabemos, agora, não sem razão. Todos esses anos consumindo recursos do País, mas não sabem nada do Brasil, não entendem nada da realidade brasileira e, em troca de cargos, aceitam fazer parte de uma tragédia nacional sem precedentes em nossa história.

 

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