Cavalo de batalha

A escolha de um vereador tucano para sair em rede nacional travestido de sociedade civil evidenciou o caráter de quem tem a intenção de montar um palanque em cima do caixão de qualquer um a caminho do cemitério

Um tiro no pé. A opção de escolher o ex-militar e vereador Marco Prisco (PSDB) para vir a público e cobrar a apuração das mortes de dois policiais durante a realização de testes físicos na sede do Batalhão da Polícia de Choque da Polícia Militar, em Lauro de Freitas, no último dia 16, soa eleitoral. E a explicação é baseada na experiência de quem conhece a rotina do jornalismo baiano. De uma maneira não declarada, a orientação comum em qualquer redação é não entrevistar parlamentares em fatos relacionados a assuntos fora do âmbito do poder legislativo.

Quem exerce ou já exerceu o papel de assessor de imprensa de algum vereador ou deputado sabe o mar de dificuldades para conseguir driblar esta rígida postura das redações. E conseguir uma entrevista para uma emissora de tevê é algo inenarrável. Contudo, ao longo dos dias, enquanto jornalista, percebi uma enorme facilidade da principal emissora de tevê baiana ignorar o título de vereador do ex-militar Marco Prisco e de uma maneira bastante natural considerá-lo a única fonte confiável e disponível dentro da Associação dos Praças, Bombeiros e de seus Familiares, a chamada Aspra.

A escolha de um vereador tucano para sair em rede nacional travestido de sociedade civil evidenciou o caráter de quem tem a intenção de montar um palanque em cima do caixão de qualquer um a caminho do cemitério. Afinal de contas, não é segredo para ninguém que o principal alvo das críticas da oposição baiana ao governador Jaques Wagner será a segurança pública. O próprio, por sinal, assumiu as deficiências dentro do governo, mas, deixou um recado claro: "Segurança deve ser um dos pratos prediletos da oposição, mas, o povo não julga pelo problema, o povo julga pelo que a gente fez para superar o problema". E Wagner garante ter feito muito, assim como, o governador Geraldo Alckmin, do PSDB, a exemplo de Marco Prisco, vai defender em São Paulo. Ambos fizeram, mas, com estilos e métodos diferentes.

Cinco meses depois de trocar Antonio Ferreira Pinto por Fernando Grella no comando da segurança por conta do crescimento da violência em São Paulo, o governador do PSDB tomou a frente da área ao lançar a proposta que altera o Estatuto da Criança e do Adolescente para permitir punição mais severa a menores reincidentes em crimes graves. Além de a proposta ser estapafúrdia controversa e de haver pouco tempo para que seja votada antes das eleições, Alckmin eliminou qualquer anteparo entre ele e o problema da violência. Ou seja: prefere esquivar-se a assumir o problema.

Por outro lado, o governador do PT não disputa mais a reeleição. Escolheu o secretário da Casa Civil como sucessor e mantém a frente da secretaria de Segurança Pública o jovem delegado federal Maurício Barbosa. No interior do governo, Wagner prefere enfrentar os problemas de uma maneira menos prolixa e vai direto ao ponto ao expor as medidas adotadas para aperfeiçoar o aparelho policial da Bahia. A contração de 12 mil novos policiais mediante um cenário que possuía apenas 26 mil no efetivo, a aquisição de viaturas, aumento da gratificação, entre outras ações. Não foge da arraia e desafia os adversários.

Existe, contudo, uma neblina entre quem faz campanha eleitoral com a tragédia alheia e quem acusa o outro de montar um palanque no cemitério. As luzes só conseguem mirar a faixa eleitoral e enxergar o próximo carro à frente. Mais do que um cavalo de batalha, a questão da segurança pública virou um cavalo de tróia no interior do estado brasileiro. Uma das mais graves conseqüências do regime de 1964 foi a militarização do policiamento ostensivo e repressivo nos grandes centros urbanos do país.

Ao militarizar o policiamento, o que convinha a uma ditadura de caráter militar, o regime de 1964 provocou uma ruptura. Logo, a única alternativa é uma nova ruptura para terminar com a falsa ideia da polícia de que a repressão ao crime e a manutenção da ordem pública são atos de guerra. A Assembléia Nacional Constituinte de 1988 não teve a devida acuidade para restaurar o sistema anterior ao regime militar. Neste sentido, a solução não é rever o Estatuto da Criança e do Adolescente, como assinalou o tucano Geraldo Alckmin. Mas, não adianta tapar o sol com a peneira apenas com soluções de caráter imediatista como a contratação de mais policiais.

Com ou sem eleições, a discussão sobre o caráter civil ou militar das policias não deve ocupar o centro dos debates da política brasileira. Na Bahia, a sinalização da candidatura de Paulo Souto (DEM) ou de Geddel Vieira Lima (PMDB) pela oposição não mostra qualquer chance de dissolução do status quo da PM. Tão pouco a senadora Lídice da Mata (PSB), que apesar de ter sido vítima do regime militar, nunca mostrou interesse de instigar o debate no Congresso Nacional. Resta mais uma vez a candidatura petista do secretário da Casa Civil, Rui Costa, que íntegra um partido publicamente favorável a desmilitarização. Enquanto isso, iremos conviver – volta e meia – com esses rompantes de "heroísmos" de ex-militares candidatos a uma vaga no poder legislativo.

Sócrates Santana é jornalista

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